Foto: Bruno Silva Rodrigues

Que espécie é esta: aranha buraqueira-de alçapão-duplo

Naturalistas locais

O leitor Bruno Silva Rodrigues fotografou esta aranha na zona de Relíquias, Baixo Alentejo, em Dezembro de 2016 e quis saber a que espécie pertence. Sérgio Henriques responde.

 

Bruno Silva Rodrigues pergunta se este “estranho aracnídeo” será uma aranha Antrodiaetus pacificus.

 

 

Trata-se de uma aranha buraqueira-de alçapão-duplo (Ummidia algarve).

Espécie identificada e texto por: Sérgio Henriques, líder do grupo de especialistas em aranhas e escorpiões da UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza) e especialista da Sociedade Zoológica de Londres.

Em Portugal não temos nenhuma espécie da família Antrodiaetidae, que apenas ocorre na América e no Japão. Logo, não poderia ser Antrodiaetus. Mas percebo porque é que a espécie pode parecer similar.

Este é um macho de Ummidia algarve, membro da família Halonoproctidae. Esta é uma espécie que só está registada para o nosso país.

Apesar de serem famílias tão diferentes quanto cães e gatos (na verdade, a separação entre canídeos e felídeos é mais recente), as duas famílias de aranhas têm hábitos mais ou menos semelhantes. São ambas aranhas buraqueiras, que vivem em tocas com tampa.

Além de construir um alçapão na sua toca, o que torna bastante difícil encontrar esta espécie na natureza, a aranha buraqueira-de alçapão-duplo tem um abdómen truncado (achatado com textura semelhante a solo), o que se denomina de fragmose.

Várias formigas também têm cabeças assim para um propósito semelhante.

Uma das aranhas mais “famosas” com esta estatégia são as Cycloscomia.

Esta estratégia de defesa permite que um predador que consiga encontrar a tampa, e que consiga forçar a sua entrada (a aranha agarra a tampa com força se alguém, ou algo, a tentar abrir), na escuridão do fundo da toca irá encontrar o que parece ser o fundo vazio, mas que na verdade pode ser o rabo da aranha a imitar solo.

Se mesmo assim o predador não se deixar enganar, a aranha tem ainda uma última estratégia: projectar as suas fezes contra o seu agressor. Estas podem ser projectadas dezenas de vezes mais longe que o tamanho da própria aranha.

Embora este comportamento tenha sido registado nos anos 30 ou até antes, e seja bem conhecido dos aracnológos, nunca se descobriu se o líquido projectado é mesmo fezes ou o produto de alguma glândula própria para o efeito.

O que eu sei é que uma vez arranjei uma daquelas fitas que medem o ph de líquidos e o que é projectado é altamente ácido, mas nunca se estudou ou se fez algo com este grupo ou com esta informação.

Aranhas são tão pouco estudadas em Portugal que esta espécie, Ummidia algarve, só foi descrita em 2010 por um amador belga. Se não fosse por ele ainda hoje a espécie nem teria nome.

 

Agora é a sua vez.

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