Síndrome parético: Esta ameaça silenciosa afeta milhares de aves na Península Ibérica

Libertação de uma gaivota recuperada. Foto: RIAS

María Casero, médica veterinária e diretora clínica do RIAS – Centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens, lança o alerta para um problema que não tem passado despercebido para os cientistas, mas que só recentemente começou a receber mais atenção por parte da população e das autoridades.

Nos últimos anos, o síndrome parético tem vindo a representar uma importante ameaça para as populações de aves ligadas a ecossistemas aquáticos. Afeta principalmente gaivotas, mas também patos ou limícolas, entre outros grupos. 

O síndrome parético caracteriza-se por diferentes graus de parálise flácida ascendente – flacidez progressiva dos músculos, começando pelas extremidades posteriores da ave e evoluindo até à cabeça -, além de debilidade, diarreia e dispneia. A causa por trás deste síndrome não é de diagnóstico fácil e o facto de as principais espécies afetadas serem gaivotas dificulta ainda mais o acesso aos recursos necessários para o seu estudo.

A escassa preocupação por parte das autoridades responsáveis pela conservação, juntamente com a pouca simpatia que as gaivotas despertam na comunidade, provocam uma falta de financiamento que limita a investigação.

Gaivotas em tratamento. Foto: RIAS

Ainda assim nos anos mais recentes, devido ao esforço das organizações não governamentais dedicadas à conservação, a iniciativas privadas e ao provado impacto do síndrome parético nas populações de gaivotas, tem sido possível desenvolver alguns trabalhos de investigação neste âmbito na Península Ibérica.

María Casero. Foto: DR

O RIAS – Centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens, localizado em Olhão (Algarve), recebeu entre 2010 e 2021 mais de 6.500 aves vivas e mortas com síndrome parético.

Nos últimos anos, como médica veterinária do RIAS, tenho vindo a investigar a etiologia, lesões, sintomas e tratamentos mais eficientes, mediante a análise de dados, a realização de necrópsias e análises laboratoriais usando como modelo de estudo as duas espécies mais frequentemente afetadas: a gaivota-de-patas-amarelas (Larus michahellis) e a gaivota-d‘asa-escura (Larus fuscus). Apesar dos entraves e da falta de financiamento, este trabalho de investigação já conta com a colaboração de diferentes entidades públicas e privadas, tanto em Portugal como Espanha, assim como uma tese de doutoramento e o apoio do projeto LIFE Ilhas Barreira (LIFE18/NAT/PT/000927).

Passemos então aos dados: entre 2010 e 2021 ingressaram no RIAS um total de 4.585 indivíduos de gaivotas-de-patas-amarelas e gaivotas-d‘asa-escura (n=2.710 e n=1.875 respetivamente). Se tomamos os ingressos anuais, observa-se um incremento acentuado do número de gaivotas recebidas nos últimos anos, nomeadamente desde 2018 (ver Tabela 1).

Também encontramos uma distribuição anual estacional em forma de surtos, havendo meses com mais ingressos que outros (Tabela 2). As análises estatísticas preliminares dos dados de ingressos apontam para uma relação significativa entre os ingressos de aves com síndrome parético e fatores climáticos, nomeadamente a temperatura ambiental. 

Tabela 1. Ingressos anuais de gaivotas-de-patas-amarelas e gaivotas-d ‘asa-escura no Centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens – RIAS entre 2010 e 2021
Tabela 2. Somatório dos ingressos mensais de gaivotas-de-patas-amarelas e gaivotas-d ‘asa-escura no RIAS – Centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens entre 2010 e 2021

No que respeita à clínica, as gaivotas que ingressam vivas no RIAS são classificadas à chegada consoante o grau de severidade dos sintomas. Este sistema de classificação permite aplicar tratamentos individualizados com resultados mais efetivos, ao mesmo tempo que permite dar uma resposta eficiente à quantidade crescente de pacientes. 

Atualmente o tratamento do síndrome parético é principalmente de suporte: reposição da desidratação, manutenção do animal com alimentação assistida até recuperar a autonomia, e controlo de condições que possam aparecer secundariamente à parálise, desidratação e debilidade.

Mas, uma vez confirmada a causa, poderão investigar-se tratamentos mais eficientes. No caso dos animais que ingressam mortos ou morrem durante o internamento, estes são necropsiados para se estudarem as principais lesões e achados, que ajudarão não só no esclarecimento da etiologia do síndrome parético, mas também na melhoria dos protocolos de tratamento e recuperação. 

A taxa de libertação das gaivotas ingressadas vivas atingiu 78% no ano de 2021, tendo vindo a aumentar ano após ano, sendo a prova do sucesso dos protocolos de tratamento aplicados. 

