Fotos: João Rodrigues

João Rodrigues: de menino que gostava de animais a comunicador do oceano

Naturalistas

Biólogo, mergulhador, fotojornalista, empresário, homem do oceano. João Rodrigues, 29 anos, dedica-se à conservação dos oceanos e está a trabalhar num livro e filme sobre o cavalo marinho da Ria Formosa, “Cavalos de Guerra”. A Wilder esteve à conversa com este apaixonado pela vida marinha.

 

Aos seis anos, João Rodrigues disse à avó que queria estar perto dos animais quando fosse grande.

A criação desta ambição e o primeiro contacto com a natureza chegou-lhe através dos documentários de Vida Selvagem, com a voz de Eduardo Rego, e do naturalista britânico Sir David Attenborough.

Aos 17 anos partiu de Torres Novas e foi estudar Biologia na Universidade do Algarve. O pai preferia que seguisse uma área que levasse a um emprego com futuro, como medicina ou advocacia; a mãe encorajou-o a fazer o que gostava. No meio estudantil, os amigos apoiavam-no, mas não deixou de sentir que viam os seus ideais mais como um passatempo do que uma possível carreira.

Na nova cidade, Faro, sentiu-se em casa. Estava perto do oceano e “rodeado de colegas, que se tornaram amigos para a vida, que gostavam das mesmas coisas que eu” contou João Rodrigues à Wilder.

Durante os primeiros anos de licenciatura não tinha em mente a especialização no meio marinho, apesar de adorar o mar. Era com a savana que sonhava, “ir para África, estar dentro de um jipe, com um chapéu de explorador”.

 

 

Muitos colegas faziam mergulho e um dia foi encorajado a experimentar. “Vais ficar deslumbrado, diziam”. Depois de hesitar, fê-lo e descobriu que os amigos tinham razão.

A palavra que rege a vida de João Rodrigues, segundo o seu amigo Mauro Hilário, é “paixão”. “No início da faculdade, foi dos que se teve de perder no caminho várias vezes para mais tarde se encontrar. Ao iniciar-se no mergulho e abrir os olhos debaixo de água, fez-se o clique.”

 

Da Biologia à Conservação marinha

Um dia, João Rodrigues foi convidado por Diogo Paulo – atualmente vice-presidente da APORMC, a associação portuguesa de mergulhadores científicos, e professor/orientador do centro de mergulho científico da Universidade do Algarve – para ir mergulhar com ele para as ilhas Canárias. “Fiquei honrado, claro. Iria fazer uma coisa que adorava, que era mergulhar, em condições paradisíacas, e fazer ciência debaixo de água”, lembrou. “Foi esse o ponto de viragem.”

O mestrado escolhido foi então o de Biodiversidade e Conservação Marinha. O primeiro ano foi passado em Faro, mas como parte de um consórcio de seis universidades, estes estudos levaram-no à Lituânia, Eslovénia e Bélgica. Por exemplo, quando esteve no primeiro país, mergulhou entre os naufrágios da Segunda Guerra Mundial, onde a vida marinha se adaptava a conviver com os destroços.

No verão de 2012, João Rodrigues foi convidado pela agência internacional de mergulho Global Underwater Explorers para ser mergulhador de assistência no Algarve, com a universidade. “Eu zelava pela segurança de quem mergulhava mais fundo”, explicou.

 

Ganhar mestria na arte do mergulho

Mergulhar é uma competência que requer treino e resistência. E dinheiro para comprar o equipamento. Com esse fim, trabalhou em bares de praia e em outros trabalhos que conseguia arranjar, ainda durante os estudos, para poupar dinheiro e comprar equipamento. Com o tempo, combateu obstáculos como os consumos de ar, que treinou com a corrida.

A dada altura decidiu investir num curso de instrutor de mergulho. Quando se tem a Biologia como base profissional, “ou vamos para a investigação, que é um nicho muito pequeno, ou podemos terminar no desemprego”. Por isso, investiu naquele curso de instrutor de mergulho e começou a apostar na hipótese de procurar um emprego nesta área, depois de terminar o mestrado.

 

 

A profissão mantinha-o ligado ao mar e pagava as contas. Mas não deixou a Ciência para trás. Quando não estava a trabalhar, fazia trabalhos de investigação, pagando do seu bolso, e continuando o voluntariado no CCMAR – Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve. Dedicou-se a perceber os fatores que condicionavam a evolução das espécies nos ecossistemas das grutas subaquáticas.

