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Foto: Helena Geraldes

A natureza em 2021: Cinco perguntas a Helena Freitas

O que pode 2021 trazer para a Biodiversidade e para a Conservação da Natureza? Com o ano que começa, a Wilder lança cinco perguntas a especialistas e responsáveis portugueses que trabalham para conhecer ou proteger o mundo natural.

Helena Freitas é professora catedrática de ecologia no Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra e é coordenadora do Centro de Ecologia Funcional.

WILDER: O que espera de 2021 para a Conservação da Natureza em Portugal e no mundo?

Helena Freitas: 2021 constituirá certamente um marco importante para o mundo e para a conservação da natureza também. O impacto da pandemia passa pela percepção da necessidade de mudança na relação com a natureza, na perspectiva de que uma sociedade saudável exige um planeta saudável. Penso que é hoje mais clara a nossa dependência da natureza e da ameaça que representa a crescente fragilidade dos ecossistemas e a perda dramática da biodiversidade. Acredito por isso que há condições para se preparar um quadro de compromisso internacional de políticas mais favoráveis à conservação da natureza.

Assim, a minha expectativa para a conservação da natureza em 2021 é sobretudo no domínio do reforço de acordos internacionais que têm grandes implicações para o futuro da conservação da natureza. Em particular a COP 15 da Convenção sobre Diversidade Biológica e os documentos que poderão ficar consignados ao nível da estratégia para a década (Post-2020 global biodiversity Framework) e no êxito dos compromissos ao nível do IPBES (Painel Intergovernamental sobre a Biodiversidade e Serviços dos Ecossistemas).

No plano europeu, destaco a agenda europeia para a biodiversidade 2030 e todo o pacote de políticas públicas associadas ao Green Deal – tenho a expectativa que contribuam para uma outra forma de cuidar a natureza.

No caso português, confesso que não tenho uma leitura muito otimista para 2021. Há claramente uma degradação da conservação da natureza que não temos conseguido inverter. São muitos e complexos os problemas e a política nacional nesta área é muito frágil e cada vez mais desligada da realidade territorial. O primeiro semestre será focado na presidência portuguesa e não haverá muita disponibilidade para olhar para este sector de forma coerente e estruturada. Continuaremos a privilegiar o combate aos incêndios florestais e não me parece que haja espaço para uma intervenção construtiva no domínio da conservação da natureza. A minha esperança é que a dinâmica europeia ajude na reflexão interna e que se perceba a importância extraordinária da conservação da natureza para o progresso económico e social do país.  

W: No seu entender, quais devem ser as prioridades para este ano em prol da natureza em Portugal? E mais concretamente, para a presidência portuguesa da União Europeia?

Helena Freitas: No caso da presidência portuguesa da UE, entendo que devemos procurar dar sequência ao trabalho preparado pela presidência alemã, em concreto o trabalho desenvolvido para a preparação técnica da COP 15. Devemos também dar força à agenda europeia para a biodiversidade e procurar acompanhar esta agenda, apoiando as iniciativas propostas. A própria lei do clima que deverá ser aprovada na presidência portuguesa, exige o cumprimento de objetivos de conservação  desde o restauro dos ecossistemas, à capacidade de sequestro de carbono na floresta ou nos solos. Precisamos de garantir o acesso aos instrumento financeiros que nos permitam implementar a agenda para a biodiversidade. 

W: Quais as espécies ameaçadas que, na sua opinião, precisam de ajuda premente em 2021? 

Helena Freitas: Temos hoje um bom mapeamento de espécies da flora e da fauna (le.g livros vermelhos) que nos permitem fazer escolhas mais robustas e estabelecer prioridades em termos de espécies e habitats. A informação existe; deve ser útil. Eu julgo que uma das preocupações que devemos ter em conta relaciona-se com os cenários climáticos e a ameaça que representam para muitas espécies associadas a habitats aquáticos (ou cujo ciclo de vida requer a presença de água). Daria também prioridade às turfeiras, às espécies alpinas e aos insectos polinizadores.  Por outro lado, tenho consciência que há várias espécies de aves que estão ameaçadas e que justificariam igualmente um plano de conservação específico.

W: Se coubesse a si decidir, qual seria a principal medida que tomaria este ano para tentar travar a extinção das espécies?


Helena Freitas: Como sugeri na questão anterior, faria uma análise de risco a partir dos documentos produzidos e implementaria um plano plurianual de prevenção da extinção. Proporia uma estratégia nacional para a polinização. 

W: Qual, ou quais, os projectos na área da Biodiversidade em que estará a trabalhar em 2021 que mais a entusiasmam?

Helena Freitas: O projecto “Reservas da Biosfera: Territórios Sustentáveis, Comunidades Resilientes” – sobre as 12 reservas da biosfera nacionais. As Reservas da Biosfera (RB) são territórios distinguidos pela UNESCO pela singularidade e qualidade do seu património natural e cultural e pela harmonia que privilegiam entre a salvaguarda do património e o bem-estar das comunidades residentes. A rede mundial de RB dá expressão à Agenda 2030 e aos seus Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável, assumindo um compromisso com as melhores práticas para um progresso justo e sustentável, alicerçado nos pilares da missão da UNESCO: ciência, educação, cultura e informação.

São estes mesmos pilares que inspiram os eixos estruturantes do projeto – conhecimento, capacitação e comunicação – apoiando uma estratégia construída com as comunidades, numa dinâmica de sensibilização e de envolvimento ampliada à sociedade em geral, partilhando experiências e adotando práticas colaborativas para a promoção do bem-estar e sustentabilidade.

O Projeto “RB Territórios Sustentáveis, Comunidades Resilientes” assenta na qualidade ambiental dos territórios das RB, em larga medida decorrente do empenho e trabalho realizado pelas entidades responsáveis, e tem como visão a valorização dos territórios, em estreita articulação com as comunidades, compreendendo os ativos patrimoniais e a promoção dos serviços de ecossistema, apostando no reforço de competências, assumindo uma estratégia de valorização e comunicação assertiva e inovadora, e adotando um modelo de governança exigente e colaborativo.


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