Foto: Martim Melo

A descoberta de um novo mocho “que parecia o diabo” e como finalmente se quebrou o feitiço

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Martim Melo e Bárbara Freitas, cientistas portugueses que lideraram a investigação sobre o mocho-do-príncipe, contaram à Wilder as várias peripécias ligadas à descoberta desta nova espécie para a Ciência, anunciada esta semana.

Na primeira vez que viram o mocho-do-príncipe, nas florestas do sul da ilha do Príncipe em Julho de 2018, os dois investigadores estavam juntos, mas tinham memórias muito diferentes. “Para a Bárbara, [esta observação da espécie] foi na sua primeira noite na floresta, e para mim foi ao fim de 20 anos à sua procura”, recorda Martim Melo numa entrevista escrita dada por ambos, em que lembram a importância do trabalho de Bikegila, guarda do parque natural, e do ornitólogo Phillipe Verbelen, que em 2016 tirou a primeira fotografia deste mocho misterioso.

WILDER: Há quanto tempo trabalham os dois com aves na ilha do Príncipe e noutras ilhas do Golfo da Guiné? 

Martim Melo: A minha relação com São Tomé e Príncipe começou em Outubro de 1996, quando fui para lá viver um ano, após concluir a minha licenciatura. Há mais de 25 anos, portanto! Apesar de ter ido como voluntário integrado num programa das Nações Unidas para trabalhar junto a associações e cooperativas rurais, o meu interesse de sempre pelas aves fez com que ficasse mediatamente fascinado pelas ilhas.

Ainda nesse ano participei num estudo sobre as aves marinhas do arquipélago. Como a maior colónia se encontra nas Pedras Tinhosas ao largo do Príncipe, fui logo ao Príncipe várias vezes em 1997. Em 1998, escolhi fazer a minha tese de mestrado na população de papagaio-cinzento da ilha do Príncipe. Foi nesse estudo que conheci o Bikegila, que me guiou e acompanhou em todo o trabalho de campo, juntamente com o seu irmão Ito. O Bikegila era um apanhador de papagaios e por isso possuidor de um conhecimento vastíssimo da floresta e destas aves.

Ceciliano do Bom Jesus, conhecido como ‘Bikegila’, durante uma saída na floresta. Foto: Philippe Verbelen

Foi logo nesse trabalho que a ‘história do mocho misterioso’ teve início, quando me falou de duas ocasiões em que nos buracos de árvore onde os papagaios fazem o ninho, em vez de encontrarem crias depararam-se com um bicho esquisito, de olhos grandes, assustador mesmo (“parecia o diabo”!), que não conheciam. As suas reacções e descrições lembraram-me imediatamente mochos. Depois, em 2002, comecei um doutoramento sobre a evolução das aves endémicas do Golfo da Guiné, e desde então deve ser raro o ano em que não tenha estado nas ilhas.

Bárbara Freitas: O meu primeiro contacto com a ilha do Príncipe foi em 2018. No ano anterior tinha começado o meu mestrado em Biodiversidade, Genética e Evolução na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e foi aí que fiquei a conhecer o trabalho do Martim. Falei com ele e mostrei interesse em fazer a minha tese de mestrado sobre algum dos seus tópicos de trabalho, e foi assim que fiquei a conhecer o projeto do mocho-do-príncipe!

Bárbara Freitas na floresta onde habitam os mochos-do-príncipe. Foto: Martim Melo

Em julho de 2018 voava para o Príncipe pela primeira vez, para a minha primeira temporada de campo da minha tese de mestrado. Regressei no ano seguinte para a segunda temporada de campo, desta vez mais curta, para voltar às zonas onde sabíamos que o mocho estava presente. No ano passado, fui outra vez, através de uma bolsa da ‘African Bird Club’ para uma atividade de capacitação de agentes de equipas da fundação Príncipe e do Parque Natural do Obô, para a monitorização automática do mocho-do-príncipe. Por isso, embora também tenha aproveitado para conhecer São Tomé e a sua biodiversidade quando voltava do Príncipe e antes de voltar a Portugal, sempre que fui ao Príncipe foi para estudar o mocho-do-príncipe e não tive a oportunidade de trabalhar com outras espécies ou noutras ilhas. Quiçá no futuro…

W: Já conseguiram observar directamente um mocho desta espécie? E como foi? 

