Foto: Ocean Voyages Institute

Lixos plásticos no oceano estão a atrair espécies costeiras para o alto mar

Uma equipa de cientistas descobriu que várias espécies de animais e plantas tipicamente associados a habitats costeiros estão a encontrar uma nova morada em mar aberto, o que representa um novo desafio para os ecossistemas.

Em causa estão detritos de lixo que se encontram a várias centenas de milhas da costa, naquele que é conhecido como o Giro Subtropical do Pacífico Norte, também chamado de “grande mancha de lixo do Pacífico” (ou em inglês, ‘Great Pacific Garbage Patch’).

Este é um dos cinco “giros” oceânicos de lixo plástico que são hoje conhecidos no mundo. Estas zonas em mar aberto, conhecidas por acumularem enormes quantidades de detritos, formam-se porque concentram a poluição transportada desde as zonas costeiras pelas correntes marinhas de superfície – os movimentos contínuos de água no oceano.

Esta descoberta foi publicada por uma equipa de cientistas na revista Nature Communications, na qual se anuncia a “emergência de uma comunidade neopelágica através do estabelecimento de espécies costeiras no alto mar”.

“Os problemas do plástico vão para além da ingestão e do emaranhamento”, afirma Linsey Haram, autora principal do artigo e ex-investigadora no Smithsonian Environmental Research Center (SERC), num comunicado desta instituição americana. “[O plástico] está a criar oportunidades para que a biogeografia das espécies costeiras se expanda fortemente para além do que até aqui pensávamos ser possível.”

O Giro Subtropical do Pacífico Norte, situado entre a Califórnia e o Havai, é aquele que acumula mais plástico flutuante: os cientistas estimam que estes detritos abrangem uma área de 1,6 milhões de quilómetros quadrados, com um peso que ultrapassa as 79.000 toneladas. E se a maioria são microplásticos, ou seja, demasiado pequenos para serem vistos a olho nu, ainda assim por ali flutuam muitas redes de pesca, garrafas descartadas e outros lixos à deriva.

Lixos recolhidos durante uma expedição no Giro Subtropical do Pacífico Norte, entre a Califórnia e o Havai. Foto: Ocean Voyages Institute

São esses objectos maiores que transportam consigo espécies marinhas típicas dos ambientes costeiros, que estão a formar uma nova comunidade apelidada agora de “neopelágica”: “neo” deriva de novo e “pelágico” refere-se ao alto mar, indica a equipa.

Esta descoberta nasceu de uma parceria entre Linsey Haram e o Ocean Voyages Institute, uma organização sem fins lucrativos que recolhe lixo plástico em expedições no mar, e ainda dois oceanógrafos da Universidade do Havai que desenvolveram modelos que ajudam a prever em que locais se acumulam mais detritos no Giro Subtropical do Pacífico Norte.

Ao analisar alguns dos lixos recolhidos nas expedições do Ocean Voyages Institute, a bióloga marinha do Smithsonian – que agora trabalha na Associação Americana para o Avanço da Ciência – encontrou muitas espécies costeiras, incluindo anémonas, anfípodes (pequenos crustáceos parecidos com os camarões) e também hidroides. Todos estes organismos estavam “não só a sobreviver, mas a darem-se muito bem no plástico marinho.”

As novas comunidades que se formaram nos detritos plásticos são compostas por diferentes espécies pelágicas do alto mar (à esq.) e por espécies costeiras, que ali partilham o espaço e podem competir por recursos. Ilustração: 2021 Alex Boersma

Como vai ser no futuro?

Esta é a grande questão que se colocam agora muitos cientistas, uma vez que até hoje o mar aberto não era considerado um local adequado para a sobrevivência de espécies costeiras. “Em parte devido às limitações do habitat – no passado não havia ali plástico – e em parte, pensávamos, porque era um deserto em termos de comida”, explica Greg Ruiz, cientista sénior do SERC que dirige o Laboratório de Invasões Marinhas, onde Linsey Haram trabalhava.

O que acontece é que, hoje em dia, o plástico está a providenciar o habitat, e estas espécies costeiras estão a conseguir encontrar alimento muito longe dos seus ambientes habituais. Ninguém sabe ainda muito bem como, mas os cientistas especulam que poderão ter surgido “hotsposts” de produtividade no giro, ou que os detritos estão também a atrair fontes de alimento.

Face a estas alterações, ainda é incerto quais vão ser os impactos desses novos habitantes nas espécies do alto mar, muitas delas também já colonizadoras dos plásticos marinhos. “A chegada de novos vizinhos costeiros pode perturbar ecossistemas oceânicos que se têm mantido imperturbáveis há milénios”, considera a equipa.

“As espécies costeiras estão a competir directamente com estes organismos do oceano”, avisa Haram. “Estão a competir por espaço. Estão a competir por recursos. E essas interacções são muito mal compreendidas.”

Uma mistura de espécies costeiras e de mar aberto. Foto: SERC Marine Invasions Lab

O problema das espécies invasoras que podem ser transportadas desta forma também preocupa os cientistas. Esta ameaça foi detectada em 2011, quando o tsunami no Japão fez com que detritos com origem naquele país transportassem espécies invasoras até à América do Norte, através do oceano.

Mas para já, os autores ainda nem sabem se existem mais comunidades “neopelágicas” para além da que foi descoberta no Giro Subtropical do Pacífico Norte ou até que ponto é que fenómenos como este são comuns. Ainda assim, continua a aumentar a dependência de plástico, avisam.

Estima-se que o lixo de plástico acumulado a nível mundial ultrapasse 25 mil milhões de toneladas em 2050. Com o aumento esperado de tempestades devido às alterações climáticas, a equipa acredita que irá aumentar a quantidade de detritos transportados para o oceano e com eles as colónias de organismos costeiros que passam a habitar no alto mar.

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.