Conferência dos Oceanos: “Enfrentamos uma emergência oceânica”, alerta António Guterres

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Foto: Danilo Cedrone/Wiki Commons

Durante a abertura da Conferência dos Oceanos, em Lisboa, o secretário-geral das Nações Unidas apresentou quatro medidas que pretende que sejam apoiadas pelos Estados.

António Guterres, que discursou na abertura da Conferência dos Oceanos, realçou que “tomámos o oceano como garantido”, mas hoje o mundo enfrenta uma “emergência oceânica” e que é necessário agir e mudar a situação. O encontro promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU) realiza-se no Parque das Nações até sexta-feira, juntando mais de 7.000 pessoas de 142 países.

“O nosso falhanço em cuidar do oceano vai ter efeitos em cascata sobre toda a Agenda 2030”, alertou o secretário-geral da ONU, lembrando que “o oceano produz mais de metade do oxigénio que respiramos” e que é “a principal fonte de sustento de mais de mil milhões de pessoas”.

Guterres apelou a quatro medidas que deseja que recebam apoio dos Estados:

  • Todas as partes interessadas (‘stakeholders’) devem investir numa economia sustentável do oceano, assegurando financiamento a longo prazo no que respeita à alimentação, energias renováveis e subsistência. Se assim fosse, haveria seis vezes mais comida e 40 vezes mais energia renovável com origem no oceano;
  • O oceano deve tornar-se num modelo para a forma como gerimos o património comum do planeta, o que significa eliminar todos os tipos de poluição;
  • Proteger os oceanos e as populações que deles dependem dos efeitos das alterações climáticas;
  • Proteger todas as comunidades ligadas ao oceano através de um sistema de aviso precoce (‘early warning’) quanto eventos climáticos externos, como ondas de calor.

O secretário-geral lembrou que “o aquecimento global está a aquecer a temperatura do mar a níveis recorde”, dando origem a “tempestades mais assustadoras e frequentes”, enquanto que “o nível do mar está a subir”, o que coloca várias nações e cidades costeiras do mundo “sob perigo de serem inundadas”.

Mas não só. “A crise climática está também a tornar mais ácida a água do oceano, o que está a desregular a cadeia alimentar”, e por outro lado “cada vez mais corais estão a ficar ‘lixiviados’ e a morrer”.

Quanto aos ecossistemas costeiros como os mangais, pradarias marinhas e zonas húmidas, “estão a degradar-se”, e “a poluição vinda da terra está a criar vastas zonas costeiras mortas”. “Quase 80% da água usada chega ao mar sem qualquer tratamento.”

Por outro lado, acrescentou Guterres, “cerca de oito milhões de toneladas de plástico entram no oceano todos os anos”. “Se não fizermos nada, em 2050 o plástico no oceano terá um peso maior do que os peixes”, sublinhou o secretário-geral.

Guterres lembrou que estes lixos já chegaram a todos os locais do oceano, incluindo os mais recônditos, e que afectam fortemente as comunidades que dependem da pesca e do turismo. “Uma massa de plástico no Pacífico está agora maior do que a França”, exemplificou, alertando ainda para o problema das técnicas de pesca insustentáveis e da sobrepesca.

Ainda assim, contrapôs o responsável da ONU, nos últimos cinco anos têm sido dados vários passos positivos, incluindo a realização de “parcerias internacionais para a criação de áreas marinhas protegidas”, com a recuperação das pescas em locais onde foram tomadas essas medidas de gestão.

Foram também dados “passos significativos” na criação de instrumentos legais relativos à conservação e uso sustentável da diversidade biológica marinha, acrescentou Guterres, lembrando ainda a adopção de novas medidas relativas ao combate contra os plásticos e proibição de subsídios à pesca insustentável que está a tomar forma na Organização Mundial do Comércio.


Saiba mais.

Recorde aqui o que está previsto acontecer durante a Conferência dos Oceanos da ONU.

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.