Abelhão-comum (Bombus terrestris). Foto: Ivar Leidus

Não são apenas mamíferos e aves. Afinal os abelhões também “brincam”

Investigadores fizeram experiências com abelhões-comuns e filmaram-nos a fazer rolar pequenas bolas sem recompensas associadas. “Este género de descobertas tem implicações para a nossa compreensão da senciência e bem-estar dos animais.”

Através de experiências em laboratório, uma equipa liderada por cientistas da Queen Mary University of London estudou o comportamento de 45 abelhões-comuns (Bombus terrestris), uma espécie que ocorre também em Portugal. Os resultados, que foram publicados a 19 de Outubro na revista científica Animal Behaviour, indicam que estes insectos não só parecem brincar, como também essa propensão aumenta nos mais jovens e naqueles que são machos.

“Esta é a primeira vez que é mostrado um comportamento de brincadeira com um objecto realizado por um insecto, o que aumenta as evidências de que as abelhas podem experienciar sentimentos ‘positivos'”, afirma uma notícia publicada no site da Queen Mary University of London.

Ao longo de 18 dias, três horas por dia, a equipa filmou os abelhões num espaço fechado em que estes podiam escolher se caminhavam para chegarem à comida ou se se desviavam do percurso para se dirigirem a uma área com pequenas bolas de madeira, onde as podiam fazer rolar. Os investigadores garantiram também que esse comportamento não teria outros objectivos, como a alimentação ou o acasalamento.

Cada abelha estava identificada por um número diferente e classificada segundo o sexo e a idade. O número de vezes em que cada indivíduo interagiu com as bolas, ao longo da experiência, variou entre uma vez e um total de 117 vezes – um comportamento repetitivo que sugere que rolar a bola era recompensador.

Créditos: Samadi Galpayage

“É certamente espantoso, e per vezes divertido, observar abelhões a mostrarem alguma coisa como uma brincadeira. Eles aproximam-se e manipulam aqueles ‘brinquedos’ uma e outra vez”, comenta Samadi Galpayage, primeiro autor do estudo. “Isto serve para mostrar, uma vez mais, que apesar do seu pequeno tamanho e cérebros minúsculos, [os abelhões] são mais do que pequenos seres robóticos.”

Estados emocionais positivos

Galpayage, que é estudante de doutoramento na universidade britânica, considera que estes insectos “experienciam algum tipo de estados emocionais positivos, mesmo que rudimentares, tal como acontece com outros animais fofinhos, ou não tão fofinhos”. E sublinha que “este género de descobertas tem implicações para a nossa compreensão da senciência e bem-estar dos animais e pode, esperamos, encorajar-nos a respeitar e a proteger ainda mais a vida na Terra.”

Créditos: Samadi Galpayage

Numa segunda experiência ligada ao mesmo estudo, os investigadores recorreram a outros 42 abelhões e deram-lhes acesso a duas câmaras coloridas diferentes, uma com bolas e outra vazia. Quando mais tarde permitiram que os insectos escolhessem a câmara para onde iriam, já com os dois espaços sem objectos lá dentro, estes mostraram preferência pela câmara onde antes estavam as bolas.

A equipa decidiu fazer esta experiência depois de um estudo anterior em que conseguiram treinar abelhões a rolarem uma bola em troca de uma recompensa com comida açucarada. Estranhamente, repararam então que alguns insectos rolavam à mesma as bolas quando não recebiam nada em troca.

Mas poderá a capacidade de “brincar” ter algum objectivo nos abelhões? Os cientistas acreditam que sim e que à semelhança do que se passa com outros animais, neste caso a “brincadeira” ajuda os insectos a desenvolverem as suas capacidades cognitivas e motoras.


Saiba mais.

Recorde como cientistas em Israel conseguiram ensinar peixinhos-dourados a conduzir um veículo.

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.