Foto: Dean Moriarty / Pixabay
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O que procurar na Primavera: a esteva

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Numa semana em que se celebram tantos dias relacionados com a natureza – do fascínio pelas plantas, das abelhas, da diversidade biológica, dos parques naturais – falo-vos de uma planta típica da paisagem mediterrânica que se encontra em plena floração, a esteva (Cistus ladanifer).

A esteva

Da família Cistaceae, a esteva também é vulgarmente conhecida como láudano ou xara. A denominação comum ou vulgar de uma espécie é por tradição aquela pela qual as pessoas a conhecem melhor e varia de acordo com a cultura local e a região, podendo por vezes a mesma planta ter diferentes nomes comuns ou o mesmo nome comum estar associado a espécies distintas. 

Daí ser muito mais importante a designação científica, quando queremos falar de uma determinada planta, uma vez que se trata de uma denominação universal.

A esteva é uma planta perene, com porte arbustivo, até três metros de altura, que forma pequenos tufos densos e coloridos. Possui folhas aromáticas, inteiras e lanceoladas (compridas e estreitas, em forma de lança). A página superior das folhas jovens é viscosa e brilhante, tornando-se verde-escura e baça quando adultas. A página inferior das folhas é mais clara, devido aos pelos estrelados que a compõem. A viscosidade também é comum nos raminhos e nas flores, e é mais acentuada no período do verão, altura em que a planta produz mais ládano ou lábdano – um tipo de resina, muito aromático, típico das espécies do género Cistus

Foto: Jean-Pierre Dalbéra / Wiki Commons

A floração da esteva ocorre entre março e maio. As flores são solitárias e grandes, podendo ter até 10 cm de diâmetro. A corola é composta por cinco pétalas brancas, imaculadas ou com uma mancha púrpura escura na base. O cálice é composto por três sépalas verdes, caducas e bastante viscosas. Os estames e os pistilos são intensamente amarelos. 

A duração de cada uma das flores é muito efémera, durando apenas um dia em plena maturação. No entanto, ocorre uma renovação constante de flores durante toda a época de floração.

O fruto é uma cápsula globosa a ovóide, densamente revestida de pelos estrelados e com 7 a 10 compartimentos que se abrem após a maturação para a libertação das sementes.

Imagem: Trissl / Wiki Commons

A denominação científica da espécie está relacionada com algumas particularidades da planta. O nome do género Cistus deriva da palavra latina cisthos que por sua vez deriva do grego kísthos, que significa “cesta” ou “pequena caixa”, e que descreve uma característica do fruto maduro: é uma cápsula que, ao ser aberta, liberta as sementes para o exterior. O restritivo específico ladanifer, do latim ladanum, está associado ao facto de a esteva produzir ládano – um exsudado resinoso cuja abundância a protege de climas agrestes e secos e ainda lhe permite competir com outras espécies, visto parecer inibir o crescimento destas.

Espécie típica da paisagem mediterrânica

A esteva é uma planta nativa da bacia do Mediterrâneo Ocidental e é comum no Sudoeste da Europa e em grande parte do Norte de África. Em Portugal ocorre espontaneamente um pouco por todo o território continental, mas com maior incidência no Centro e Sul do país e no arquipélago da Madeira, onde foi introduzida.

O habitat preferencial da esteva passa por climas amenos e exposição solar plena. Ainda que se adapte a diversos tipos de solo, mesmo em substratos pobres e ácidos, a esteva tem preferência por solos bem drenados, onde predominam os xistos, os granitos e os quartzos, e dispensa os solos calcários. É comum encontrar esta planta em zonas de matos xerófilos, terrenos incultos e degradados e no subcoberto de sobreirais, azinhais ou pinhais. A esteva é uma planta muito resistente à seca e ao vento.

É uma espécie pioneira, sendo uma das primeiras plantas a colonizar áreas ardidas ou perturbadas, tendo um papel fundamental na recuperação dos solos. Alguns autores referem-na como sendo um bom indicador biológico da degradação dos solos, uma vez que é pouco exigente e desenvolve-se melhor em solos pobres.

A esteva, assim como todas as espécies da família Cistaceae, é muito apreciada em jardins como planta ornamental, pela beleza e delicadeza das flores, robustez e grande resistência à seca, além da elevada capacidade de sobrevivência em solos pobres, sendo muito procurada na instalação de jardins de pedra ou rochosos. Pode ser plantada em maciços, em sebes, de forma isolada ou em vasos e floreiras.

Se for bem conservada, não requer cuidados especiais de manutenção. No entanto não reage muito bem ao corte de ramos, sendo de evitar este tipo de intervenção, sobretudo nos exemplares mais velhos. Basta remover os ramos secos ou mortos na primavera. Também manifesta alguma sensibilidade quando ocorrem perturbações ao nível das suas raízes. 