Tal levou a um projeto de mapeamento, desenvolvido com entidades como o CCMAR e o CIMA (Centro de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Algarve), que explorou grutas em Sagres. E pela primeira vez experimentou fazer sensibilização para o público. E assim despertou outro interesse: a comunicação de ciência “para o comum mortal”.

Mais tarde, já a trabalhar para o CCMAR, foi convidado a participar em campanhas de monitorização de pesca e a coordenar projetos de alunos de mestrado, como investigador. Acabou por sentir que estava a estagnar. E mudou-se para os Açores.

 

No Pico

“Queria perceber como se trabalhava com empresas marítimo-turísticas que abraçavam a Ciência no seu negócio”, explicou João Rodrigues. Quando chegou ao arquipélago, arranjou emprego como gerente do centro de mergulho de uma empresa que faz observação de cetáceos e mergulhos com tubarões.

“Tem de haver grandes saltos para haver mudanças. Se sairmos da nossa zona de conforto, as coisas acontecem. O caminho que fazemos é moldado pela nossa personalidade.”

Com este emprego, João Rodrigues contacta com cadeias televisivas que faziam documentários de natureza, incluindo a BBC. João Rodrigues colaborou para programas como “Blue Planet II” e conheceu fotógrafos profissionais nacionais como Nuno Sá. Prestou segurança e ajudou na montagem de cenários enquanto contactou com produtores e equipas de filmagem internacionais, e viu o seu nome aparecer nos créditos. E pela primeira vez, fotografou, com uma Canon 7D.

João Rodrigues, um autodidata, explica que preencher artigos e histórias com as suas imagens é o que mais gosta de fazer. Começou a fotografar em 2016 e dedicou-se a aprender através da leitura de livros e vídeos no YouTube sobre o tema.

 

O mergulho para o jornalismo

Num ano, teve o primeiro trabalho para a revista National Geographicpublicado. E assim, o jornalismo e fotojornalismo focado na conservação marinha tornava-se uma possibilidade real. Desde criança sonhava com isso. Defende que a fotografia é “das ferramentas mais fortes para a conservação. Uma imagem vale mais de mil palavras”.

Quando percebeu que era possível, tornou-se membro e colaborador de imprensa, conseguindo os títulos necessários. Já publica para aquela revista há um ano. O segredo para dar todas estas viradas, defende, é “a paixão pelo que fazes, que ajuda a lidar com portas fechadas. Três, quatro fechadas, há mais mil portas diferentes onde se pode bater”. Outro segredo é procurar inspiração nos exemplos de outras pessoas que venceram dificuldades e tiveram sucesso.

Para continuar a fazer o que gosta, criou a Chimera Visuals, uma empresa de produção audiovisual focada na conservação marinha.

 

Encontros marcantes

Ambiente aquático preferido? Um que tenha os animais “mais carismáticos e fascinantes”, é a resposta de João Rodrigues. Entre as interações que tiveram mais impacto, relembra duas. A primeira aconteceu nos Açores, quando nove tubarões se alimentavam de uma carcaça de baleia-comum de 15 metros.

O outro foi na Noruega, quando 30 orcas passaram pelo seu grupo. Ficou fascinado, mas a sentir-se pequeno e com um enorme respeito, perante uma mãe orca que se aproximou com investidas, para mostrar aos humanos quem mandava, enquanto ela estivesse com a cria.

“Às vezes custa-me a acreditar”, confessa. “A minha família sempre me apoiou, mas dizia-me que tinha sonhos a mais e que iria descer à terra. E em 2018, percebeu finalmente a minha missão e felicitou-me pelo meu trabalho”.

Neste momento está a produzir um livro e um filme sobre o cavalo marinho da Ria Formosa, “Cavalos de Guerra”.

“Além de saber o que faz, o João luta por uma das causas mais nobres à face do planeta Terra: a conservação da Natureza”, comentou Mauro Hilário. “Exemplo disso é o trabalho nos “Cavalos de Guerra”, transformando-se num dos maiores e melhores ativistas pela sobrevivência dos cavalos-marinhos da Ria Formosa.”

Em cima da mesa também estão um projeto com mantas – para mostrar a situação da pesca desta espécie na Ásia e o bom exemplo português na interação sustentável com estes animais, nos Açores – e um embarque numa reserva marinha total no México. Aqui, o objectivo é mostrar aos decisores políticos portugueses um exemplo de conservação marinha de sucesso além-fronteiras. “A ideia é conseguir inspirar para que se faça por cá o mesmo”.  

 

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