Chapim-real (Parus major). Foto: Luc Viatour/Wiki Commons

Estudo revela que o cantar das aves na Primavera está cada vez mais silencioso

Uma equipa internacional de investigadores juntou registos sonoros de aves na Europa e na América do Norte para reconstruir as paisagens sonoras de mais de 200.000 locais, nos últimos 25 anos.

O estudo, coordenado pela Universidade de East Anglia, do Reino Unido, desenvolveu uma nova técnica que combina dados de iniciativas de ciência cidadã com gravações captadas individualmente.

“O canto das aves tem um papel importante na definição da qualidade das experiências que temos na natureza, mas os declínios generalizados das populações de aves e as alterações na distribuição das espécies, em resposta às alterações climáticas, significam que as propriedades acústicas das paisagens sonoras naturais estão provavelmente a mudar”, nota Simon Butler, autor principal do estudo publicado esta semana na revista Nature Communications, num comunicado da Universidade de East Anglia. “No entanto, não existem gravações históricas de sons para a maioria dos lugares, e por isso tivemos de desenvolver uma nova maneira de fazermos esta análise.”

Desta forma, os cientistas combinaram dados das contagens anuais de monitorização de aves nidificantes na América do Norte (North American Breeding Bird Survey) e de aves comuns na Europa (Pan-European Common Bird Monitoring Scheme) com registos de mais de 1000 espécies no xeno-canto, uma base de dados online, para reconstruir as paisagens sonoras do passado. A equipa cruzou os dados obtidos com diferentes índices de variedade e a complexidade musical de cada espécie.

“Encontrámos um declínio generalizado na diversidade e na intensidade acústica das paisagens sonoras naturais, guiado por mudanças na composição das comunidades de aves”, explica o investigador.

Impactos para a saúde humana

“Estes resultados sugerem que o registo sonoro da Primavera está a ficar mais silencioso e menos variado e que um dos principais meios pelos quais os humanos se envolvem com a natureza está em declínio crónico, com implicações potencialmente generalizadas para a saúde e o bem estar das pessoas“, avisa Simon Butler.

“Uma vez que as pessoas ouvem as aves, mais do que as vêem, as reduções na qualidade das paisagens sonoras naturais são provavelmente a forma pela qual o declínio continuado das populações [de aves] mais se faz sentir junto do público em geral.”

E é possível perceber de que forma a estrutura de uma comunidade de aves de traduz nas características da paisagem sonora que lhe corresponde? Não é fácil, responde Catriona Morrison, também da East Anglia University, que liderou estas análises. “Em geral, descobrimos que os locais onde aconteceram os maiores declínios, seja na abundância total de aves seja na diversidade de espécies, mostram descidas maiores da diversidade e da intensidade acústica.”

No entanto, acrescenta, a perda de espécies “como a laverca ou o rouxinol, que cantam canções ricas e intrincadas”, pode ter um impacto maior do que aves como um corvo ou uma gaivota.

A investigadora chama também a atenção para a importância da conexão entre humanos e natureza. “À medida que colectivamente ficamos menos cientes do mundo natural que nos rodeia, também começamos a reparar e a pensar menos sobre a sua deterioração. Estudos como o nosso querem chamar a atenção para estas perdas numa forma tangível e com a qual nos podemos relacionar, demonstrando o impacto que podem ter no bem estar humano.”

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.