Morcego-anão. Foto: Gilles San Martin/Wiki Commons

Como é que os morcegos caçam de noite?

Como é que os morcegos encontram os insectos no escuro da noite? Ricardo Rocha, especialista nestes mamíferos fascinantes, explica como fazem.

À medida que escurece e a noite avança, vemos por vezes pequenas sombras esvoaçantes junto dos candeeiros de rua acesos. São os morcegos, que por esta hora saem dos abrigos para caçar insetos e aproveitam para apanhar mosquitos e borboletas, atraídos pelas luzes artificiais. 

Mas como é que estes mamíferos se orientam no escuro? Embora muitas pessoas pensem que são cegos, “conseguem ver tão bem como nós e em algumas situações até tendem a usar a visão em vez da ecolocalização para caçar”, explica Ricardo Rocha, investigador na Universidade de Cambridge.  

Fora da Europa, há mesmo “um grupo particular de morcegos, as raposas voadoras, que se alimentam de frutos e néctar, têm olhos particularmente grandes e uma visão particularmente apurada, conseguindo ver luz ultravioleta, em alguns casos.”

Ainda assim, quase sempre os morcegos recorrem à ecolocalização para se orientarem durante a noite: usam o som “para localizar e identificar um alvo, enviando pulsos sonoros e recebendo os ecos refletidos pelo mesmo”, descreve. É desta forma que ficam a saber o que está à sua frente, “incluindo o tamanho e a forma dos insetos e para onde se deslocam”.

Em Portugal, os morcegos produzem os pulsos sonoros da ecolocalização com a laringe, mas há países onde algumas espécies clicam com a língua.

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Morcego-orelhudo-cinzento. Foto: Jasja Dekker / Wikimedia Commons

Quando se aproximam de um objeto, os morcegos emitem os pulsos sonoros numa sequência especialmente rápida, conhecida como sequência terminal (‘terminal buzz’, em inglês). “É particularmente importante na caça, uma vez que quando os morcegos se aproximam de um inseto, o aumento da frequência de pulsos de ecolocalização (que em algumas espécies podem aumentar até cerca de 190 por segundo), aumenta a precisão com que a trajetória da presa é calculada.” 

Por outro lado, cada espécie tende a emitir pulsos de ecolocalização distintos, incluindo diferenças ao nível da frequência em que são emitidos e na forma e duração dos mesmos. Os cientistas captam estes sons com aparelhos especiais, pois muitas vezes o ouvido humano não os consegue ouvir, e depois analisam os sonogramas (representação gráfica do som). Desta forma, “podemos muitas vezes identificar a espécie, ou pelo menos, ter uma ideia de que tipo de morcego se trata”.  

Mas não são apenas os morcegos que usam a ecolocalização. Esta “é usada por golfinhos, baleias e até algumas aves!”


Ao longo do ano, a cada mês, a revista Wilder desvenda-lhe alguns dos fenómenos que estão a acontecer no mundo natural, incluindo no Jardim Gulbenkian.

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.