As flores da esteva são muito melíferas e são muito atrativas para as borboletas, as abelhas e muitos outros insectos que as polinizam.

Além das suas qualidades ornamentais, também possui outras aplicações, nomeadamente ao nível medicinal. Os seus óleos essenciais são reconhecidos pelas suas propriedades adstringentes, hemostáticas, antivirais, anti-hemorrágicas, curativas, tonificantes, purificadoras e reparadoras, além de estimular as defesas do sistema imunitário, que têm aplicação na aromaterapia, no combate ao stress. 

Esteva. Foto: Alvesgaspar / Wiki Commons

Em tempos o ládano era usado em emplastros analgésicos, para tratamento de hérnias, reumatismo, úlceras e gastrites. Também já lhe foram atribuídas propriedades sedativas e foi usado em fitoterapia no tratamento de problemas do foro respiratório (tosse e bronquite).

O ládano e os óleos essenciais da esteva também são utilizados na perfumaria, entrando na composição de perfumes, sabonetes e detergentes, mas também em cosméticos e produtos para tratamentos de beleza, agindo como regenerador de tecidos, a fim de retardar o envelhecimento da pele.

As subespécies de Cistus ladanifer 

Em Portugal ocorrem duas subespécies. Uma é a Cistus ladanifer subsp. ladanifer, subespécie nativa que pode ser vista um pouco por todo o território nacional. Também surge no arquipélago da Madeira, onde foi introduzida. Surge habitualmente em zonas de matos xerófilos, no subcoberto de sobreirais, azinhais e em pinhais, em solos pobres e ácidos, derivados de xistos, granitos, arenitos e por vezes também em solos calcários descarbonatados. A subespécie ladanifer pode formar populações muito densas – os estevais – e possui uma elevada capacidade de colonizar áreas ardidas ou muito perturbadas. 

A outra subespécie presente é o Cistus ladanifer subsp. sulcatus. Endémica de Portugal Continental, encontra-se protegida com estatuto de proteção especial pela Directiva Habitats 92/43/CEE do Conselho, de 21 de Maio de 1992, relativa à preservação dos habitats naturais e de fauna e da flora selvagens. Mais difícil de encontrar, esta subespécie é mais comum no Litoral Sul, em zonas de arribas e matos costeiros, preferencialmente em solos arenosos sobre rocha calcária, mas também pode surgir em xistos.

Foto: Carsten Niehaus / Wiki Commons

O que distingue estas duas subespécies é, sobretudo, a cor das pétalas das flores e as nervuras das folhas. Os exemplares da subsp. ladanifer podem apresentar pétalas brancas ou com uma mácula púrpura na base de cada uma das pétalas e folhas com nervuras pouco visíveis na página superior. Já as flores da subsp. sulcatus são completamente brancas e as nervuras são bem visíveis na parte superior das folhas.

Outras Cistus nativas e em flor

Além desta espécie, são muitas as outras espécies do género Cistus que podemos ver agora em flor, como por exemplo a roselha-grande (Cistus albidus) que possui pétalas rosadas a púrpura e que pode ser encontrada um pouco por todo o território nacional, a roselha (Cistus crispus) de flores púrpura intenso, por vezes rosadas, e que é mais comum nas regiões do Centro e Sul, assim como o sargaço (Cistus monspeliensis), que possui flores de pétalas brancas. A estevinha (Cistus salviifolius) também possui flores brancas e já falámos dela anteriormente.

Aproveitem o sol e procurem estas plantas na natureza, admirem a profusão de cores e aromas, sem as colher nem cortar, preservando-as.


Dicionário informal do mundo vegetal: 

Pelos estrelados – Pelos  que irradiam de um centro, como os raios de uma estrela

Corola – Conjunto das pétalas, que protegem os órgãos reprodutores da planta (os estames e o pistilo)

Estame – órgão reprodutor masculino da flor, onde se produz o pólen, formado geralmente por filete e antera

Pistilo – Órgão reprodutor feminino da flor, formado por ovário e estigma e por vezes pode estilete

Cálice – Conjunto das peças florais de proteção externa da flor – sépalas, frequentemente verdes. 

Mácula – Mancha colorida, geralmente mais escura do que a parte restante. 


Todas as semanas, Carine Azevedo dá-lhe a conhecer uma nova planta para descobrir em Portugal. Encontre aqui os outros artigos desta autora.

Carine Azevedo é Mestre em Biodiversidade e Biotecnologia Vegetal, com Licenciatura em Engenharia dos Recursos Florestais. Faz consultoria na gestão de património vegetal ao nível da reabilitação, conservação e segurança de espécies vegetais e de avaliação fitossanitária e de risco. Dedica-se também à comunicação de ciência para partilhar os pormenores fantásticos da vida das plantas. 

Para acções de consultoria, pode contactá-la no mail carinea.azevedo@gmail.com. E pode segui-la também no Instagram.