Lobo-ibérico. Foto: Arturo de Frias Marques/Wiki Commons

Investigadores em Espanha avisam que estudos sobre o lobo são demasiado optimistas

Um estudo do Museu Nacional de Ciências Naturais de Madrid concluiu que os métodos utilizados para avaliar a situação da espécie tendem a sobrestimar o tamanho das populações e o seu êxito reprodutivo.

Os resultados da investigação relativa ao lobo-ibérico (Canis lupus signatus), agora publicados na revista Hystrix the Italian Journal of Mammalogy, dizem respeito à monitorização das populações de lobos do Sistema Central – uma das principais cordilheiras da Península Ibérica – entre 2010 e 2018. O Sistema Central situa-se entre a bacia hidrográfica do Douro e a bacia hidrográfica do Tejo e tem continuação em Portugal nos distritos de Castelo Branco e da Guarda.

Nesta área geográfica espanhola, os lobos desapareceram em 1976 e regressaram apenas 30 anos mais tarde, em 2006. As alcateias que recolonizaram esta zona situam-se a sul do Douro, uma área onde em Portugal é conhecida também uma pequena população desta espécie.

Durante o estudo agora publicado, as técnicas utilizadas foram não invasivas: detecção de pegadas de lobo nos percursos de amostragem, detecção de excrementos para delimitar os territórios das alcateias, colocação de câmaras de foto-armadilhagem.

Ao longo do trabalho, os investigadores aperceberam-se de que “poucas alcateias têm uma actividade reprodutiva regular que permita, a longo prazo, assegurar descendência e expandir-se para outros territórios”, indica em comunicado o Museu Nacional de Ciências Naturais de Madrid.

A equipa comparou também os resultados obtidos com estudos anteriores de outras equipas, realizados em áreas com condições ecológicas semelhantes, concluindo que “os dados que se utilizam para estabelecer sistemas de protecção tendem a extrair conclusões demasiado optimistas sobre o estado das populações de lobo”.

Os estudos que são normalmente realizados duram apenas dois anos, explica Victoria González, investigadora do MNCN, que considera que “com as avaliações actuais não se pode determinar, sem uma margem de erro significativa, se a população está a aumentar, a diminuir ou está estável”. Esse tipo de estudos, indica, “não se podem substituir a um estudo da dinâmica da população, que requer um seguimento no mínimo de 10 a 15 anos”.

Ao longo dos oito anos deste estudo, os investigadores perceberam que a população de lobos nesta área de Espanha, onde a espécie tem protecção máxima pelas regras europeias, mostram já sintomas de estagnação e declínio generalizados.

“Segundo os resultados da nossa investigação, as alcateias distribuídas no Sistema Central devem ter pelo menos quatro indivíduos para assegurarem a reprodução; mas isso é pouco frequente, porque temos visto que o tamanho médio das alcateias é de 3,5 lobos”, afirma Fernando Palacios, outro dos membros da equipa.

“Esta tendência faz com que tamanhos pequenos de alcateias influenciem de forma negativa as taxas de reprodução do logo e indica que o seu estado de conservação na zona é desfavorável.” O investigador atribui o aumento de mortalidade destes lobos à acção humana, tanto devido à caça furtiva como aos atropelamentos.

Assim, para evitar decisões erradas de gestão do lobo-ibérico que comprometam o futuro deste mamífero em Espanha, a equipa defende que é necessário mais esforço de amostragem e métodos de monitorização mais precisos.

Em Portugal, têm estado também a ser realizados estudos sobre a situação actual das populações da espécie, que deverão ser conhecidos em breve.

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.