Floresta. Foto: Aymanjed Jdidi/Pixabay
Floresta. Foto: Aymanjed Jdidi/Pixabay
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Quatro ideias de recomeço para uma floresta ardida

Portugal vê-se hoje a braços com cerca de 300 mil hectares de floresta ardida. O que fazer com estes terrenos? A Wilder fez esta pergunta à Quercus que deixou quatro propostas.

 

Os números de área ardida ainda não estão fechados mas Domingos Patacho não tem dúvidas. “A área ardida é muito grande”, disse hoje o coordenador do Grupo de Trabalho das Florestas da Quercus à Wilder.

A direcção nacional da Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza emitiu hoje um comunicado onde diz lamentar a “nova tragédia em Portugal”. “Estamos solidários com todos os que foram vítimas desta situação e, no que nos compete, estaremos sempre disponíveis para ajudar a criar mais e melhor floresta.”

Além dos impactos desta “catástrofe” para as populações, com um “tão elevado número de vítimas mortais”, os incêndios causaram uma grande destruição na natureza. “Houve uma destruição de todos os ecossistemas florestais. Árvores, arbustos e plantas com interesse para a biodiversidade mas não só. Grande parte dos mamíferos, aves e insectos morreram. Não conseguiram fugir porque o fogo foi muito rápido”, disse Domingos Patacho.

Este especialista recorda que quando visitou a zona de Pedrógão Grande depois do grande incêndio de Junho, as pessoas lhe diziam “não se ouve nada”; até as aves tinham desaparecido.

A grande maioria da floresta portuguesa não pertence ao Estado, mas sim aos privados. Por isso, é importante sensibilizar a sociedade para o que se pode fazer para evitar incêndios e ajudar a recuperar a floresta, salientou o responsável.

Antes de mais há que ter bem presente que continuamos em período crítico de incêndios. Normalmente este período começa em Julho e termina em Setembro. Mas este ano foi prolongado até 31 de Outubro, por um despacho de 13 de Outubro passado e assinado pelo Secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural, Miguel João Pisoeiro de Freitas.

“Mesmo com o que choveu hoje, com Sol e vento, amanhã está tudo seco. As pessoas pensam que já estamos em Outubro e que já há humidade e já podem queimar. Mas com as alterações climáticas não se pode manter esse tipo de calendário cultural”, salientou. Domingos Patacho lembra que se devem evitar riscos como, por exemplo, fazer fogueiras, piqueniques ou foguetes.

Depois, perante um terreno florestal devastado pelas chamas, a primeira coisa a fazer é “cortar a madeira queimada”. Até pode haver árvores que assim consigam “rebentar novamente, já que aumenta a viabilidade da árvore”.

A seguir ao corte é preciso voltar a reflorestar. E aqui “não podemos reincidir nos erros do passado, precisamos de um reordenamento. Por exemplo, é de evitar plantar árvores da mesma espécie muito juntas umas das outras ou perto das linhas de água”.

Para saber quais as espécies de árvores autóctones mais adequadas para a sua região, o melhor é contactar as associações de produtores florestais do seu concelho. “São elas que estão na linha da frente e podem esclarecer dúvidas, dar ideias e sugestões do que plantar.” Pode ainda contactar o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e as associações locais de defesa do Ambiente.

Para quem tiver de reflorestar terrenos com mais de um hectare, “vale a pena consultar que fundos comunitários o podem ajudar”. Domingos Patacho sugere o Programa de Desenvolvimento Rural 2020, mais especificamente a Operação 8.1.5, relativa à “Melhoria da resiliência e do valor ambiental das florestas”.

Para áreas mais pequenas, por exemplo, com meio hectare, é mais simples as pessoas comprarem as árvores em viveiros privados e plantarem.

Outra sugestão é fazer uma gestão da regeneração natural, mas apenas “se tiverem permanecido árvores vivas no terreno” que possam dar semente.

 

[divider type=”thick”]Agora é a sua vez.

Aqui ficam cinco estratégias para recuperar a floresta dos incêndios que estão a ser testadas pela associação Montis.

Ajude a reflorestar o país com esta campanha, a decorrer até 30 de Novembro.

Conheça aqui os projectos da Quercus dedicados à floresta portuguesa.

 

[divider type=”thick”]Série Wilder Cuidadores de Florestas

Inspire-se nesta série que criámos para si, para lhe mostrar os portugueses que estão a cuidar das florestas ao longo de todo o ano. Falámos com os responsáveis por alguns dos melhores projectos de prevenção de fogos e de enriquecimento de florestas e ouvimos as histórias de cidadãos que arregaçam as mangas pelas árvores. Estes são os Cuidadores de Florestas.

 

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.