Martim Melo: A Bárbara e eu vimos pela primeira vez o mocho-do-príncipe juntos, em julho de 2018. Só que para a Bárbara foi na sua primeira noite na floresta e para mim foi ao fim de 20 anos à sua procura! Para mim, foi como se fosse uma ideia que se materializou à nossa frente. Uma aparição quase.

Mocho-do-príncipe. Foto: D.R.
Bárbara Freitas, Bikegila e Martim Melo com um mocho-do-príncipe. Foto: D.R.

Bárbara Freitas: Para este projeto, conseguimos capturar no total quatro indivíduos (dos quais vi três), com redes de captura próprias para o efeito. Destes mochos, recolhemos amostras de sangue para as análises genéticas e medidas de morfologia. Conseguimos observar ainda mais alguns indivíduos durante as várias noites de amostragem e trabalho de campo, e uma dessas vezes foi durante o dia.

Como o Martim disse, estávamos juntos quando vimos o mocho-do-príncipe pela primeira vez! Estava com alguma expectativa e, ao mesmo tempo, algum receio… Não sabia o quão fácil (ou difícil) ia ser ver o mocho-do-príncipe, mas sabendo que desde o momento em que surgiu a dúvida sobre a sua existência ao dia em que de facto se confirmou que estava aí (com uma foto em 2016), tinham passado vários anos, não imaginava que seria possível vê-lo logo na primeira noite na floresta do sul da ilha. Fiquei mesmo muito contente e entusiasmada!

Martim Melo: Depois da suspeita lançada em 1998, só em 2002 voltei ao Príncipe no âmbito do meu doutoramento. Nas florestas do sul do Príncipe – as florestas mais próximas da floresta original e de onde as observações das ‘aves estranhas’ provinham – tentei encontrar mais pistas. O que podia parecer-se com “procurar uma agulha num palheiro” deu um salto em frente quando numa área específica dessa floresta ouvia – só à noite, mas todas as noites – um canto desconhecido.

Podia ser um canto de mocho, mas se fosse, seria de uma espécie nova, pois era um canto diferente do canto das espécies conhecidas até então. Nos anos seguintes tentei atrair o misterioso cantor com o canto que tinha gravado, sempre sem sucesso. Em 2007, até calcorreei a ilha com o Martin Dallimer para mapear o canto – e tentar descobrir o cantor. Sempre sem sucesso.

Em 2016, quando Phillipe Verbelen vê e fotografa pela primeira vez um mocho, o feitiço desfaz-se. E à medida que vamos conhecendo a espécie, é-nos agora bastante simples ir ter com ela e observá-la.

Martim Melo na floresta, junto a um mocho-do-príncipe. Foto: Luís Valente

W: Este foi o primeiro mocho a ser descoberto na ilha do Príncipe? E de acordo com os dados genéticos, há quanto tempo se estima que esta espécie ocorra na ilha?

Bárbara Freitas: Sim, esta é a única espécie de mocho descoberta no Príncipe e estima-se que colonizou a ilha há pelo menos 1 milhão de anos. Por isso, foi provavelmente a primeira espécie de mocho a colonizar o arquipélago, apesar de ter sido a última a ser descoberta – existem duas outras espécies próximas, uma na ilha de Annobón e outra na ilha de São Tomé. 

W: E porque é que terá levado tanto tempo a ser descoberta? Terá a ver com as dificuldades do terreno onde ocorre?

Martim Melo: Animais nocturnos são à partida sempre mais difíceis de detectar do que os diurnos. No caso dos mochos-d’orelhas (género Otus ao qual pertence o mocho-do-príncipe), a dificuldade acresce por serem pequenos e discretos e por terem uma plumagem com que se camuflam durante o dia.

Neste caso, como viemos a saber, esta espécie está restrita à floresta de melhor qualidade, mais próxima da floresta original da ilha, que hoje só se encontra no sul. A razão para a floresta mais bem preservada estar no sul do Príncipe é por esta ser a parte da ilha de mais difícil acesso e onde a progressão é muitas vezes difícil. Acresce ainda que é a zona onde chove mais. Assim, nunca foi muito visitada, nem sequer por ornitólogos.