O diagnóstico diferencial do síndrome parético, ou seja, a identificação da sua causa, envolve diferentes suspeitas, incluindo deficiências nutricionais, doenças infecciosas ou intoxicação por biotoxinas. *

Gaivota ingressada com síndrome parético. Foto: RIAS

As investigações realizadas no RIAS ao longo dos últimos anos tentam incluir todas as possíveis causas, de forma a conseguir-se um diagnóstico definitivo o mais sólido possível. Até à data, foram realizadas análises de saxitoxinas e ácido domóico no Instituto Español de Oceanografía de Vigo (Galiza); de toxina botulínica no Instituto Pasteur de Paris (França); de gripe aviária no Instituto Nacional de Investigações Agrárias e Veterinárias.  Atualmente, estão a ser realizadas análises de numerosas biotoxinas de água doce e salgada, assim como de vírus em diferentes laboratórios, estando ainda projetada a medição de níveis de vitamina B. 

Enquanto aguardamos pelos resultados definitivos para estabelecer o diagnóstico final, os resultados preliminares parecem apontar para as biotoxinas como a principal suspeita de síndrome parético, sendo a toxina botulínica a causa mais provável. Estes resultados coincidem com os achados reportados por diferentes autores mundialmente. * (Smayda,1990; Hallegraeff,1993; Burkholder,1998; Shumway et al., 2003; Landsberg et al., 2007; Newman et al., 2007; Lopez-Rodas et al., 2008).

Decréscimo em Espanha, situação complexa em Portugal

Nos últimos anos, a opinião pública generalizada é de que a população de gaivotas está a aumentar devido à sua conquista do entorno urbano, mas, na verdade o panorama geral é menos linear: várias entidades têm vindo a alertar para um importante decréscimo nas populações de gaivotas na Península Ibérica.  

No último Livro Vermelho das Aves de Espanha, a gaivota-de-patas-amarelas passou do estatuto Pouco Preocupante a Quase Ameaçada*. No Parque Nacional de las Islas Atlánticas,na Galiza (norte de Espanha), a população nidificante de gaivotas-de-patas-amarelas diminuiu 77% nos últimos 15 anos (mardeaves.org). As possíveis causas desta diminuição envolvem falta de alimento devido ao fecho de aterros e também o síndrome parético. 

Gaivota em tratamento. Foto: RIAS

Já em Portugal, a situação é complexa e depende da área do país em que nos encontramos. O maior decréscimo regista-se na colónia localizada na Ilha da Berlenga, onde nos últimos anos foi realizado um controlo populacional que justifica essa diminuição. No resto do país, o Censo Nacional de Gaivota-de patas-amarelas, realizado pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) em 2021, aponta para um aumento tanto do número como da distribuição desta espécie.

Por outro lado, focando-nos no Algarve, a maior colónia nidificante de gaivota-de patas-amarelas encontra-se na Ilha Deserta. Esta população tem vindo a experimentar um decréscimo acentuado desde 2018, contando em 2021 com menos da metade dos casais reprodutores ali registados três anos antes, de acordo com os dados reportados pelo grupo ECOTOP da Universidade de Coimbra, que a monitoriza desde 2014. 

Por tudo isto, torna-se importante determinar as causas desta ameaça silenciosa e, principalmente, determinar quais os passos que podem ser tomados para diminuir o seu impacto. 


* Bibliografia

Sonne, C., Alstrup, A. K. & Therkildsen, O. R. (2012). A review of the factors causing paralysis in wild birds: Implications for the paralytic syndrome observed in the Baltic Sea. Science of The Total Environment, 416, 32-39., 

Newman, S., Chmura, A., Converse, K., Kilpatrick, A., Patel, N., Lammers, E. & Daszak, P. (2007). Aquatic bird disease and mortality as an indicator of changing ecosystem health. Marine Ecology Progress Series, 352, 299-309. 

Shumway, S. E., Allen, S. M. & Boersma, P. D. (2003). Marine birds and harmful algal blooms: Sporadic victims or under-reported events? Harmful Algae, 2(1), 1-17. 

Landsberg, J. H., Vargo, G. A., Flewelling, L. J. & Wiley, F. E. (2007). Algal Biotoxins. In Infectious diseases of wild birds Eds Thomas N. J., Hunter D. B. & Atkinson C. T. pp. 431-455. Ames, Iowa: Blackwell Pub.

Lopez-Rodas, V., Maneiro, E., Lanzarot, MP., Perdigones, N. & Costas, E. (2008) Mass wildlife mortality due to cyanobacteria in the Doñana National Park, SpainVeterinary Record 162, 317-318

Juan Carlos Blanco y José Luis González (2022) Libro rojo de los vertebrados de España. Ed Ministerio de Agricultura, Pesca y Alimentación