A anilhagem de chapins, melros ou tordos dá-nos informação preciosa sobre o estado das nossas aves selvagens. Graças a este grupo de voluntários hoje sabemos mais sobre as aves do Norte Litoral de Portugal.

 

Há 13 anos que os voluntários do GVC – Anilhagem Científica de Aves montam as redes de captura de aves no Parque Biológico de Gaia, duas vezes por mês.

Daniel Santos é um dos voluntários deste grupo que monitoriza as populações de aves dos distritos do Porto e de Viana do Castelo, tendo em vista a sua conservação.

Às 06h00 de um sábado de Fevereiro, Daniel Santos e os seus colegas do GVC estão à porta do Parque Biológico de Gaia para mais uma sessão de anilhagem.

A manhã está gélida e o termómetro marca 0 °C.

No grupo há voluntários das mais variadas áreas profissionais, mas todos têm em comum o enorme fascínio pelas aves e uma grande vontade de contribuir para a conservação da natureza.

As aves, com cerca de 10.000 espécies, estão espalhadas por todo o planeta. Evoluíram a partir de um grupo de dinossauros, os terópodes, durante o Jurássico, há cerca de 165 a 150 milhões de anos. Desde então, têm-se adaptado aos mais variados habitats e adquirido formas e comportamentos incrivelmente peculiares.

Não é de estranhar que estes sejam provavelmente os animais que mais nos fascinam e que existam por todo mundo pessoas, profissionais e amadores, a estudá-los. Através, por exemplo, da anilhagem.

A anilhagem científica de aves é um método de marcação individual que se tornou bastante popular na investigação científica dada a sua elevada eficácia no estudo da biologia das aves.

 

 

Por entre a escuridão, o grupo apressa-se a montar as redes verticais. Têm de estar prontas antes do sol nascer. Estas redes são feitas de forma a serem o menos visíveis possível, aumentando assim a probabilidade de captura das aves.

 

 

Nas redes do GVC já foram recapturadas muitas aves anilhadas a largos quilómetros de distância. Em janeiro de 2016 foi recapturada uma toutinegra-de-barrete (Sylvia atricapilla) no Parque Biológico de Gaia, anilhada em outubro de 2015 em Antuérpia (Bélgica). A toutinegra-de-barrete é uma espécie residente mas durante o Inverno as populações portuguesas são reforçadas com indivíduos migradores oriundos do norte da Europa. A distância entre os dois pontos é de uns extraordinários 1.500 quilómetros, mas é provável que este passeriforme tenha viajado muito mais, principalmente se considerarmos que a viagem de ida e volta é geralmente feita todos os anos.

Um outro exemplo é o de um rouxinol-pequeno-dos-caniços (Acrocephalus scirpaceus), com apenas 9,4 gramas, recapturado pelo grupo um mês depois de ter sido anilhado na Holanda, a 1.578 quilómetros de distância.

Apesar destas distâncias serem consideráveis, estão longe da migração mais longa do planeta, protagonizada pela andorinha-do-mar-árctica (Sterna paradisaea). Esta espécie vê dois verões por ano, pois nidifica no ártico e viaja depois para a Antártida, regressando novamente ao extremo norte, sendo a distância máxima registada até hoje de 96.000 quilómetros.

Informações como estas, conseguidas muitas vezes através da anilhagem, permitem perceber os padrões migratórios das aves, o que é crucial para a conservação das espécies.

 

 

Uma hora passou desde a abertura das redes o que significa que é altura de fazer a primeira ronda. Por esta hora, a atividade das aves já aumentou e ouvem-se várias espécies a marcar o território. Esta azáfama antecipa uma sessão repleta de aves.

Logo na primeira hora foram capturados 31 animais de várias espécies, como o tentilhão-comum (Fringilla coelebs), a toutinegra-de-barrete, o chapim-real (Parus major), o melro-comum (Turdus merula) e o tordo-comum (Turdus philomelos).