Vista aérea da parte sul da ilha do Príncipe. Foto: Alexandre Vaz

Em 1928, o naturalista português José Correia veio com a sua mulher Virgínia Correia a São Tomé e Príncipe para a colecta de aves para as colecções do Museu de História Natural Americano. Sofreu muito nestas florestas – no seu diário escreveu que já tinha estado em muitos terrenos difíceis, mas que as florestas do sul do Príncipe eram de longe as piores!

Confesso também que a descoberta pode ter sido atrasada pelo que podíamos chamar de ‘falta de confiança’: custava-me acreditar que existisse aqui uma espécie nova de ave que tinha passado despercebida de todos até hoje. Achava que devia estar enganado – aquele canto devia ser de um insecto ou assim. Após o Philippe Verbelen, observador de aves com uma predilecção por aves nocturnas, ter confirmado a existência do mocho, vi-o na primeira noite em que regressei à floresta! [Parece estar aqui uma lição para aqueles livros de auto-ajuda!]

Pormenor da floresta que serve de habitat ao mocho-do-príncipe. Foto: Alexandre Vaz

W: Até que ponto é que tiveram importância, neste trabalho, o guarda do parque natural Bikegila e o ornitólogo amador Philippe Verbelen?

Martim Melo: Se hoje existe um mocho-do-príncipe é graças ao Bikegila. E espero que isso seja claro no nome que foi dado à espécie [Otus bikegila]! Foi o Bikegila que partilhou comigo os dois casos de ‘bichos estranhos’ em ninhos de papagaios que deram início à saga para encontrar esta espécie. E é preciso compreender que os papagaios fazem os ninhos dentro de buracos de árvores, geralmente a mais de 20 metros de altura – são árvores enormes a que é preciso trepar com imensa habilidade e força.

Algumas das árvores nas quais nidifica o mocho-do-príncipe. Foto: Alexandre Vaz

Essa partilha de uma informação que parece simples só ocorreu graças a anos de enorme esforço. Depois da suspeita lançada, o Bikegila participou em todos os esforços que levaram a este desfecho. No terreno, mais do que participante, o Bikegila foi acima de tudo um coordenador. E também foi com o seu engenho que foi possível montar redes para apanhar aves em altura. 

Por sua vez, o Philippe Verbelen foi muito importante para quebrar o enguiço. Ao ler um artigo onde eu e o Martin Dallimer apresentávamos a evidência que apoiava a provável existência de um mocho no Príncipe, contactou-me. Para ele era mais do que certo que tinha de existir um mocho. Ajudei-o a organizar a viagem. O Bikegila levou-o aos sítios do costume e na quarta noite conseguiu a primeira prova de que de facto existia um mocho no Príncipe. O seu acreditar que existia um mocho e o seu empenho em demonstrá-lo permitiram esta descoberta.

W: Quanto ao futuro desta espécie, até que ponto é que a construção da barragem hidroelétrica poderá afetar a sua área de ocorrência?

Martim Melo: Este assunto preocupa-nos, sem dúvida. Não é a barragem em si que vai ser construída dentro do parque, mas uma componente grande do sistema de canalização associada. Este vai atravessar uma das zonas do Parque Natural onde a espécie está presente. Haverá a necessidade de recorrer ao corte de árvores ao longo de uma faixa de território importante para o mocho-do-príncipe. Para além do abate de árvores, toda a perturbação associada ao período de construção deverá ser prejudicial para a espécie, visto os nossos dados indicarem que evita locais com perturbação humana.

W: E a monitorização deste mocho, por quanto tempo está prevista?

Bárbara Freitas: O ideal é que a monitorização do mocho-do-príncipe seja integrada num esforço de monitorização anual do Parque Natural, implementado a longo prazo. Este deverá contribuir para aumentar o conhecimento atual sobre a ecologia da espécie, que será fundamental para determinar as tendências populacionais e, assim, melhorar as futuras avaliações do estado de conservação e permitir ajustes das ações de conservação. Este esforço ainda não foi iniciado, mas esperamos que a publicação destes artigos, a ação de capacitação para a monitorização automática realizada em 2021 e a nossa contínua assistência sejam o impulso necessário.

