Ganso-patola adulto. Foto: Andreas Trepte/Wiki Common

Sociedade Espanhola de Ornitologia preocupada com impacto da pior pandemia de gripe aviária até hoje nas aves marinhas

Este ano, as colónias europeias de gaivota-de-cabeça-preta (Larus melanocephalus), de gaivota tridáctila (Rissa tridactyla) e de airos (Uria aalge) estão entre as mais afectadas por este vírus. A expansão da doença está a preocupar a Sociedade Espanhola de Ornitologia (SEO/Birdlife).

Não é a primeira vez que se ouve falar de gripe aviária na Europa. Este vírus, que afectava sobretudo as aves domésticas, começou a ser detectado em espécies selvagens no início do ano 2000 e a expandir-se através das rotas migratórias das aves.

Desde então ocorreram episódios esporádicos de mortalidade massiva de aves, principalmente aves aquáticas em zonas húmidas de todo o continente europeu.

“Em 2021, o vírus H5N1 deu o salto para as aves marinhas, causando uma situação sem precedentes e que hoje se mantém”, alertou hoje em comunicado a SEO/Birdlife.

Em Espanha, durante o actual surto – entre 1 de Julho de 2022 e 7 de Junho de 2023 – foram detectados sete casos em aves domésticas, um em aves de cativeiro e 117 em aves selvagens nas comunidades autónomas da Andaluzia, Catalunha, Galiza, País Basco, Aragão, Castela e Leão, Castela-La Mancha, Cantábria, Extremadura, Madrid, La Rioja, Astúrias, Múrcia e Valência.

São especialmente preocupantes os surtos nos parques naturais da albufeira de Valência e do delta do Ebro, ambos locais de extrema importância para as aves marinhas e aquáticas.

O rápido avanço de uma doença que não conhece fronteiras

No Verão de 2021, enquanto os seres humanos se livravam a pouco e pouco da pior pandemia do último século, as aves marinhas começavam a enfrentar a sua própria pandemia. A morte de várias aves na Escócia pelo vírus H5N1 fez soar os alarmes.

No Inverno desse mesmo ano ocorreram mortalidades massivas de gansos-de-faces-brancas (Branta leucopsis)​ nas suas zonas de invernada no Reino Unido. Além disso, o vírus foi detectado na América do Norte e começou a expandir-se rapidamente por todo o continente.

No início de 2022 também ocorreram mortalidades massivas de aves em vários pontos de África, como no Parque Nacional das Aves do Djoudj (no Senegal), uma das mais importantes reservas ornitologias do mundo.

Na Primavera de 2022, o vírus afectou de forma catastrófica as colónias europeias de pelicano-crespo (Pelecanus crispus), ganso-patola (Morus bassanus) e andorinhas-do-mar. Calcula-se que menos de metade dos reprodutores regressaram às suas áreas de invernada depois da temporada de cria.

Em finais de 2022 e princípios de 2023, o vírus tinha chegado pela primeira vez ao Sul do continente americano, afectando um grande número de espécies, incluindo mamíferos marinhos. Em apenas quatro meses de 2022, nas costas do Peru contabilizaram-se 22.000 aves mortas, sobretudo pelicanos, e no início de 2023 vários milhares de leões marinhos arrojaram na costa.

Para o que resta de 2023, a SEO/Birdlife não está optimista. “As colónias de aves marinhas continuam a ser devastadas pela gripe. Na Europa, ainda que os gansos-patola pareçam não ter sido tão afectados, as colónias de gaivota-de-cabeça-preta e mais recentemente de gaivota-tridáctila e de airos estão a ser as mais vulneráveis ao vírus e é preocupante a sua rápida expansão e adaptação a novos hospedeiros.”

Impacto nas populações de aves marinhas na Europa

Até hoje, o vírus da gripe aviária foi detectado em cerca de 400 espécies diferentes de aves. Mas os surtos que têm surgido nos últimos dois anos estão a afectar principalmente as aves marinhas.

O comportamento colonial durante o período reprodutivo de espécies como o ganso-patola e a andorinha-do-mar cria o cenário perfeito para que o vírus se propague com rapidez. Os adultos só vão a terra uma vez por ano e aí ficam poucos meses para fazer os ninhos, muitas vezes localizados em ilhotas remotas. “Estas colónias albergam grande parte da população mundial de algumas destas espécies, por isso o impacto sobre a sua população a nível mundial é devastador.”

Alguns dos dados recolhidos até agora dão conta de uma situação crítica para cinco espécies.

Pelo menos 75% das colónias de ganso-patola atlântico foram afectadas, com um total de 60% de mortalidade. Mais de 11.000 baixas calculam-se para a Escócia, onde estão as suas principais áreas de nidificação. Em Bass Rock, a maior colónia de gansos-patola do mundo, o território ocupado viu-se reduzido em 71% e registou-se uma diminuição do êxito reprodutor de 61%.

Por seu lado, foram contabilizados pelo menos 2.700 cadáveres de moleiro-grande (Stercorarius skua) e foi registada uma redução de 70% dos territórios ocupados nas ilhas britânicas, onde se situam as principais colónias a nível mundial (cerca de 8.900 casais), estimando-se uma mortalidade de 7% da população global. O êxito reprodutor nas colónias afectadas em 2021 e 2022 foi praticamente nulo. Várias das aves mortas tinham mais de 20 anos de idade.

Durante o surto de 2022, nas colónias do Noroeste da Europa contaram-se 20.531 garajaus-comuns (Thalasseus sandvicensis) adultos mortos em apenas dois meses, calculando-se uma taxa de mortalidade da população nidificante de 74%.

Em 2022, a gripe causou a morte de 60% da maior colónia mundial de pelicano-crespo no Lago Prespa (Grécia), afectando também outras colónias da zona Este da Europa. Calcula-se que se tenham perdido 40% da população europeia e 10% da população mundial.

Por fim, o guincho-comum (Chroicocephalus ridibundus) terá perdido 10.000 aves no Reino Unido, correspondendo a 4% da sua população, com centenas de outros casos em vários países da Europa continental.

Mas, segundo a SEO/Birdlife, estes números poderão estar subestimados, por causa da dificuldade em recuperar as carcassas dos animais mortos e porque nem todas as colónias têm estimativas populacionais a longo prazo que permitam fazer comparações inter-anuais.

“Prevê-se que estas populações demorem várias décadas a recuperar, se o conseguirem”, comentou, em comunicado Lucía Soliño, técnica do Programa Marinho da SEO/Birdlife.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.