Pergunta o leitor, como ficam as aves presas na rede? Não se magoam? As redes têm uma malha muito fina e são compostas por vários bolsos. Quando uma ave voa na direção da rede, cai num dos bolsos e fica presa, sendo muito residual o risco de se magoar.

Retirar as aves da rede requer muito treino e técnica minuciosa e apenas pessoas com experiência o podem fazer, garantindo o bem-estar das aves.

 

 

O grupo tem sempre alguma ideia das espécies que vai capturar em cada sessão. Mas por vezes surgem surpresas. Apesar de não ser uma espécie propriamente comum no Parque Biológico de Gaia, durante o mês de fevereiro existe a possibilidade de capturar o tordo-ruivo (Turdus iliacus). Nem todos os anos acontece, mas esta é realmente uma ave muito bonita que enche os olhos aos anilhadores.

 

 

Depois de terminada a ronda às redes, voltamos para o local onde as aves vão ser anilhadas.

O tamanho e peso das anilhas estão adaptados a cada espécie, de forma a assegurar que não tenham qualquer efeito negativo para as aves. Cada anilha tem gravado um código alfanumérico único, que funciona quase como um cartão de cidadão, permitindo a distinção dos indivíduos, mesmo dentro da mesma espécie.

 

 

De seguida, são retiradas várias medidas morfométricas, o peso e também é inferida a idade, o sexo (quando possível) e as condições físicas.

Mais tarde recapturamos uma trepadeira-comum (Certhia brachydactyla), uma espécie bastante especial para o GVC.  Em 2008 foi anilhado um indivíduo, que foi recapturado oito anos e uns meses depois; um recorde de longevidade para a espécie a nível mundial. Antes deste achado, pensava-se que a trepadeira-comum poderia viver no máximo até aos cinco anos de idade.

A ave mais velha de que se tem conhecimento é um albatroz-de-laysan (Phoebastria immutabilis), anilhado em 1956, estimando-se que tenha, pelo menos, 68 anos!

Esta é mais uma das razões da anilhagem de aves ser tão importante, pois permite perceber a longevidade das espécies em meio selvagem.

 

 

No Parque Biológico de Gaia o tempo foi passando. Mais aves caíram nas redes e vários assuntos ligados à conservação da natureza foram discutidos. São agora 12h15.

Depois de uma longa manhã, a temperatura subiu ligeiramente e chegou a hora de arrumar o material. Para além das espécies já referidas, foram capturadas mais cinco, das quais se destacam o pardal-comum (Passer domesticus) e o estorninho-preto (Sturnus unicolor) que, apesar de serem muito comuns, não são espécies capturadas com frequência.

No total foram registadas na folha de anilhagem 70 aves de 11 espécies diferentes.

 

 

As espécies capturadas neste dia são consideradas comuns e podem ser observadas com facilidade no Parque Biológico de Gaia.

Ao contrário do que possa parecer, estudar estas espécies é muito importante porque permite perceber a sua dinâmica populacional ao longo dos anos, dando-nos uma ideia da evolução da qualidade dos habitats, informação crucial para decisões de conservação. Isto é possível porque estas espécies, quando comparadas com as menos comuns, são capturadas e recapturadas com maior frequência em diferentes épocas e ao longo de vários anos.

A anilhagem é uma atividade que está ao alcance de qualquer pessoa. Se tiver interesse em participar numa sessão, contacte o grupo através da página do Facebook. O GVC faz sessões de anilhagem no primeiro e terceiro sábados de cada mês no Parque Biológico de Gaia e todos são bem-vindos. Para além da anilhagem propriamente dita, o grupo participa também em congressos sobre a avifauna portuguesa. O objetivo é muito simples: conservação da natureza e educação ambiental.

 

Daniel Santos é biólogo e fotógrafo de natureza. Saiba mais sobre o seu trabalho de aqui e siga-o no Facebook ou no Instagram @daniel_s_photo