O mocho-do-príncipe. Foto: Martim Melo

W:  Programas de inteligência artificial [como o que foi utilizado na vossa investigação] podem ser uma resposta à falta de meios para a monitorização de outras espécies em risco, não só no Príncipe mas também noutros locais?

Bárbara Freitas: O método que usamos combina o uso de unidades de gravação automáticas (dispositivos AudioMoth) com um ‘pipeline’ de análise automática de dados (implementado com o software TADARIDA). E obtivemos resultados de presença do mocho-do-príncipe tão bons quanto os obtidos por observação direta. Estudos recentes também mostraram um desempenho comparável ou melhor deste tipo de técnicas em relação à observação humana.

Os programas de inteligência artificial melhoraram muitos nos últimos tempos e o seu uso tem vindo a aumentar cada vez mais. O desempenho destes métodos dependerá principalmente da capacidade de atribuir sons corretamente às espécies de interesse, o que dependerá da vocalização em si (quão diagnóstica, distinta) e da paisagem sonora local (ruído ambiente, grau de sobreposição com outras espécies vocalizantes e contexto). Essas variáveis determinarão em primeiro lugar a viabilidade do uso destes métodos para uma determinada espécie.

Barbara Freitas e Martim Melo. Foto: Luís Valente

Depois de provado o bom desempenho para uma determinada espécie, estes métodos poderão ser aplicados com muito menos custos e esforço que os métodos tradicionais de observação direta: serão necessárias menos visitas ao campo e permitirá a obtenção de dados por períodos de tempo mais longos. Isto é particularmente relevante em espécies como o mocho-do-príncipe que ocorrem em locais remotos e onde a progressão no terreno é difícil, sobretudo à noite.

Além disso, estes métodos não exigem que todos os técnicos de campo saibam o canto das espécies em questão. Por estes motivos, o seu uso poderá ser uma solução para a monitorização de espécies em risco a nível global.

W: Por fim, ainda há espaço para a descoberta de outras espécies de aves para a Ciência na ilha do Príncipe e noutras ilhas do arquipélago?

Martim Melo: As aves são o grupo animal melhor conhecido e estudado. Por isso, descobrir novas espécies de aves é sempre raro e especial. No entanto, como o mocho-do-príncipe demonstra, nunca se sabe. Mas parece-me improvável, com a atenção dada às ilhas nos últimos anos, que isso venha a acontecer.

No entanto, estou envolvido desde 1997 noutra saga com algumas semelhanças à do mocho, esta com início em 1928. Um dos objectivos do estudo das aves marinhas de São Tomé e Príncipe, que realizámos nesse ano, era encontrar os locais de nidificação de um paínho, uma espécie de ave marinha pelágica. Este paínho que pode ser visto em alto mar foi identificado como sendo o roquinho Hydrobates castro. No entanto, em 1928, José Correia tinha apanhado quatro exemplares que foram contra uma janela numa noite de nevoeiro. E as suas medidas são maiores do que o habitual para a espécie.

Em busca do paínho, todas as pedras e ilhéus foram visitados e revirados pela equipa do Luís Monteiro e da Rita Covas, mas sem sucesso, pelo que concluímos que poderia nidificar dentro da floresta. E assim, a primeira vez que entrei nas florestas do sul de São Tomé, com a Rita Covas, foi em busca de uma ave marinha e não do impressionante número de aves endémicas que aí se encontram!

Neste momento, com outros colaboradores como o Ricardo Lima, já conseguimos identificar uma zona da floresta onde se ouvem os paínhos durantes alguns meses do ano. Falta agora descobrir ninhos para se poder estudar essa ave e concluir se é uma população de uma espécie já existente (provavelmente a que existe em Cabo Verde, Hydrobates jabejabe) ou, quem sabe, uma nova espécie. Claro que neste caso trata-se de uma correção da taxonomia mais do que uma descoberta – pois há muito que se sabe que esta espécie, conhecida pelos pescadores como ‘caniboto’, ocorre nos mares do arquipélago.

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.