Dente-de-leão. Foto: Fernanda Botelho

Fernanda Botelho apresenta-nos 53 plantas portuguesas, teimosas e resistentes

A agenda para 2023 desta especialista em plantas silvestres e medicinais destaca a flora espontânea e alerta para o perigo do uso de herbicidas. A Wilder falou com a autora e conta-lhe como nasceu esta nova publicação.

A luta de Fernanda Botelho para acabar com a má fama que têm as chamadas ervas daninhas não é de agora. Desta vez, deu origem a uma agenda para o ano que agora começa, inspirada pelo mesmo tema: 53 plantas portuguesas resistentes e teimosas, todas com fotografias e textos da autora.

“Muitas vezes são consideradas daninhas, mas muitas delas são bastante úteis”, explicou à Wilder esta especialista no mundo da flora silvestre e medicinal, que nota que “metade do que as pessoas arrancam podiam comer”. As capuchinhas e as urtigas, por exemplo, são um recurso valioso nas cozinhas, exemplifica, lembrando que as folhas das primeiras podem ser usadas, por exemplo, para substituir as algas usadas nos rolinhos de sushi.

Ainda assim, é necessário cuidado. “Fiz esta agenda para valorizar as plantas que podemos comer e usar para nosso benefício, mas também indicar quais é que são venenosas”, sublinha. Na cidade, aliás, é necessária muita cautela com os locais onde se colhem plantas, devido aos resíduos e à poluição.

Fernanda Botelho nota também que “há um ódio instalado” em relação a estas ervas, mas as pessoas hoje “estão mais informadas” e “lá fora há mesmo uma tendência gastronómica para se fazer ‘foraging’, ou seja, colectar o que a natureza nos dá”.

A própria Fernanda faz por vezes isso mesmo na serra de Sintra, acompanhada por alguns chefs de cozinha. “A lei não permite sequer apanhar urtigas nesse local [por ser uma área protegida], mas depois vão lá com as máquinas e arrasam tudo, não só as acácias invasoras mas também muitas espécies nativas. Não sinto pejo nenhum em apanhar flores de sabugueiro, por exemplo”, sublinha.

Ainda assim, há que seguir várias regras importantes quando se vai para o campo: “Podemos colher, mas sempre com respeito, e deve-se deixar sempre mais do que se apanha.”

Metáforas do apego à vida

Sejam úteis ou não para consumo humano, as 53 plantas desta nova agenda são para Fernanda Botelho “uma metáfora muito bonita” sobre a importância da resistência. “As pessoas deitam-lhes veneno para cima e elas resistem sempre, não se deixam matar” – uma capacidade de resiliência que decorre da constituição destas espécies, que são “rijas” e “agarram a vida”, mas que em contrapartida pode trazer problemas a quem tem uma horta, admite.

Muitas destas “ervas” são extremamente úteis para os ecossistemas e para parte da alimentação, mas numa horta, é claro que “as gramíneas têm de sair, em especial o esgalracho”. Já espécies como a chicória e o dente-de-leão, com as suas raízes profundas, na verdade ajudam a arejar a terra e por isso são muito úteis para os hortelãos.

A acompanhar a nova agenda, a 13ª da sua autoria, Fernanda tem um texto sobre a importância de “cultivar empatia” e destaca também alguns projectos dedicados à valorização da flora espontânea. É o caso do colectivo A Recolectora, que se foca na vegetação espontânea comestível e do qual faz parte desde 2021, da campanha Autarquias sem Glifosato/Herbicidas, da associação Quercus, e também do movimento Sintra sem Herbicidas, no qual embarcou há cinco anos.

Plantas Resistentes: Agenda 2023

Autora: Fernanda Botelho

Editora: Dinalivro

Preço: 15 euros

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.