Lince-ibérico. Foto: Programa de Conservação Ex-Situ

Investigadores foram ao Vale do Guadiana saber se o lince é, ou não, um aliado dos caçadores

Uma equipa de investigadores portugueses e espanhóis esteve no Parque Natural do Vale do Guadiana para tentar responder à pergunta: será o lince-ibérico um aliado dos caçadores? O resultado do seu trabalho foi agora publicado na revista Journal for Nature Conservation.

O lince-ibérico (Lynx pardinus) é um dos felinos mais ameaçados do mundo e uma elevada proporção das suas populações ocorre em zonas de caça à perdiz-vermelha (Alectoris rufa) e ao coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus), espécies cinegéticas de elevado valor socio-económico e presas-chave do lince.

Outrora com uma vasta distribuição na Península Ibérica, este felino viu as suas populações diminuirem no século XX e no início do século XXI restavam apenas duas sub-populações isoladas no Sul de Espanha. Em 2002, o lince-ibérico foi classificado como espécie Criticamente Em Perigo, restando então menos de 200 indivíduos. Entre as explicações desse declínio está o declínio de outra espécie, o coelho-bravo, a sua presa mais importante, e a perda e fragmentação de habitat.

Entretanto, graças a medidas de conservação, a espécie conseguiu melhorar um pouco, subindo um degrau para o estatuto de Em Perigo de extinção.

Neste estudo feito no município de Mértola, dentro do Parque Natural do Vale do Guadiana, a equipa de investigadores portugueses e espanhóis – da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, da Fundación Artemisan, do CECAV – Centro de Investigação Animal e Veterinário, em Vila Real, e Universidade de Leão – avaliou as práticas de gestão de caça, a abundância de perdizes e coelhos e a ocorrência de raposas ou fuinhas em quatro zonas de caça, duas com e duas sem reprodução de linces. Em cada uma das áreas foi estudada uma área com cerca de 500 hectares.

Os investigadores fizeram censos a perdizes, coelhos e aos seus principais predadores, nas primeiras três horas depois do nascer do Sol e três horas antes do pôr-do-Sol, horas de pico de actividade para aquelas espécies. Registaram as espécies observadas, o número de indivíduos, a data, a hora e as coordenadas geográficas.

Foi feita também foto-armadilhagem para avaliar a ocorrência de espécies nocturnas, com cinco câmaras por zona de caça. Conseguiram um total de 40.414 fotos onde apareceram 7.426 animais de 23 espécies diferentes. Os linces foram captados em 4.3% dos dias de foto-armadilhagem.

Os resultados mostram que as duas zonas com reprodução de linces têm maior abundância de perdizes e coelhos e menor ocorrência de raposas e fuinha. Segundo os investigadores, “estes resultados confirmam que o lince actua como um gestor de caça natural”. Além disso, sublinham, “em todas as quatro zonas de caça, os gestores consideraram os linces como aliados”.

Isto porque o lince pode aumentar os números de perdizes e de coelhos através da supressão de raposas e fuinhas, por exemplo, nas zonas de caça. Onde o lince estava presente foi registada uma presença mais baixa de raposa, fuinha e sacarrabos. Não foi detectado um efeito claro do lince na presença de texugos, ginetas ou gatos domésticos.

“A densidade de perdizes e coelho registadas nas duas zonas de caça com linces foi muito maior do que a registada nas zonas geridas para a caça pequena que faziam a remoção de predadores na ausência de linces”, explicam ainda os autores do estudo.

Segundo os investigadores, o lince reduz os mesocarnívoros que impedem que as perdizes e os coelhos atinjam densidades médias-altas.

“Nas áreas que estudámos, os linces não eram perseguidos mas antes sim considerados um elemento chave na gestão da caça, aliados.”

De acordo com os investigadores, “as estratégias de recuperação e conservação do lince baseiam-se em conseguir disponibilizar habitat favorável e uma densidade mínima de coelho, permitindo a ligação entre diferentes núcleos através da redução de causas não naturais de mortalidade. Por isso, apoiar a gestão do habitat em zonas de caça deveria ser um primeiro passo para a recuperação de coelho e do estabelecimento do lince, com sucesso, mas sem descartar outras medidas, como as reintroduções de coelho e remoção selectiva legal de predadores. Neste processo, gestores, caçadores e proprietários devem ser envolvidos para garantir uma recuperação a longo prazo deste felino ameaçado”.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.