Rã-verde (Rana perezi). Foto: Júlio Reis/Wiki Commons

Estudo traz boas notícias para os anfíbios: Criar novos charcos ajuda. E muito

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Apesar de várias ameaças como os pesticidas e as alterações climáticas, rãs, sapos e outros anfíbios beneficiam efectivamente de medidas de conservação da natureza como a construção de charcos, comprova um artigo científico agora publicado.

 

Os resultados desta investigação, realizada por cientistas suíços, foram publicados esta semana na PNAS – Proceedings of the National Academy of Sciences e resultam da monitorização dos anfíbios no cantão de Aargau, no norte do país, entre Basileia e Zurique.

Tal como em Portugal, na Suíça várias espécies de rãs, sapos e salamandras estão em risco de extinção devido a diferentes problemas: a perda dos habitats, doenças mortais provocadas por fungos como o Batrachochytrium dendrobatidis, o uso de pesticidas na agricultura, atropelamentos rodoviários e ainda as alterações climáticas.

Algumas dessas ameaças são difíceis de combater, mas pelo menos a perda de habitats tem agora confirmada “uma solução relativamente simples”, sublinha uma nota publicada pelo WSL – Instituto Federal Suíço para a Pesquisa sobre Floresta, Neve e Paisagem, responsável pela nova  investigação em conjunto com o Eawag – Instituto Federal Suíço para a Ciência e Tecnologia Aquáticas.

Apoiada por informação do Centro de Coordenação para a Protecção dos Anfíbios e Répteis da Suíça, a equipa conseguiu provar que “a criação em larga escala de novos charcos beneficia realmente os anfíbios”. Esta conclusão resulta da análise de dados de monitorização no cantão de Aargau, onde mais de 400 novos charcos têm sido criados ao longo de mais de duas décadas foram ganhando novos ocupantes como rãs, sapos e salamandras.

Sapo-parteiro-comum (Alytes obstetricans). Foto: Felix Reimann/Wiki Commons

Resultados: entre 1999 e 2019, 10 das 12 espécies de anfíbios monitorizados registaram aumentos, uma espécie não se alterou, mas continuou em declínio a nível nacional (sapo-parteiro-comum Alytes obstreticans, existente em Portugal) e apenas uma continuou a declinar (sapo-corredor Epidalea calamita, também existente em Portugal). “Ficámos surpreendidos pela clareza dos resultados, especialmente tendo em vista que as outras ameaças não diminuíram entretanto”, explicou Helen Moor, ecologista e investigadora do WLS e do Eawag, que liderou o estudo.

 

Tamanho e quantidade também contam

As conclusões agora divulgadas só foram possíveis devido a um programa de monitorizações de longo prazo das populações de anfíbios em Aargau, que se realiza desde 1999 ao longo dos vales de cinco rios importantes naquela região, com um forte apoio de voluntários. Por sua vez, os cientistas ligados ao projecto “introduzem os dados obtidos num modelo estatístico complexo”, descreve o WLS.

“Por um lado, o modelo [estatístico] compensa pelos erros que podem ocorrer durante a observação. Por outro, o modelo permite aos investigadores preverem como é que a ocupação dos charcos se altera ao longo do tempo.”

Sapo-corredor. Foto: Frank Vassen/WikiCommons

Assim, a equipa percebeu que quanto maior é a dimensão de um charco recém-criado, maior é a possibilidade de que venha a receber hóspedes como rãs, sapos e outros anfíbios. A proximidade de florestas também ajuda, tal como a existência de outros charcos próximos.

A rela da espécie Hyla arborea, que ocorre também em Portugal, teve por exemplo uma “recuperação espectacular” no vale de Reusstal, assinalam os investigadores no estudo publicado. A equipa deverá agora estudar se esse crescimento se deveu apenas aos novos charcos e de onde é que os animais migraram.

Rela-comum (Hyla arborea). Foto: Charles J. Sharp/Wiki Commons

Já no caso do sapo-corredor, a única espécie que declinou ao longo dos 20 anos deste estudo, “prefere áreas muito vastas e abertas que são inundadas temporariamente com níveis de água flutuantes”, critérios específicos que “devem ser tidos em conta quando se constroem charcos” e que não terão sido tidos em conta em Aargau, sublinha Helen Moor.

“Embora os relatos negativos da perda de biodiversidade possam ser avassaladores, o nosso estudo mostra que vale a pena aplicar medidas de conservação e que as populações podem recuperar”, destaca a investigadora. “Mais cedo ou mais tarde, cada charco que é criado é valioso para os anfíbios.”

O projecto de Aargau tem contado com a parceria e a vontade tanto das autoridades políticas do cantão, como das organizações locais e dos proprietários dos terrenos, nota também a informação divulgada pelo WLS. E no que respeita ao sapo-corredor, os resultados do estudo vão agora traduzir-se na tomada de novas medidas quando se construírem mais charcos.

 


Agora é a sua vez.

José Teixeira, investigador ligado ao projecto português Charcos com Vida, explica como é que podemos construir charcos e atrair libélulas e anfíbios para os nossos jardins.

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.