Foto: Joana Bourgard

Nas zonas mais pobres do Porto, os jardins também prolongam a desigualdade

Um estudo realizado por uma equipa de investigadores conclui que a desigualdade de condições para quem vive em bairros mais carenciados da cidade estende-se aos espaços verdes, menos diversificados e procurados por quem ali mora perto.

 

O estudo em causa, publicado na revista Urban Forestry & Urban Greening, foi liderado por Diogo Guedes Vidal, investigador do Centro de Ecologia Funcional da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC).

O objectivo deste trabalho, face à falta de informação sobre o comportamento de quem utiliza os espaços verdes do Porto, foi “identificar padrões de comportamento humano em quatro espaços verdes da cidade”, indica um comunicado da FCTUC enviado à Wilder. Em causa estão três jardins públicos – Jardim da Corujeira, Jardim de Arca d’Água e Jardim João Chagas, este último vulgarmente conhecido como Jardim da Cordoaria – e uma praça ajardinada, a Praça Mouzinho de Albuquerque, conhecida como Rotunda da Boavista.

Diogo Guedes Vidal, que participou neste estudo no âmbito da tese de doutoramento em ecologia e saúde ambiental, na Universidade Fernando Pessoa, no Porto, explica que a análise teve em conta “o perfil dos utilizadores, a envolvente socioeconómica, o desenho e elementos humanos e não humanos presentes no espaço», procurando perceber se os «usos inscritos nos espaços verdes estão, de alguma forma, associados ao nível de privação socioeconómica da envolvente, se existem variações nos usos identificados ao longo do dia e como as diferentes características dos espaços verdes influenciam os comportamentos dos seus utilizadores”.

A importância da natureza e do “verde” para quem vive em cidades tem sido demonstrada por inúmeros artigos científicos. Por exemplo, no início desde ano, um estudo realizado na Área Metropolitana do Porto concluiu que os espaços verdes têm impacto no desenvolvimento cognitivo das crianças.

 

Mapear comportamentos e perceber diferenças

Ao longo de quatro meses, entre Agosto e Novembro, a equipa mapeou o comportamento de 979 utilizadores em diferentes locais dos espaços verdes do estudo, concluindo desde logo que jardins e parques mais pequenos e mais próximos dos moradores “são entendidos como espaços de socialização, convívio, relaxamento e contacto com a natureza, sendo explorados durante o dia através de diferentes usos”.

No entanto, existem diferenças que colocam em desvantagem esses locais em zonas mais carenciadas tanto a nível sócio-económico como ambiental: os usos “são menos diversificados, dada a ausência de elementos que os estimulem, e assiste-se a uma menor frequência de utilizadores”, afirma o mesmo responsável.

Por outro lado, os espaços verdes estudados têm hoje novas funções sociais, diferentes daquelas para que tinham sido planeados. Por exemplo, “a praça Mouzinho de Albuquerque e o jardim de Arca d’Água são utilizados para fins de actividades de acção social voltadas para apoio a sem-abrigo, seja na distribuição de alimentos, no caso do primeiro, seja no abrigo noturno (no coreto), no caso do segundo.”

O estudo mostrou também que “é nas zonas mais a sul (mais quentes) e junto de árvores (faça sol ou não) que os utilizadores se tendem a concentrar, procurando nos elementos arbóreos uma sensação de segurança e de identidade, própria de um contacto com a natureza, sugerindo um comportamento biofílico (amor pelos elementos vivos)”, salienta.

Olhar além do verde

Com esta análise, pretendeu-se “‘olhar além do verde’ e entender a ecologia através de um prisma social”, explica Diogo Guedes Vidal, que espera que os resultados possam ser importantes para um “planeamento urbano mais sustentável, mas sobretudo mais justo e inclusivo e que considere a pluralidade de usos no desenho dos mesmos, sublinhando a relevância de contemplar a forma como a humanidade se relaciona com os elementos não humanos e com a natureza no seu todo”.

Além de uma atenção maior às diferenças entre zonas mais e menos carenciadas, o estudo apela também à criação de condições mais atraentes para os mais jovens, uma vez que foram os visitantes menos frequentes nos quatro espaços verdes.

No artigo, além do investigador da FCTUC, participaram também outros sete investigadores da Universidade do Porto, do Instituto de Ciências Sociais e Políticas e da NeuroLandscape Foundation, na Polónia.

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.