Isoscellipteron glaserellum. Foto: João Nunes

Moscas-serpente e formigas-leão: quem são os Neuropterida?

Recentemente, investigadores portugueses estudaram os insectos da superordem Neuropterida, preenchendo uma lacuna de conhecimento sobre o mundo natural. Saiba quem são estes animais, com a ajuda de Daniel Oliveira e Sónia Ferreira, entomólogos do CIBIO-InBIO.

Proveniente do grego neuron= nervura e pteron= asa, o nome indica-nos a principal característica deste grupo de insetos: asas com um grande número de nervuras.

Crisopa Nothochrysa fulviceps. Foto: João Nunes

Nesta superordem incluem-se três ordens de insetos, a saber, Neuroptera, Raphidioptera e Megaloptera. Dentro destas três ordens reside uma enorme variedade morfológica e um interessantíssimo cardápio de comportamentos e adaptações evolutivas únicas. 

No grupo das formiga-leão e dos ascalafídeos (Myrmeleontidae) existem muito exemplos de adaptações à predação. Podemos tomar como exemplo as espécies do género Myrmeleon. As larvas destas espécies constroem pequenos cones na areia que servem de armadilha a formigas mais distraídas. Quando as formigas caem nestes cones, as formigas-leão atiram areia na direção da sua presa, que é incapaz de subir pela parede inclinada de areia e que, eventualmente, é capturada no fundo da armadilha pelas grandes mandibulas do predador.

Armadilha feita pela larva de Myrmeleontidae. Foto: Daniel Oliveira

Esta estratégia, ainda que talvez a mais interessante da família, não é a única havendo, por exemplo, espécies cuja larva espera no solo ou numa folha, mais ou menos camuflada, por uma presa que se cruze no seu caminho. 

A família Nemopteridae, em Portugal, é representada por única espécie, o neuróptero-de-duas-pernas (Nemoptera bipennis). Já na vizinha Espanha (onde esta espécie toma o nome de duende) há uma outra espécie, menos vistosa, mas incrivelmente rara. Na verdade, Lertha sofiae conta apenas com dois registos em toda a Península!

As Mantispas, que à primeira vista se confundem com louva-a-deus ou vespas pelas suas patas dianteiras e esquema de cores, são, em adultos, predadores de emboscada, aguardando que as suas presas se aproximem o suficiente para as capturar. As larvas, por outro lado, são parasitas de sacos de ovos de algumas espécies de aranhas! 

Dentro do grupo das crisopas (família Chrysopidae), temos uma grande variedade de espécies, morfologicamente muito semelhantes entre si. Em geral, são pequenas, de cor esverdeada e com asas transparentes, mas tb as há castanhas! Tanto as larvas como os adultos são predadores e, como tal, têm sido usados extensivamente em controlo biológico de espécies prejudiciais, como os pulgões (afídeos). Certas espécies deste grupo são ainda mais curiosas. Por exemplo, as espécies do género Chrysoperla, utilizam um método de chamamento bastante único: ao pousarem numa folha, movem o abdómen para cima e para baixo muito rapidamente, produzindo vibrações na planta que servem para comunicar com indivíduos da mesma espécie. Notavelmente, embora as diferentes espécies sejam muito semelhantes morfológica e geneticamente, é possível identificar as espécies inequivocamente pela frequência da vibração produzida, única para cada uma.

Isoscellipteron glaserellum. Foto: João Nunes

 A família dos hemeróbidos (Hemerobiidae), à primeira vista muito semelhantes a crisopas embora mais acastanhados e mais pequenos, são outro grupo com bastante interesse económico e, portanto, bastante estudados a nível mundial. Ocupam nichos semelhantes às crisopas e, embora em menor escala, são utilizados para controlo biológico de espécies prejudiciais à agricultura. 

Um terceiro grupo de interesse para controlo biológico é o dos coniopterígidios (Coniopterygidae). Este grupo é também um dos mais estudados e o mais primitivo, mas conta com algumas especializações que permitiram a sua sobrevivência até hoje, como muitas outras famílias de Neuroptera, explorando nichos ecológicos raramente vistos. As larvas destes insetos são predadoras como na maioria das outras famílias, mas, ao contrário do que é usual, não “mordem” as suas presas com mandíbulas potentes. Na verdade, focam-se em presas estáticas ou de escasso movimento, como ovos de Coccidae, por exemplo. Por esse motivo, as larvas têm um aspeto bastante diferente daquele visto nas outras famílias de Neuroptera, com mandibulas em forma de estilete (como se fosse uma palhinha) que usam para sugar os fluidos das suas vítimas. Os adultos têm também um aspeto peculiar já que as asas não apresentam tanta venação quanto é habitual nos neurópteros e estão cobertas por secreções esbranquiçadas. 

O grupo Neuroptera conta também com algumas outras pequenas famílias em Portugal, algumas bastante conspícuas.

Acanthaclisis occitanica. Foto: João Nunes

A família Dilaridae, que conta com três espécies em Portugal, apresenta indivíduos adultos inconfundíveis, de tamanho pequeno a médio e com asas altamente marcadas. Nestas espécies ocorre também algum dimorfismo sexual, sendo a diferença mais notória a presença de antenas pectinadas (de ‘pente’) nos machos, possivelmente para detetar feromonas produzidas pelas fêmeas. Para além de serem uma família muito primitiva conhece-se pouquíssimo da sua biologia, já que os seus hábitos noturnos e baixa capacidade de dispersão, complicam a sua observação.

Outro grupo do qual também pouco se sabe sobre a sua biologia é a família Berothidae. A única espécie conhecida em Portugal (Isoscelipteron glaserellum) tem um aspeto único, assemelhando-se, em repouso, a uma pequena folha seca. Para o efeito, emprega um par anterior de asas acastanhadas e com abundante pilosidade. 

Todas as famílias faladas anteriormente referem-se a apenas uma ordem, Neuroptera. Os Raphidioptera, a ordem representada pelas moscas-serpente. O seu nome, advém de um pronoto (ou “pescoço”) bastante comprido em relação ao seu tamanho. Apresentam também uma cabeça algo peculiar, quando comparados com os “primos” Neuroptera. As larvas são predadores de pequenos artrópodes mas o mais interessante é que, na maiorias das espécies, a fase larvar dura mais de dois anos! 

Ascalafideo Libelloides longicornis. Foto: João Nunes

E muitas mais curiosidades haverá de entre as mais de 100 espécies de Neuropterida no nosso país.

 


Saiba mais.

Saiba mais aqui sobre o trabalho dos investigadores do CIBIO-InBIO sobre estes insectos.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.