Uma viagem ao centro do Alentejo à procura de anfíbios

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Não andam à procura do próximo sapo encantado que se vai transformar em príncipe charmoso para remendar o coração às meninas. A equipa do LIFE LINES da Universidade de Évora sai nas noites húmidas, chuvosas e amenas, mas por uma outra causa.

Sempre que as condições meteorológicas permitem, Luís Sousa e outros colegas e alunos da Universidade de Évora saem à procura de anfíbios pelas estradas do Alentejo, na noite escura.

Os anfíbios gostam do tempo húmido porque precisam de manter as suas peles molhadas para realizar as suas trocas respiratórias, e hoje parece que não vai chover. Além disso, os anfíbios não costumam sair com o tempo muito frio pois tornam-se mais lentos, ficando vulneráveis aos ataques dos predadores. Mas, nesta noite de novembro, ainda bastante amena, Luís está confiante em que irá encontrá-los. “Pelo menos algumas espécies”, diz, seguro. 

Ao entrar na carrinha com um logótipo que figura uma gineta, o símbolo do projeto LIFE LINES, Luís explica um pouco sobre os charcos temporários, locais onde normalmente se abrigam os anfíbios. “Estes charcos têm duas fases, no verão e no inverno, uma fase seca e outra inundada. Podem chegar a ter sete hectares. E são sítios de uma biodiversidade incrível, quase comparável a uma floresta amazónica. Lá, os anfíbios põem os ovos e iniciam o seu desenvolvimento”, descreve este biólogo.

Sapo corredor. Foto: Luís Sousa

Muitas das espécies que os charcos temporários albergam são consideradas raras e ameaçadas, quer a nível europeu, quer a nível global. Ali coabitam anfíbios, cobras de água, dáfnias (pulgas da água) e zooplâncton. O zooplâncton purifica a água, funcionando da mesma maneira que uma piscina biológica.

Os charcos podem ser muito grandes, mas não são muito percetíveis a olhos inexperientes e até mesmo experientes. “Muitas vezes necessitamos de usar o Google Maps para saber onde os encontrar”. Por essa razão, são frequentemente destruídos por agricultores ao fazerem plantações. 

Desafio noturno

Luís organiza as folhas onde vai apontar os anfíbios que encontrar, assim como o local onde estão, tendo por isso um dispositivo GPS para o ajudar. À saída da herdade, encontra um colega que lhe diz que naquela noite não vai haver anfíbios. Luís ri-se; descontraído e em jeito de desafio, encolhe os ombros e diz: “Vamos ver se há ou não.” 

A primeira paragem é numa estrada à saída da vila, um local onde imensos anfíbios vão parar devido às calhas de escoamento da chuva, não conseguindo depois sair da estrada por terem o muro a travá-los. É aqui que Luís avista os primeiros exemplares, “demasiados, infelizmente”. São vários sapos corredores, a espécie mais comum no Alentejo, que se encontram meios camuflados junto às paredes dos muros e das casas.

À medida que a noite for escurecendo, estes anfíbios vão avançar para o meio da estrada para caçar e para atrair parceiros. Luís conta, divertido, que por vezes a equipa andava confusa, algum tempo, à procura dos sapos, para depois os descobrirem empoleirados em cima do muro, à espreita. 

Luís pega neles cuidadosamente para verificar a espécie, se são juvenis ou adultos. Quando os sapos se assustam nas suas mãos, largam a água que tinham acumulada no seu organismo, aparentando fazer chichi. “O que acontece é que, quando eles estão assustados, libertam a água para se tornarem mais leves e conseguirem fugir mais rapidamente”, explica. 

 Esta estratégia de fuga levou ao famoso mito de que os sapos fazem chichi nos olhos das pessoas. Luís lembra-se de ouvir isso onde cresceu, principalmente quando as pessoas iam apanhar nêsperas. “As relas, uma espécie de anfíbio arborícola que se expõe durante o dia, trepam para o cimo das árvores para dormir e, quando as pessoas iam apanhar as nêsperas, acordavam-nas fazendo com que a fruta muitas vezes viesse molhada e caindo água do topo das árvores”. Mas não é preciso ter nojo. E acrescenta: “Na Austrália, por exemplo, os aborígenes quando estão no deserto bebem a água das rãs que estão escondidas debaixo das pedras”.

Sapo de unha negra nas barreiras, a dirigir-se para uma passagem segura. Foto: Luís Sousa

Neste local, Luís pode colocar os anfíbios noutro sítio seguro, afastando-os da estrada, após os registar e contabilizar, tentando salvá-los de serem atropelados. Noutras estradas, já não será possível fazer o mesmo pois iria alterar os resultados do Projeto Move, um projeto realizado de forma intensiva que faz um registo da mortalidade de diversas espécies em várias estradas do Alentejo, para provar a necessidade de implementação de medidas barreiras para tornarem as infraestruturas mais seguras para a sobrevivência destes e outros animais.

Percorrendo a Estrada Municipal 535, que liga Santiago do Escoural a São Cristóvão, Luís sobressalta-se diversas vezes com a lua cheia no espelho retrovisor, que se assemelha a um carro aproximando-se rapidamente. Pára a carrinha sempre que avista algo que aparenta ser um anfíbio, saindo para apontar a espécie, se é juvenil ou adulto, se foi atropelado ou está vivo. 

