Rabirruivo-preto (Phoenicurus ochruros). Foto: Sérgio Chozas
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Projecto já identificou mais de 400 espécies no campus da FCUL, em Lisboa

Das flores de chicória e de pervinca à águia d’asa redonda e ao gaio, uma iniciativa de ciência cidadã coordenada por dois investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa está a registar toda a biodiversidade nesta zona da cidade.

A pouco e pouco, um grupo de professores, alunos, investigadores e outros cidadãos naturalistas está a construir um mapa das muitas espécies que observam na zona do campus da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL).

Em causa está o projecto “+Biodiversity @CIÊNCIAS: Mobilizar a comunidade de CIÊNCIAS para a promoção da sustentabilidade no Campus”, que está ancorado na plataforma BioDiversity4All, onde até agora já foram registadas mais de 1.300 observações, correspondentes a mais de 400 espécies.

Jacinto-dos-campos (Hyacinthoides hispanica). Foto: Sérgio Chozas

Este projecto de ciência cidadã nasceu em resposta à primeira edição do Concurso de Ideias para a Sustentabilidade, lançado pela FCUL, que “visa identificar e promover iniciativas de membros de Ciências que possam contribuir para a sustentabilidade no campus e na sua interação com a cidade de Lisboa”, explica Sergio Chozas, autor deste projecto em conjunto com Patrícia Tiago.

Logo desde Setembro passado, no início deste desafio que lançaram a todos os interessados, os dois investigadores ligados à FCUL não se limitaram ao espaço ocupado por esta faculdade situada na Cidade Universitária. Olharam mais além e estenderam o território envolvido neste desafio a outros espaços contíguos de Lisboa, pois “o campus integra-se de forma orgânica na área envolvente”.

Rabirruivo-preto (Phoenicurus ochruros). Foto: Sérgio Chozas

“Não existem limites definidos entre o campus e por exemplo o Jardim do Campo Grande. O Hospital de Santa Maria alberga a Faculdade de Medicina e a FCUL e o Museu da Cidade partilham muros facilmente ultrapassados por aves, insetos e répteis”, nota Sergio Chozas. “Daí termos decidido alargar a área de amostragem até os limites mais óbvios e desenvolver o projecto numa área de cerca de 161 hectares.” Cada hectare corresponde, aproximadamente, ao espaço ocupado por um campo de futebol.

“Surpreendidos pelo número de fungos”

E assim, ao longos dos últimos meses, cerca de 50 observadores já contribuíram para o conhecimento das espécies nesta zona de Lisboa. Nesse grupo existem alguns investigadores e alunos de biologia mas também outros observadores. “Muitos não conhecemos”, explica o co-autor do projecto.

Mas apesar da adesão, Sergio Chozas acredita que os números seriam muito maiores, não fosse a situação actual de pandemia e a suspensão das aulas presenciais. “O número de alunos a registar espécies é muito reduzido. Esperamos que quando as aulas presenciais voltarem, os estudantes – nomeadamente os do curso de Biologia – comecem a participar ativamente no projecto.”

Almeiroa (Crepis vesicaria). Foto: Sérgio Chozas

Quanto às espécies que têm sido registadas, o destaque vai para as plantas, com o registo de cerca de 200 espécies diferentes. Seguem-se os grupos dos fungos e líquenes (cerca de 90 espécies) e dos insectos (cerca de 55 espécies).

“É natural já que estes grupos são mais fáceis de fotografar. Ficámos, no entanto, surpreendidos com o número de espécies de fungos, mas uma vez que o projecto começou em Setembro e dado ter sido um ano com muita chuva, acaba por fazer sentido”, nota Sergio Chozas, que reconhece que houve algum esforços de comunicação lançados para os fungos, “que parecem ter tido algum efeito”.

Ao longo dos próximos meses até ao Verão, quando está prevista a conclusão desta iniciativa, a equipa espera que haja mais entradas de plantas, insetos e aves nos registos feitos.

Gaio (Garrulus glandarius). Foto: Sérgio Chozas

Para já, o levantamento da biodiversidade contou também com um voo de drone. Usados estão a ser também câmaras e microfones, que fazem o registo de imagens e sons – o que obrigou a um pedido de autorização à Comissão de Ética para a Recolha e Proteção de Dados da FCUL, que já teve parecer favorável.

Quanto às aves de Inverno, foram alvo de uma atenção especial, com uma contagem realizada por uma especialista da equipa do projecto, Ana Leal. E para breve estão previstas a instalação de armadilhas de insectos e levantamentos florísticos, na Primavera.

Prémio de 1000 euros

Mas o objectivo é não ficar por aqui, até porque a iniciativa teve um reconhecimento importante no âmbito do Concurso de Ideias para a Sustentabilidade: ganhou o prémio da primeira edição, com a atribuição de 1000 euros.

“A ideia é que este trabalho seja o início de um programa de monitorização que vá acompanhando as variações da diversidade ao longo do tempo”, adianta o mesmo responsável.

Mosca do género Chrysotoxum, que imita as vespas. Foto: Sérgio Chozas

“Iremos identificar as zonas com maior diversidade e promoveremos atividades que promovam tanto a biodiversidade como os serviços dos ecossistemas. Dentro do orçamento do prémio, está também prevista a aquisição de árvores e arbustos que iremos plantar.”

A equipa promete ainda acompanhar o projecto das Tiny Forest, “para ver como a criação de uma pequena floresta superdensa poderá influir na biodiversidade do campus”.


Agora é a sua vez.

Mora, estuda ou trabalha nesta zona da cidade e deseja colaborar no  +Biodiversity @CIÊNCIAS? Basta instalar a app iNaturalist no telemóvel e entrar no projecto +Biodiversity @Ciências, ou então fazê-lo através do computador, na plataforma BioDiversity4All.

Pode também acompanhar o projecto no Twitter, Instagram e Facebook.


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