Foto: António Heitor

O que determina a “aventura” de ultrapassar o estreito em Gibraltar?

Naturalistas locais

António Heitor, correspondente da Wilder, sempre quis perceber como é que as grandes aves planadoras atravessam vastas massas de água durante as migrações. Depois de algumas interrogações e muita pesquisa, mostra-nos o que aprendeu.

 

Sempre que tenho vejo as grandes aves “planadoras” a irem em direcção a Sul, no sentido das suas áreas de invernada, não posso deixar de pensar na enorme epopeia que têm pela frente e pergunto-me sempre: “Como o fazem e como é que tomam decisões?”

As migrações das aves, a forma como escolhem as rotas e as datas para tamanhas façanhas fazem parte desde sempre da busca contínua de todos os apaixonados por estes animais. É de facto um feito admirável.

Sabemos hoje que as essas rotas são em grande medida determinadas por “barreiras naturais”, como montanhas, desertos, oceanos e rios, e por “barreiras humanas” que condicionam essas grandes viagens.

Entre estes desafios há um que me intriga mais do que os outros: a travessia de grandes massas de água. Como o fazem e como sabem onde é mais fácil a passagem? Como ultrapassam a dificuldade de ter pela frente uma barreira possivelmente mortal? Como evitam perder-se? Como gerem o esforço e asseguram a energia necessária para fazer toda a travessia? Como sabem que os ventos estão favoráveis?

 

Grifo. Foto: António Heitor

 

Sabemos hoje a importância dos locais de descanso nas imediações dos pontos de travessia. É o caso de Gibraltar, no sul da Península Ibérica, que representa a passagem mais curta para o continente africano e um dos locais mais importantes na vida “global” das nossas aves migradoras. Mas a barreira continua presente… Cerca de 15 quilómetros de mar se escolhermos o local ideal, pois de contrário podem ser mais.

São comuns os registos de aves que aparecem mortas no mar ou que aproveitam a “boleia” dos navios para o descanso e o retomar das forças. Ou seja, a escolha do local e da hora não pode ser apenas obra do acaso, pois não é uma travessia isenta de perigos, mesmo neste local mais “estreito”.

No caso destas grandes aves – não que a façanha dos pequenos passeriformes seja de menor importância – há ainda um aspecto que me deixa mais curioso. Fazem-no em voo activo, batendo as asas, ou em voo planado tirando partido das correntes térmicas? Mas estas correntes ascendentes não são tão frequentes em zona de “mar aberto”.

Assim, estas aves têm duas estratégias possíveis quando não conseguem contornar essa massa de água: ou conseguem fazer a viagem alternando o voo activo batendo as asas com voo planado; ou usam quase exclusivamente o voo planado.

Devido às suas caraterísticas, diferentes espécies “optam” por uma dessas abordagens. Os falcões e as pequenas rapinas conseguem alternar o voo activo com o voo planado, poupando assim energia, o que lhes possibilita travessias de várias centenas de quilómetros.

Já as grandes rapinas, como abutres e águias, vêm-se confinadas à utilização preferencial de voo planado, não tendo capacidade para grandes distâncias a voar activamente batendo as asas. Na maioria dos casos, o limite destas aves situa-se nalgumas dezenas de quilómetros e muito condicionado por “ventos de cauda”.

 

Macho de águia-sapeira. Foto: António Heitor

 

Assim, são estas últimas que após longas viagens costeiras, tendem a concentrar-se nos locais mais estreitos como Gibraltar. Mas depois como decidem a “melhor hora”? Como sabem se existem os tais ventos que as ajudarão na travessia?

Sabemos hoje que a escolha não é tão simples e que muitas tentativas são “abortadas a meio” e as aves regressam à base quando se apercebem de que não irão ser capazes. Mas continuam as minhas dúvidas sobre o momento da decisão.

 

Como fazem os milhafres-pretos

Num trabalho recente publicado na Journal of Animal Ecology, algumas dessas minhas perguntas foram respondidas. Estudando milhafre-pretos em Gibraltar, os autores descobriram que a eficiência e desempenho da travessia dependem da idade da ave, das condições do vento, da altitude do ponto de partida e da distância a Marrocos.

 

Milhafre-preto. Foto: António Heitor

 

Em concreto verificaram que as aves mais jovens, quando comparadas com as adultas, tendem a fazer travessias mais longas, voando a altitudes mais próximas do nível do mar.

Verificaram a importância dos ventos cruzados, que resultam em travessias mais longas, com voos a altitudes mais baixas e com maior esforço de “voo activo”, ou seja, batendo mais as asas e consumindo mais energia. As aves observadas tenderam a iniciar as suas tentativas nos dias seguintes à queda dos “ventos do Levante”, ventos fortes oriundos do Norte de África, cruzados, que sopram de Este ou Sudoeste.

Já aquelas que não esperaram e completaram a travessia durante o Levante, acabaram por ir parar à costa marroquina a oeste de Tânger (arrastadas pelo vento).

Quando as aves iniciam a viagem a altitudes mais baixas têm maior probabilidade de desistir da travessia, voltando para trás, ou para completá-la realizam um maior esforço de bater as asas. Foram monitorizados 73 milhafres-pretos, tendo sido registadas 62 travessias bem sucedidas, mas foram também observadas 40 tentativas falhadas, em que as aves voltavam para trás depois de ter voado mais de 500 metros “mar adentro”.

A escolha do local de início da travessia tem influência na sua distância e duração não só devido à sua altitude, mas também devido às diferentes dinâmicas dos ventos e do mar. Estes resultados permitem perceber a razão pela qual as aves planadoras migradoras se concentram em determinados locais de passagem durante condições climatéricas adversas.

Provavelmente perante condições de vento e de mar mais agitados, as aves vão voando junto à costa, talvez percebendo a dificuldade da travessia, como se procurassem por um local mais apropriado a essas condições, mas isto já é uma interpretação minha.

Os ventos cruzados forçam as aves a um voo activo a altitudes mais baixas, o que aumenta o risco de caírem na água. As aves mais jovens assumem mais riscos que os adultos.

 

Juvenil de águia-de-Bonelli. Foto: António Heitor

 

Por último, o sucesso e a forma como é realizada a travessia estão muito dependentes da forma como a viagem é iniciada, particularmente a altitude inicial, que determina a distância que as aves conseguem atingir com um reduzido esforço de batimento das asas.

Ou seja, nunca é uma decisão fácil, tal como eu já esperava. Por certo que a experiência será um bom conselheiro,  por isso as aves adultas acabam por correr menos riscos e muitas vezes preferem não começar a travessia, ficando à espera no local ou indo à procura de melhores condições.

Ou seja, é de facto admirável a forma como todas as aves fazem estas viagens impressionantes, sem mapas, sem GPS, sem previsões meteorológicas. Da próxima vez que vir estes grandes “planadores” em direcção a Sul, irei admirá-los ainda mais.

 


Bibliografia: Santos CD, Silva JP, Muñoz A-R, Onrubia A, Wikelski M. The gateway to Africa: What determines sea crossing performance of a migratory soaring bird at the Strait of Gibraltar? J Anim Ecol. 2020;00:1–12.