Aves, insectos, mamíferos, líquenes: cientistas e cidadãos reúnem-se na antiga Estação Agronómica Nacional, em Oeiras, e identificam, num dia, um total de 123 espécies. O que leva estas pessoas a participar num BioBlitz, num sábado soalheiro mas frio?

 

Um pardal pia. O ornitólogo Luís Gordinho escuta um tentilhão, um pintassilgo e um lugre, ou pintassilgo-verde. “O que é isto?”, pergunta Tiago Ferreira, co-fundador do BioDiversity4All. “Um chapim-carvoeiro”, responde Luís sem hesitar. A audição é o primeiro sentido ativado. Binóculos, smartphone, câmara reflex e várias camadas de roupa compõem o equipamento de quem veio a este BioBlitz, na antiga Estação Agronómica Nacional, em Oeiras.

 

 

O Sol brilha nesta manhã de Inverno. Às 09h00, com 11º C e sem vento, organizadores, investigadores, voluntários e participantes formam um círculo no pátio da Adega Casal da Manteiga. O BioBlitz “é uma actividade de ciência cidadã, que junta cientistas e cidadãos para tentar registar o máximo de espécies possível neste local, para avaliar a biodiversidade”, explica Tiago Ferreira. O registo faz-se com a app para smartphone iNaturalist, que permite identificar os organismos através de uma foto.

Vinha de um lado, olival do outro, desce-se pelo alcatrão. Luís avista um rabirruivo. “Está na direção daqueles postes, está muito longe”. Entram em acção os binóculos. “E este, o que é?”. Identifica-se uma rola-turca e uma alvéola. “É a branca, Motacilla alba”, assevera Cristina Vieira, 54 anos, bióloga, que também alerta “Viatura! Viatura!” sempre que um automóvel se aproxima. “Isto é um pisco a cantar, muito melancólico, com vibratos incríveis”, indica entretanto Luís.

 

O contacto com a Natureza

Ricardo Duarte, 38 anos, de Massamá, é um dos participantes que não tem ligação à Biologia. Empregado de limpezas e voluntário nesta acção, interessou-se pelo caráter pro bono do projeto após participar num BioBlitz no Jamor. Jorge Freitas, 52 anos, é jurista – e aponta “um bando de passarinhos” aos filhos gémeos de cinco anos, Pedro e Filipe.

 

 

“Eles andam aqui na escola dentro da quinta”, explica a mãe, Nélia Cid, 45 anos, também jurista. Foi lá que viram o cartaz deste BioBlitz. Nem sabiam o que era a ciência cidadã mas as crianças gostam de caminhar e são muito curiosas. “É bom cultivar o amor pela Natureza e pelo conhecimento nesta idade”, conclui Nélia.

Apesar de haver Internet grátis para todos e prémios para quem registar mais espécies, a maioria dos cidadãos não está a utilizar a app. “Hoje não estou a ver muita gente a registar…”, nota Sara Almeida, da Câmara Municipal de Oeiras (CMO), que coorganiza o BioBlitz. O grupo prefere passear, usando os binóculos, fotografando, ouvindo o guia e fazendo perguntas. “Tirei o sábado para comparar o que há em Oeiras com o que existe no Jardim Botânico Tropical [JBT], em Lisboa”, conta Paulo Gaspar, 46 anos, jardineiro do JBT.

 

A cópula das vespas

No trajeto conduzido pelo entomólogo Albano Soares, do Tagis – Centro de Conservação das Borboletas de Portugal, as estrelas são inesperadas. São 11h15 e o termómetro marca 14º C. Uma borboleta é apanhada com uma rede entomológica. Albano mostra vários espécimes em pequenos frascos, como uma borboleta almirante-vermelho (Vanessa atalanta), uma borboleta-grande-das-couves – que pode ser um pesadelo para a agricultura, já que as larvas se alimentam de várias culturas – e um pequeno coleóptero, um estafilinídeo.

 

 

E qual não é o espanto de Albano Soares quando descobre, no meio das folhas, duas vespas da espécie Vespula germanica a acasalar. A fêmea é uma futura rainha. “Estamos perante realeza”, comenta Albano. É uma experiência inédita: nunca vira estes insectos a copular.

