Voluntários contaram quase 200 águias-pesqueiras a passar o Inverno em Portugal

Águia-pesqueira. Foto: National Biological Information Infrastructure

Os resultados do quinto censo nacional já são conhecidos. A Wilder falou com a equipa coordenadora das contagens e conta-lhe tudo.

Num só dia foram contadas entre 168 a 197 águias-pesqueiras que vieram para território português passar os dias mais frios do ano, segundo os dados do 5º Censo da águia-pesqueira invernante, que aconteceu a 22 de Janeiro.

Este projecto, uma iniciativa do portal Aves de Portugal, tem como objectivo saber quantas águias-pesqueiras procuram o território português nesta época – informação que pode ser útil para a conservação desta espécie (Pandion haliaetus), que na Europa se reproduz maioritariamente nos países mais a norte.

Foto: CERVAS

Desta vez, o censo juntou 200 observadores voluntários e teve o apoio de 18 entidades, incluindo organizações públicas e privadas.

Os voluntários visitaram 155 locais diferentes de Portugal Continental, incluindo as zonas importantes de invernada da espécie: ria de Aveiro, vale do Tejo, estuário do Tejo, estuário do Sado e ria Formosa. Em conjunto, “estes cinco sítios acolhem 75 a 80% da população invernante nacional de águia-pesqueira”, indicou à Wilder Gonçalo Elias, que fez equipa com João Tomás para coordenar este censo a nível nacional.

As contagens estenderam-se a pequenas zonas húmidas costeiras, incluindo “estuários de menor dimensão como os do Minho, do Cávado, do Mondego, do Mira ou do Arade”, tal como lagoas costeiras, como “são os casos das lagoas de Óbidos ou de Santo André e ainda outros sítios, como o sapal de Castro Marim”. E houve também visitas a albufeiras no Interior, nomeadamente nos Alentejo, uma vez que nesses locais “invernam algumas águias-pesqueiras”.

Foto: Gonçalo Elias

As 168 a 197 águias registadas por todo o país – este intervalo deve-se à possibilidade de duplicações de contagens – “sugerem que a população invernante se mantém relativamente estável”, uma vez que o total foi semelhante ao censo anterior, realizado em 2019.

Gonçalo Elias destaca os “aumentos expressivos” nos distritos de Coimbra e Setúbal, que este ano passaram, respectivamente, de quatro a cinco (em 2019) para 11 a 13, e de 22 a 27 para 34 a 42 aves contadas. Esses aumentos deveram-se “sem dúvida a uma cobertura mais completa dos vales do Mondego e do Sado.”

No sentido inverso, em Santarém os números desceram: passaram de 53 a 55 águias em 2019 para 39 a 44 nas contagens deste ano. Todavia, a explicação para isso prende-se não com uma menor presença de aves, mas “devido à presença de uma draga no Tejo que impediu a conclusão do censo”.

No distrito ficaram por amostrar o troço entre Chamusca e Vila Nova da Barquinha e mais para jusante o troço entre Santarém a Valada, neste caso devido ao caudal reduzido – um total de cerca de 20 quilómetros que teriam significado “talvez mais uns cinco a dez indivíduos”, acredita o coordenador do portal Aves de Portugal. Ainda assim, Santarém mantém-se como a região com mais águias-pesqueiras contadas.

No distrito de Lisboa também houve uma diminuição – de 28 a 35 em 2019, para nove a 13 – que a equipa não consegue explicar. “Notámos um grande decréscimo de indivíduos quer na lezíria de Vila Franca de Xira, quer ao longo do rio a jusante de Salvaterra de Magos”, nota Gonçalo Elias. “É possível que o facto de estarmos a atravessar um Inverno seco ou o baixo caudal do rio tenham afastado as águias desta zona, mas também poderá haver aqui outros factores envolvidos.”

De resto, o distrito de Faro voltou a registar algumas dezenas de águias – entre 34 a 41 – ficando em terceiro nas contagens, seguido por Aveiro (19 a 24). Quanto a Beja (7), Leiria (4), Viana do Castelo (3), Portalegre (2), Évora (2) e Braga (2) foram os restantes distritos onde os voluntários observaram águias-pesqueiras.

Entre 350 a 400 águias na Península Ibérica

Este quinto censo de águias pesqueiras invernantes foi também o terceiro censo para a Península Ibérica, com a realização de contagens do outro lado da fronteira. “No total da Península Ibérica deverão invernar cerca de 350 a 400 indivíduos, somando-se algumas dezenas em Marrocos.”

Estes números deverão representar cerca de quatro por cento da população europeia da espécie, que segundo a Birdlife International ronda os 10.000 casais. “De qualquer forma, note-se que esta espécie é migradora e uma grande parte da população europeia inverna na África tropical”, nota Gonçalo Elias.

Os estudos de seguimento que têm sido feitos com a espécie, em França, Alemanha e no Reino Unido, indicam aliás que estas aves “têm mostrado fidelidade ao local de invernada”. “A marcação com anilhas coloridas facilita bastante a recolha desta informação. Posso referir que as águias-pesqueiras francesas têm uma anilha colorida cor-de-laranja, as alemãs uma anilha preta e as britânicas uma anilha azul.”

Águia-pesqueira com uma anilha francesa. Foto: Rogério Rodrigues

Em Portugal, além das águias-pesqueiras que aqui passam o Inverno, é possível observar as águias que passam a caminho de outros destinos. Tanto em Março/Abril, em direcção ao Norte da Europa, como em Setembro/Outubro dirigindo-se para a zona da Mauritânia.

E até 1997, no país houve também uma população reprodutora, na costa alentejana, que aí permanecia todo o ano. Catorze anos depois, em 2011, iniciou-se um projecto de reintrodução nas margens da albufeira de Alqueva, com aves trazidas da Suécia e da Finlândia, onde a espécie é abundante. Desde 2015, têm sido registados casais a ocupar ninhos no Alentejo.


Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.