“Cada pontinho branco na estrada

Afirma que os anfíbios são fáceis de se ver: “Cada pontinho branco na estrada, à partida é um anfíbio”, embora por vezes se confundam com lesmas, caracóis e até mesmo folhas. Os sapos corredores, por exemplo, apesar de serem animais pequenos que têm a parte superior do corpo camuflada, possuem o peito branco, crucial para atraírem potenciais parceiros. “Os machos ficam parados no meio da estrada, a cantar, para atraírem as fêmeas”, explica.

Os anfíbios são atraídos para as estradas pois elas funcionam como corredores para irem para os seus locais de reprodução, para se alimentarem e encontrarem parceiros. Além disso, os anfíbios utilizam a visão para caçar ficando, por isso, parados no meio da estrada, onde têm uma noção mais ampla do que os rodeia. Por essa razão, o atropelamento é a maior causa de mortalidade desta espécie, sendo necessário sensibilizar a população e implementar medidas físicas para a sua proteção – como as barreiras instaladas pelo projeto LIFE LINES, do qual este biólogo faz parte. 

Luís explica que os anfíbios se reproduzem na primavera, nas poças de água, e por essa razão por vezes ficam preocupados quando, em anos de seca, não conseguem encontrar juvenis. “Embora no ano passado tenham nascido imensos, eles demoram dois anos até conseguirem começar a reproduzir-se e a sua taxa de mortalidade é mesmo muito grande. Principalmente nas estradas.”

Sapo de unha negra. Foto: Luís Sousa

À medida que a noite vai escurecendo, o número de anfíbios atropelados aumenta. “Mais um. Esta é a parte triste”, diz Luís, enquanto anota nas suas folhas a espécie e o estágio de desenvolvimento (juvenil ou adulto) do sapo encontrado, desta vez um sapo de unha negra já adulto. 

Mais à frente avista outro. Desta vez um sapo corredor, vivo, que lhe parece um macho adulto por já possuir, nos membros superiores, umas calosidades que esta espécie usa para agarrar as fêmeas no ato de acasalamento, além das unhas negras. “Malandro, já me molhou o assento do carro”, ri-se, após o examinar e devolver à natureza.

A viagem continua e a noite vai ficando mais fria, com uma temperatura de 11 graus. Em noites como estas, quase só os sapos corredores e de unha negra se atrevem a sair, sendo que abaixo de 10 graus os investigadores consideram que não vale a pena fazer a saída de campo de anfíbios.

Coruja do mato. Foto: Luís Sousa

Ao avançar pelo Alentejo, Luís vai apontando alguns charcos temporários que, ao longe, se assemelham a planícies, iguais a tantas outras. Aproveita para explicar o impacto negativo que o gado montado tem nos charcos: “Enquanto que os grupos selvagens, tanto de veados como de outras espécies, se deslocam de zona em zona, bebendo dos charcos e transportando os ovos dos anfíbios entre os diversos charcos, o gado montado está sempre no mesmo sítio. Pisam tudo, defecam nos charcos, ficando lá mais nutrientes, o que leva ao desenvolvimento de algas que, por taparem a luz, acabam por matar muitas das outras plantas. Todo o ciclo entra em colapso.”

Outro dos perigos para os anfíbios são as passagens canadianas que os agricultores usam nas entradas das suas propriedades, cuja função é impedir que o gado fuja. Estas passagens cobrem um buraco que fica cheio de água, “mas o que acontece é que os anfíbios, assim como outros animais, caem lá para dentro, não conseguindo depois sair.” A equipa de Évora lembrou-se de colocar cortiça nestas passagens para os animais poderem trepar e escapar-se.

Salamandra de pintas amarelas presa numa passagem canadiana. Foto: Luís Sousa

A noite avança e após vários quilómetros percorridos, o trabalho está quase a terminar. No final da saída, pelas nove ou dez horas da noite, a equipa costuma jantar num restaurante, nalguma pequena aldeia no final de uma das estradas percorridas.

Encontro com uma raposa curiosa

A caminho do restaurante, uma coruja das torres atravessa-se em frente da carrinha, após realizar um voo descendente de uma árvore na beira da estrada. Mais à frente, Luís avista também uma sombra e uns olhos brilhantes entre as árvores: “Uma raposa!”, exclama. Pára a carrinha, sai e chama-a. A raposa deteve-se na sua fuga para perceber quem ali estava, os seus olhos refletindo a luz dos faróis no escuro. “São muito curiosas. Podem estar com medo, mas voltam-se sempre para saber o que se passa”. Ela observa Luís, interessada, enquanto ele pega na máquina fotográfica tentando captar uma fotografia, mas de súbito a raposa decide voltar à sua retirada, fugindo entre as árvores.

Luís suspira, não tendo conseguido a foto. Já tinha visto aquela raposa antes. “As pessoas têm uma ideia errada do número de bichos que vêem. Acham que há muitos, mas a maior parte das vezes estão sempre a ver os mesmos, pois estes deslocam-se bastante”, explica.

Raposa. Foto: Luís Sousa
Gineta. Foto: Luís Sousa

Ainda divertido, enuncia uma verdade que considera absoluta nas saídas de campo: “Vê-se de tudo quando se vem sozinho, fuinhas, raposas, doninhas… As coisas mais incríveis. Principalmente se não se tiver trazido a máquina fotográfica. Mas hoje tivemos sorte”, admite sorrindo.

Chegado ao restaurante, Luís pára a carrinha, organiza e observa os registos que fez: “94 registos”. E rindo, lembrando-se do que todos lhe tinham dito, acrescenta: “Então hoje não havia anfíbios, não era?”