Retrato de um voluntário pela natureza: Miguel Rodrigues

Miguel Rodrigues

Miguel Rodrigues, 48 anos, é professor com formação de base em biologia e está actualmente destacado no Centro de Ciência Viva, em Faro. A oferta de um guia de aves e um velho par de binóculos foram o princípio de uma paixão que dura até hoje.

WILDER: O que faz enquanto voluntário?

Miguel Rodrigues: No final de 2020, tive a oportunidade de começar a participar em quatro censos de aves da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA): Arenaria (aves das áreas costeiras no Inverno), NOCTUA (aves nocturnas no Inverno e Primavera), CANAN (aves de áreas agrícolas no Inverno), CAC (aves comuns nidificantes).

Nestes censos fazemos a identificação e contagem das aves, tanto pelas suas vocalizações como visualmente. Nalguns deles, também o habitat é registado. Consoante a metodologia de cada censo, isso implica deslocações de carro ou a pé, por vezes com paragens em pontos de escuta pré-definidos.

Pardal-comum (Passer domesticus). Foto: Miguel Rodrigues

W: Há quanto tempo é voluntário pela natureza e o que o levou a começar a participar?

Miguel Rodrigues: Se tomarmos o termo no sentido lato, sou voluntário pela natureza desde que me lembro. Comecei nos escuteiros, muito novo, sempre com vontade de fazer algo pela conservação. Mais tarde, nos Açores, participei nas contagens de cagarros e, em 2001/02, fui voluntário no centro de recuperação de aves de Esposende depois do acidente do Prestige.

Só mais recentemente voltei a envolver-me em contagens de aves, participando, com o apoio e a partir do Centro Ciência Viva do Algarve, em três dos quatro censos de águia-pesqueira do portal Aves de Portugal e, em 2020/21, nos censos da SPEA.

Porquê? Bem, há motivos altruístas e motivos egoístas. Faço-o para aprender, porque me ajuda a evoluir e me permite estar muitas horas no campo e novamente em contacto com o trabalho científico que os coordenadores e promotores destes trabalhos realizam.

Mas também o faço porque é necessário. Quando o Estado se demite destas obrigações (assumidas até com a União Europeia), fazem falta pessoas que tomem o trabalho em mãos (as associações e coordenadores dos programas) e nós, voluntários, apenas podemos corresponder a este esforço com algum contributo do nosso tempo e disponibilidade. 

Mocho-galego (Athene noctua). Foto: Miguel Rodrigues

Por outro lado, e quase contradizendo o que já referi, também é bom que sobre algum espaço nestes trabalhos para que a sociedade civil – associações e cidadãos –  participem activamente, não esperando que o Estado resolva tudo. É necessário encontrar um meio termo.

Esta é também uma forma de sermos cidadãos-cientistas, agora que a Ciência Cidadã está muito mais acessível.  É excepcional o  impacto que esta está a ter no volume de dados disponíveis para investigação, conservação e até gestão de áreas e espécies. Qualquer pessoa pode dar o seu contributo, escolhendo um tema que lhe interesse e um programa / acção que esteja ao seu nível de conhecimento.

Estes programas são realmente uma oportunidade de ajudar e de aprender. Ouvi algures uma frase com que me identifico. O seu sentido era mais ou menos este: as aves dão-nos muitos momentos de prazer e alegria; o mínimo que podemos fazer é retribuir com algum do nosso tempo e ajuda  para o seu estudo e conservação. Poderíamos extrapolar isto para toda a natureza.  

Carriça (Troglodytes troglodytes). Foto: Miguel Rodrigues

WILDER: Quais são os maiores desafios dos censos de aves em que participa?

Miguel Rodrigues: Contar bandos e identificar tudo o que ouço pelo som.

Contar grandes grupos de aves ainda é para mim um grande desafio. Mas há vários métodos para fazermos aproximações e estimativas muito boas, vou ter é que treinar mais.
E claro que não é suposto identificarmos tudo o que ouvimos! Esta metodologia aplica-se principalmente no NOCTUA – onde são poucas as espécies, o que torna as coisas mais fáceis – e no CAC.

O problema é que, agora que comecei a entrar no mundo das vocalizações das aves, e não só, a tendência é para querer saber as espécies de todos os sons que ouço. Mesmo quando são cantos e chamamentos de aves que conheço bem mas que, naquele momento, podem estar a “falar” de uma forma estranha ou simplesmente diferente.

São necessárias mais umas horas de treino. Mas é uma evolução constante e, para além de enriquecedor, é muito gratificante começarmos a tomar como familiar um som que inicialmente nos deu luta para conseguir identificar correctamente.

E agora é um vício. Estou em qualquer lado e, se ouço uma ave, já estou a tentar encaixar o som numa imagem.

Felosinha-comum (Phylloscopus collybita). Foto: Miguel Rodrigues

W: Quando começou o seu interesse pelas aves?

