Durante um dia acompanhámos no terreno Joana Vieira, investigadora que se dedica ao estudo de líquenes. Descubra de que forma estes seres vivos nos contam estórias. 

 

O tronco de árvore está repleto de líquenes verdes. Joana Vieira, investigadora do cE3c – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa), pousa a sua mão nesta superfície viva. A manhã de Novembro amanheceu fresca. “Como esteve a chover, eles estão todos com uma cor muito semelhante, mas se calhar daqui a uma hora já têm cores diferentes.”

Joana está no Jardim do Campo Grande, em pleno coração da cidade de Lisboa e apenas a alguns passos do laboratório da Faculdade. Mas poderia estar em qualquer outro parque urbano. O seu objeto de estudo encontra-se em quase todos os troncos de árvores, embora passe frequentemente despercebido a um olhar menos atento. Esta bióloga dedica-se a estudar líquenes, uma associação entre algas e fungos. Um pequeno mundo quase invisível composto por mais de 18.000 espécies.

Um saco de pano está encostado ao tronco da árvore, no chão do jardim ainda molhado da chuva recente. Tem lá dentro uma caixa com vários compartimentos cheia de amostras de pequenos líquenes recolhidos em vários parques. Pelo saco entreaberto vê-se também uma grelha e um guia de campo plastificado.

A investigadora vai passeando os dedos pelo tronco da árvore tentando identificar as manchas verdes. De tempos a tempos retira do saco o guia de campo com as fotografias, nomes e descrição das espécies mais frequentes na cidade para confirmar a identidade de determinado líquen. “Para um olho bem treinado, algumas espécies são imediatamente identificáveis. Em sítios como este, com menos espécies, já sabemos de antemão aquelas que poderão existir”, explica Joana.

 

Tronco com líquenes no Jardim do Campo Grande

 

Uma das principais razões para os líquenes estarem ou não presentes nas árvores é a sua elevada sensibilidade à poluição atmosférica. Uma vez que não têm raízes nem cutícula (uma camada protetora) têm que absorver todos os nutrientes do ar. E se o ar estiver muito poluído, “absorvem também os poluentes que estão na atmosfera”. Assim, para além de darem cor às árvores, também contam uma estória, ao ajudar a perceber qual a qualidade do ar das zonas onde ocorrem.

Joana abre o saco e tira uma grelha com cinco quadrados de 10 cm cada, feita com dois tubos de plástico e cordão. Encosta-a à árvore cuidadosamente e prende-a com 4 pioneses coloridos. É com a ajuda desta grelha que consegue avaliar a diversidade de líquenes no tronco da árvore, uma maneira de usá-los como bioindicadores da qualidade do ar. “O que fazemos é colocar a grelha sobre a árvore e contar os líquenes dentro de cada quadrado”, esclarece a bióloga. “Depois, numa folha, registamos as espécies que estão presentes em cada quadrado. Normalmente fazemos isto em várias árvores, à volta de cada uma”.

Depois da grelha colocada, Joana debruça-se sob os líquenes no tronco da árvore. O silêncio é interrompido por um avião que cruza o céu, não muito longe do topo das árvores lembrando que está mesmo no meio da cidade.

“Normalmente, quanto menor a qualidade do ar, menor o número de espécies. Aqui a riqueza de líquenes não é muito grande, mas este não é um dos sítios piores da cidade. Temos aqui cerca de cinco espécies, o que quer dizer que para a cidade esta é uma zona intermédia a nível de poluição”.

Mas não basta analisar a diversidade de líquenes. Diferentes espécies têm resistências distintas à poluição. Por isso, depois de identificar as espécies presentes na árvore, a investigadora usa uma base de dados para saber qual a sensibilidade daquela espécie à poluição. Assim consegue ter uma noção do nível de poluição daquela zona.

Joana aponta para um líquen que parece uma alface minúscula. “Os níveis de poluição variam normalmente entre um e cinco. Esta espécie, por exemplo, é tolerante à poluição, diria que está no nível 5”.

Depois de fotografar os líquenes, a investigadora pega no guia de campo e, de saco de pano ao ombro, passeia por entre as árvores. Está à procura de espécies de líquenes diferentes, mas sem sucesso. “Aqui acabamos por ter líquenes muito semelhantes. Em Monsanto teríamos líquenes diferentes.”

 

A riqueza de Monsanto

 O chão no Parque Florestal de Monsanto está húmido e coberto de folhas que estalam debaixo dos pés. Joana aponta para o tronco curvo e rugoso de uma árvore. “Assim de repente, devem estar aqui mais de 10 espécies de líquenes”.

A cada passo da bióloga, o emaranhado de vegetação torna-se mais denso. As árvores ficam mais próximas umas das outras. Apenas se distingue o leve sussurrar das folhas nas árvores. Ocasionalmente, uma ave surpreende com o seu canto. A quantidade e diversidade de líquenes vai também aumentando. A investigadora para repentinamente perto de uma árvore cujo tronco alberga as mais variadas formas, cores e padrões. Os ramos da árvore parecem felpudos por causa dos líquenes que os revestem.

 

 

Os líquenes podem ser divididos em três grupos principais consoante a sua forma, esclarece Joana. Há os foliosos, que lembram papel e folhas ressequidas; os crustosos, parecidos com ferrugem e manchas de tinta espalhadas no tronco e os fruticulosos que parecem arbustos em miniatura.

Apontando para um líquen fruticuloso pendente num ramo da árvore, a investigadora explica: “O que acontece com estes é que, como têm uma maior superfície de contacto com o ar, acabam por ser muito mais sensíveis aos poluentes. Por isso, normalmente, se temos formas mais tridimensionais como esta, temos uma maior qualidade do ar”.

Passou-se mais de uma hora, no entanto parece que a bióloga continua no mesmo sítio. Joana anda devagar, com um olhar atento. De vez em quando ajoelha-se para chegar aos ramos que estão no chão. Vai espreitando o guia de campo para explicar quais são os mais sensíveis e os mais tolerantes à poluição atmosférica. Ao contrário do que acontecia no Jardim do Campo Grande, aqui há uma maior diversidade de líquenes e mais espécies sensíveis à poluição.

A investigadora caminha agora para longe do centro do Parque Florestal de Monsanto, perto do anfiteatro Keil do Amaral onde existe cada vez mais espaço entre as árvores. Ao longe vê-se a ponte 25 de Abril e a estátua do Cristo-Rei.

 

Investigadora a observar os líquenes num tronco no Anfiteatro Keil do Amaral, Parque Florestal de Monsanto

 

Nestas árvores, os líquenes mais frequentes são os crustosos. Estes líquenes lembram que o mundo destes organismos é, sobretudo, microscópico. “São muito pequeninos, muito difíceis de ver e estão muito agarrados ao tronco da árvore. Normalmente, temos que recolher pequenas amostras destas espécies com uma navalha para as observar mais detalhadamente no laboratório”.

Mais tarde, Joana sentar-se-á no laboratório a observar os líquenes à lupa e a consultar livros gigantes de chaves dicotómicas, ferramentas que permitem aos investigadores identificar as diferentes espécies.

Mas o esforço será recompensado. No laboratório, os líquenes ganham vida. Vistos à lupa, há líquenes que parecem fios de filigrana, finos e emaranhados. Outros parecem recifes de coral minúsculos, uma vista aérea de um campo de alfaces, pequenas crateras ou florestas labirínticas. Uma diversidade de formas e cores, vivendo mesmo aqui na cidade, ao nível dos nossos olhos.