Foto: Joana Bourgard/Wilder

Lista Vermelha da UICN: 74% dos insectos avaliados nos Açores ameaçados de extinção

Natureza

Quase três quartos (74%) de mais de uma centena de espécies de insectos nos Açores estão ameaçadas de extinção, avisa a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Por todo o mundo, 26.197 animais e plantas estão agora considerados em risco de desaparecer.

 

Na última actualização da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, que foi conhecida esta quinta-feira, a organização internacional classifica a situação de 93.577 espécies de animais e plantas em todo o mundo.

Nas ilhas dos Açores, segundo a nota divulgada, as principais ameaças aos insectos são “a degradação de habitat exacerbada por espécies de plantas invasoras, as alterações no uso do solo e um clima cada vez mais seco”.

Entre as espécies avaliadas, contam-se 12 espécies de escaravelhos do género Tarphius, apelidados em inglês de ‘ironclad beetles’  (‘escaravelhos-couraçados’), todas elas ameaçadas de extinção. “Estes escaravelhos dependem de madeira em decomposição, de uma cobertura de  musgos e fetos para sobreviverem, mas a conteira (Hedychium gardnerianum), uma planta introduzida dos Himalaias, está lentamente a substituir as espécies de plantas nativas.”

 

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Conteira. Foto: Julen Iturbe-Ormaetxe

 

O Tarphius relictus – descrito pela primeira vez num artigo científico em 2017, juntamente com mais três escaravelhos dos Açores – e que ocorre apenas na Ilha Terceira, “tem sido especialmente afectado por esta mudança e está agora reduzido a uma distribuição com menos de um hectare”, avisa a UICN. A organização elogia o estabelecimento de uma área protegida pelo Governo dos Açores.

“Os escaravelhos são componentes chave dos ecossistemas, preenchendo funções críticas como a predação e a polinização”, alerta o responsável pela área da Conservação dos Invertebrados na UICN, Axel Hochkirch, citado no comunicado. “Pequenas mudanças em habitats têm grandes impactos nos invertebrados e nas espécies endémicas das ilhas.”

Além dos insectos no arquipélago açoriano, muitas outras espécies por todo o mundo correm o risco de se extinguirem, alerta a organização. É o caso de 7% dos répteis da Austrália – 975 foram avaliados pela primeira vez para a Lista Vermelha – ameaçados por espécies invasoras como o gato feral e pelas mudanças climáticas.

“Os répteis da Austrália são invulgarmente diversificados, evoluíram isolados dos restantes e representam quase 10% da fauna de répteis mundial. Alguns destes animais são componentes importantes para o ambiente e para a cadeia alimentar”, refere também a UICN.

 

Cientistas querem pacto mundial

Das 93.577 espécies que fazem agora parte da Lista Vermelha, 872 estão classificadas como Extintas (não existem dúvidas de que o último indivíduo desta espécie morreu) – das quais seis desde o ano passado. Outras 69 estão Extintas na Natureza, pois sobrevivem apenas em cativeiro ou fora da sua área de distribuição.

Entre as espécies que passaram a estar classificadas como ameaçadas de extinção, há 5.664 espécies Criticamente em Perigo (ou Possivelmente Extintas), correndo um risco extremamente elevado. Outras 8.701 estão Em Perigo (risco muito elevado) e 11.832 são Vulneráveis (risco elevado).

De acordo com o The Guardian, um total de 19 espécies que já constavam da lista subiram para um grau mais elevado de preocupação – incluindo o sapo Ansonia Smeagol (apelidado a partir da personagem Gollum, do ‘Senhor dos Anéis’), afectado pela massa de turistas na Malásia.

As conclusões agora divulgadas devem-se também à entrada para a lista de espécies classificadas pela primeira vez, num esforço que tem envolvido milhares de especialistas em todo o mundo.

Os resultados da avaliação “reforçam a teoria de que estamos a entrar num período em que as extinções têm lugar num ritmo muito mais elevado do que o padrão natural. Estamos a colocar em perigo os sistemas de suporte de vida do nosso planeta e a colocar o futuro da nossa própria espécie em risco”, alertou Craig Hilton-Taylor, responsável pela unidade da UICN para a Lista Vermelha, citado pelo diário britânico.

“Esta é a nossa janela de oportunidade para actuarmos, temos os conhecimentos e as ferramentas para o que precisa de ser feito, mas agora precisamos de todos, governos, sector privado e sociedade civil, para intensificarem acções que previnam o declínio e perda de espécies.”

Cristiana Pasca Palmer, secretária-executiva da Convenção para a Diversidade Biológica, apela ao lançamento de um pacto mundial para a biodiversidade, com uma importância equivalente ao Pacto de Paris a propósito das alterações climáticas, segundo o The Guardian.

Objectivo: expandir em cada década 10% das reservas naturais, áreas marinhas protegidas e outras com estatuto semelhante, de forma que a em 2050 metade do mundo seja já amigo da natureza.

 

Boas notícias

Ainda assim, também houve algumas boas novidades para os anfíbios, que estão entre os animais em maior perigo de desaparecer por todo o mundo. Quatro sapos que estavam classificados como Criticamente em Perigo (Possivelmente Extintas) ou Extintos, quase todos devido à infecção fatal por quitridiomicose, foram redescobertos na Colômbia e no Equador.

“Estas redescobertas são notícias encorajadoras, mas as espécies são ainda afectadas negativamente por ameaças causadas pelos humanos”, avisou Jennifer Luedtke, coordenadora da Autoridade da Lista Vermelha para os Anfíbios, citada em comunicado.

“Estas espécies ainda têm de enfrentar a destruição e a degradação severas dos seus habitats, a predação por espécies de trutas não nativas, a quitridiomicose, e os efeitos das mudanças climáticas, o que mostra a necessidade urgente de melhorarmos a sua conservação para evitarmos a extinção destas espécies”, sublinhou.

 

Saiba mais.

Das espécies avaliadas pela Lista Vermelha da UICN em Dezembro do ano passado, 25.800 foram consideradas ameaçadas de extinção. Portugal tinha 338 espécies nesta lista.

Relativamente aos insectos em Portugal, releia a entrevista de Patrícia Garcia Pereira à Wilder, em que a bióloga alertava para o grande desconhecimento sobre a situação destas espécies em Portugal Continental – ao contrário do que se passa nos Açores e Madeira.