Natureza: ONU alerta que Humanidade está numa encruzilhada

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Há 10 anos, o mundo comprometeu-se com 20 metas para travar a extinção de espécies e recuperar ecossistemas até 2020. Até hoje nenhuma foi cumprida totalmente, alerta um novo e preocupante relatório das Nações Unidas.

Foram 20 as Metas acordadas por 196 países que se reuniram em Aichi (Japão), em 2010, para melhorar a saúde dos rios, florestas e oceanos e conservar a biodiversidade do planeta.

Mas hoje, passados os 10 anos previstos para cumprir essas metas, nenhuma foi cumprida na totalidade, denuncia um novo relatório das Nações Unidas. 

O 5º Global Biodiversity Outlook (GBO-5), divulgado hoje pela Convenção sobre a Diversidade Biológica (CDB) da ONU, faz um balanço sobre os progressos conseguidos na última década.

Anfíbio, biodiversidade. Foto: Pexels/Pixabay

Isto numa altura em que os 196 países estão a negociar um novo acordo para orientar os esforços mundiais em matéria de biodiversidade para o período que se segue, de 2021 a 2030.

“A humanidade está numa encruzilhada quanto ao legado que queremos deixar às gerações futuras”, comentou em comunicado Elizabeth Maruma Mrema, secretária-executiva da CDB.

“No mundo estão a acontecer coisas boas e que devemos celebrar. No entanto, a taxa de perda de biodiversidade não tem precedentes na história da Humanidade e as pressões estão a aumentar”, acrescentou. “Os sistemas vivos da Terra no seu conjunto estão em perigo.”

As consequências não são apenas para as espécies. “À medida que a natureza se degrada surgem novas oportunidades para a propagação de doenças devastadoras para os seres humanos e para os animais, como o coronavírus deste ano”, acrescentou.

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Cardume de atuns. Foto: Danilo Cedrone/Wiki Commons

Na sua opinião, “as decisões e o nível de actuação que tomarmos agora terá profundas consequências, para o bem e para o mal, para todas as espécies, incluindo a nossa”.

Segundo o GBO-5, das 20 Metas de Aichi, apenas seis foram alcançadas, parcialmente. Por exemplo, cumpriram-se os elementos da Meta 11 relativos à proporção das terras e dos mares protegidos mas não os relativos à qualidade das zonas protegidas. E no caso da Meta 19, os conhecimentos sobre a diversidade biológica melhoraram, mas não foram partilhados nem aplicados de forma significativa. 

Entre as metas menos cumpridas nestes 10 anos está a conservação de florestas e de habitats. Apenas 4% dos países estão no caminho certo para cumprirem a meta. “A taxa de desflorestação é mais baixa do que na década anterior, mas apenas em um terço, e a desflorestação pode estar a acelerar outra vez em algumas áreas”, como na Amazónia brasileira, segundo o relatório.

A perda, degradação e fragmentação de habitats continua elevada nas florestas, especialmente nas regiões tropicais. As regiões selvagens – com as maiores perdas registadas na América do Sul (29,6%) e em África (14%), desde os anos 1990 – e as zonas húmidas – que perderam 35% da sua área entre 1970 e 2015 – continuam em declínio. A fragmentação dos rios continua uma ameaça grave às espécies de água doce. Apenas 23% dos rios continuam a correr sem interrupções para o oceano.

Rinocerontes no Parque Nacional Kruger. Foto: Bernard Gagnon/Wiki Commons

Quanto aos peixes marinhos, outra das Metas com menos progressos, um terço dos stocks estão a ser sobre-explorados, uma proporção maior do que há 10 anos. 

Os corais continuam a sofrer pesadas pressões da sobre-pesca, poluição e alterações climáticas. Os corais registaram o mais rápido aumento do risco de extinção de todos os grupos avaliados. Estima-se que mais de 60% dos recifes de coral do planeta estejam ameaçados.

A Meta 12, relativa à extinção das espécies, é outra das áreas onde se avançou menos. Hoje, um milhão de espécies estarão ameaçadas no planeta, segundo um relatório publicado em Maio de 2019 pelo Painel Intergovernamental sobre a Biodiversidade e Serviços dos Ecossistemas (IPBES).

Nesse relatório de 2019, os peritos alertam muitas dessas espécies poderão desaparecer já durante a próxima década. A ameaça pesa sobre 40% das espécies de anfíbios, 33% dos recifes de coral, 25% das espécies de plantas, 23% das espécies de aves, 10% das espécies de insectos e sobre mais de um terço dos mamíferos marinhos.

Insecto. Foto: Joana Bourgard/Wilder

As populações de animais selvagens diminuíram mais de dois terços desde 1970. Quinze espécies de aves e de mamíferos ter-se-ão extinguido desde 1993. Actualmente, a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) tem 32.441 espécies ameaçadas de extinção. 

“As espécies continuam a aproximar-se da extinção. Contudo, o número de extinções de aves e de mamíferos seria duas ou quatro vezes superior sem os esforços de conservação feitos na última década”. Segundo o relatório, foi evitada a extinção de entre 28 e 48 espécies de aves e mamíferos desde 1993.

Papagaios. Foto: Carlswain/Pixabay

Ainda assim, “praticamente todos os países estão a adoptar medidas para proteger a diversidade biológica”, avança o relatório. Graças a essas acções, a erradicação de espécies exóticas invasoras nas ilhas está a aumentar e a sensibilização para a biodiversidade parece estar a espalhar-se.

António Guterres, secretário-geral da ONU, defende que se deve abordar o “duplo desafio global das alterações climáticas e da perda de biodiversidade de uma forma mais coordenada”. Isto porque, acrescentou, “não só as alterações climáticas ameaçam deitar por terra os esforços para conservar a biodiversidade, como a própria natureza oferece soluções eficazes para evitar os piores impactos do sobre-aquecimento do planeta”.

Manada de elefantes em África. Foto: Pixabay

Em Janeiro deste ano, as Nações Unidas revelaram o primeiro esboço das metas pós-2020 que deveriam ser aprovadas na COP15, em Outubro de 2020 na cidade de Kunming, na China. Mas esta COP15 foi adiada para 2021 por causa da pandemia.

Entre as novas metas está o aumento para, pelo menos, 30% das áreas protegidas do planeta – terra e mar – até 2030. 

O documento quer ainda introduzir controlos às espécies exóticas invasoras e reduzir em 50% a poluição por plásticos e o excesso de nutrientes. Até 2030, o comércio de espécies selvagens, terá de ser totalmente legal e sustentável, ainda segundo as novas metas em negociação.

“Ainda não perdemos a batalha. A natureza conseguirá prevalecer se lhe derem a oportunidade”, disse, em Maio de 2019, a secretária-executiva do IPBES, Anne Larigauderie.