Instantes depois, mais um acasalamento é detetado, por Cristina Rocha, 47 anos, jardineira. São gafanhotos-copuladores.

 

 

Mamíferos longe da vista

A chegada de Paula Gonçalves, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), anuncia o percurso dos mamíferos. A investigadora explica como se estuda “estes bichos chatos e esquisitos que não gostam de se mostrar”. Exibe uma armadilha fotográfica para micromamíferos e uma armadilha de Sherman. “Para os carnívoros, são precisas armadilhas maiores.”

Na Estação Agronómica há micromamíferos, coelhos, genetas, fuinhas, saca-rabos, ouriços-cacheiros e, aposta Paula, lontras. Gera-se o entusiasmo na audiência. O único entrave será o facto de a ribeira estar emparedada, impedindo a lontra de ocupar as margens. E como a melhor forma de ver mamíferos é à noite, resta aos entusiastas procurar indícios de presença, como pegadas e dejectos.

 

 

Surgem algumas nuvens e aproxima-se a hora de almoço – um coffee break oferecido pela organização, uma estreia nestes BioBlitzes. Paula Gonçalves aproveita uma pegada de cão para explicar as diferenças face a uma pegada de raposa, que desenha no solo húmido. O grupo regressa à base, de novo pelo alcatrão.

 

O inesperado encanto dos líquenes

Desta vez, e após o retemperador coffee break, os participantes vão ao encontro de Paula Matos. A bióloga da FCUL explica que os líquenes são uma simbiose entre um fungo e uma alga ou uma cianobactéria, acreditando-se hoje que existe um terceiro parceiro, como uma levedura. Os líquenes absorvem o que vem da atmosfera e são muito sensíveis e resistentes. Atuando como sensores da qualidade do ar, servem de indicadores de alterações climáticas.

Quatro perdizes são avistadas por Diogo Oliveira, 31 anos, de Lisboa. O biólogo e fotógrafo de vida selvagem colabora com frequência com a CMO, e vem dar uma ajuda porque percebe um pouco de tudo. Paula Matos chama a atenção para o Pertusaria pertusa e o Xanthoria parietina (líquen-dos-telhados), e surgem umas pequenas lupas, cruciais para observar devidamente a maioria dos líquenes.

 

 

A ampliação mostra que os líquenes são folhosos – parecem algas. A bióloga refere que há duas espécies tão idênticas, que o mais simples para distingui-las é… prová-las. E eis que o sentido mais improvável é activado: o paladar. “Distinguem-se pelo sabor, por isso, no campo, provo-os.”

Paula Matos nota que muitos líquenes são usados em antibióticos, o que impressiona ainda mais vários participantes.

Pelas 15h40, o grupo aventura-se por um trilho pouco exposto ao sol, já mais fraco. Patrícia Tiago, bióloga e co-fundadora do BioDiversity4All, tem as mãos geladas, mas continua a registar.

 

Motivar para o futuro

O dia que começa de binóculos termina com lupas. Ao fim de 10 quilómetros, regressa-se à Adega Casal da Manteiga. Os cidadãos que não desistiram estão satisfeitos e nem acusam grande cansaço.

Patrícia Tiago faz um balanço positivo: 223 observações, 123 espécies identificadas e o contacto entre cidadãos e cientistas. Mas assinala: “A ideia era que vocês registassem; essa parte não correu tão bem”. Mesmo assim, os prémios são entregues, na esperança de motivar os participantes a repetir a experiência e a registar de forma autónoma.

 

 

“Isto é fabuloso. Acho que têm de continuar, para as pessoas e para a investigação”, observa Paulo Gaspar, um dos premiados. “Os portugueses precisam deste conhecimento, as pessoas têm de ir para o campo, falar com quem sabe. Este contacto é essencial”, frisa o jardineiro do JBT.

Missão cumprida: aprendizagem e contacto com a Natureza. A despedida não é um adeus, é um até já: até ao próximo BioBlitz.

 

Saiba mais

Para conhecer melhor esta plataforma de ciência cidadã e o calendário de futuros BioBlitzes, visite BioDiversity4All e CMO.