Miguel Rodrigues: Em 1997. Ofereceram-me um guia de aves a que eu, na altura e apesar de estar a tirar o curso de Biologia, não reconheci grande interesse. Estava mais virado para os mamíferos carnívoros e para o mundo subaquático. Mas tive a sorte de estar em Aveiro e o guia tinha uma lista com quadradinhos para marcar as espécies já observadas… e pronto, foi o princípio de uma paixão. Fui pedir uns binóculos emprestados, muito velhos, para ir para a Ria e para São Jacinto. Comecei como um “coleccionista”, a tentar identificar o máximo de espécies – o que ainda hoje mantenho, como muitos outros observadores.

Pintassilgo (Carduelis carduelis). Foto: Miguel Rodrigues

W: Porque considera as aves tão especiais?

Miguel Rodrigues: Acabei por descobrir que são seres excepcionais e extraordinariamente belos. Com o “coleccionismo” veio também a vontade de saber um pouco mais sobre estas espécies e de observar comportamentos interessantes – sair para o campo não só para juntar mais uma espécie à lista, mas também para aprender alguma coisa com elas.

Ao pensar na forma como cantam ou vocalizam, as dezenas de milhares de quilómetros que voam para se reproduzirem, as incríveis (às vezes inacreditáveis) adaptações que possuem à forma de vida que “escolheram”, é impossível não gostar delas.

No mínimo, as aves não deixam ninguém indiferente. E são como as plantas e os insectos – estão por todo o lado. Ao contrário de outros grupos, é sempre possível ver aves. Se não forem muitas e muito diversas, podemos sempre ficar a deliciar-nos com as plumagens e os comportamentos dos pardais ou dos melros ali, mesmo à nossa frente, na esplanada do café ou da janela de casa.

W: Como aprendeu a identificar estas espécies?

Miguel Rodrigues: Sozinho ou com muito pouca ajuda. O tal guia e os velhos binóculos, pouco depois substituídos por uns um pouco melhores, foram as ferramentas. Cometi muitos, muitos erros de identificação, claro. Mas esses erros foram algumas das lições mais duradouras. Houve muita frustração por não conseguir identificar algumas aves (ficar indeciso entre duas espécies é muito comum) ou por vir a perceber mais tarde que, afinal, não podia ser esta que registei e que agora já lá não está. Mas tudo isto faz parte do desafio que torna a observação de aves ainda mais atraente para mim.

Guincho (Chroicocephalus ridibundus). Foto: Miguel Rodrigues

W: O que tem aprendido e o que tem ganhado com esta experiência de voluntariado? 

Miguel Rodrigues: Fui tirar o pó às metodologias científicas do trabalho de campo. Claro que ninguém precisa de ser cientista ou investigador para fazer estes censos, muito pelo contrário. Mas os métodos usados, apesar de simples, exigem rigor e isto é fundamental em qualquer trabalho de cariz científico.

Aprendi ou treinei a identificação de muitas espécies, principalmente pelo som. Como referi, ajudou-me a evoluir muito rapidamente e ainda me proporcionou muitas horas no campo, que é onde gosto de estar.  O poder estar novamente em contacto com o trabalho científico foi um bónus.

Isto também nos dá uma sensação de estarmos a fazer algo útil para o conhecimento e conservação destas espécies. Isto para além de estarmos a ajudar num esforço colectivo de muita gente. Fazemos parte de um grupo de muitas pessoas envolvidas num único esforço: saber mais sobre as aves para as poder ajudar.

No entanto, com tantos programas de censos a decorrer e outros que seria muito importante desenvolver, o número de voluntários não é ainda suficiente. Fazem falta muitas mais pessoas para ajudar neste esforço. E aqui, aproveito para deixar o  convite a todas as pessoas que gostam e se preocupam com as aves: escolham um programa de monitorização / censo e contactem os respectivos coordenadores. Eles poderão ajudar a decidir quais os mais adequados para cada um e ajudam-nos com todas as dúvidas e até com a nossa insegurança inicial.

É um trabalho espectacular!

Garça-branca-pequena (Egretta garzetta). Foto: Miguel Rodrigues

W: Costuma participar nos censos sozinho, acompanhado ou em grupo? E porquê? 

Miguel Rodrigues: A maioria das vezes, sozinho. É mais uma questão de tempo e oportunidade, raramente é possível arranjar alguém com disponibilidade para me acompanhar. Por outro lado, comecei precisamente no ano dos confinamentos, o que também não ajuda. Mas a verdade é que o número de pessoas com vontade de participar  é inferior ao necessário, por isso rentabiliza-se muito mais o esforço de campo se cada um cobrir a(s) sua(s) quadrícula(s) de amostragem.


Agora é a sua vez.

Descubra aqui o que é necessário para participar nos censos de aves que estão actualmente a decorrer.


Conte as Aves que Contam Consigo

A série Conte as Aves que Contam Consigo insere-se no projeto “Ciência Cidadã – envolver voluntários na monitorização das populações de aves”, dinamizado pela SPEA em parceria com a Wilder – Rewilding your days e o Norwegian Institute for Nature Research (NINA) e financiado pelo Programa Cidadãos Ativos/Active Citizens Fund (EEAGrants), um fundo constituído por recursos públicos da Islândia, Liechtenstein e Noruega e gerido em Portugal pela Fundação Calouste Gulbenkian, em consórcio com a Fundação Bissaya Barreto.

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.