A nossa casa pode ser também a casa para inúmeras espécies selvagens de fauna e flora. É isso que acontece no tanque do ecólogo Jael Palhas. Ali viu a primeira flor de nenúfar-amarelo do ano, espécie que está a desaparecer do Mondego e de outras regiões do país.

 

Na Figueira da Foz há uma casa com um tanque feito para ser um refúgio de biodiversidade. Pertence a Jael Palhas, investigador do Centro de Ecologia Funcional (CEF) da Universidade de Coimbra que se dedica à conservação de plantas aquáticas em perigo.

“O meu tanque é circular, com cerca dois metros de diâmetro e 50 centímetros de profundidade e foi feito há vários anos a partir de uma manilha que sobrou da construção de um poço”, explicou Jael Palhas à Wilder.

Em 2013, quando trabalhava no projecto Charcos com Vida, Jael encheu o tanque, colocou plantas aquáticas e uma rampa de pedras por dentro e por fora para permitir a entrada e saída de anfíbios.

“À medida que fui percebendo mais de vegetação aquática, fui completando a colecção com mais espécies e com espécies com mais interesse para a conservação.”

 

Pormenor do tanque. Foto: Jael Palhas

 

A natureza só precisa de um empurrão e hoje a lista das plantas e animais que vivem no tanque de Jael Palhas é demasiado extensa para enumerar todas. Este tanque “não foi feito com grandes preocupações estéticas e nunca tive a disponibilidade desejada para o melhorar… Mas ainda assim, a Natureza fez a sua parte e vai estando cada vez mais bonito.”

Neste momento, reproduzem-se no tanque cinco espécies de anfíbios que o colonizaram naturalmente.

“Os primeiros a descobrir o tanque, contra as minhas expectativas, foram as rãs-de-focinho-pontiagudo (Discoglossus galganoi) e depois chegaram os tritões-de-ventre-laranja (Lissotriton boscai). Este ano começaram a reproduzir-se os tritões-pigmeus (Triturus pygmaeus) e vi pela primeira vez larvas de Salamandra (Salamandra salamandra) no tanque depois de este ano ter melhorado os acessos para permitir entrada e saída de anfíbios. Os sapos (Bufo spinosus) andam lá à volta, mas ainda não os vi reproduzirem-se lá.”

Além destes e de outros animais, o tanque tem “uma grande lista de plantas aquáticas”. Nas margens crescem lírios-amarelos, juncos, miosótis, salgueirinhas, mentas-aquáticas, poejos, ranúnculos e rabaças. Jael Palhas enumera também a “abundante vegetação submersa”, com “várias espécies do género Potamogeton, Groenlandia densa, com a fascinante carnívora subaquática Utricularia australis e os três géneros de nenúfares nativos Nuphar, Nymphaea e Nymphoides (embora o Nymphoides peltata não seja um verdadeiro nenúfar)”.

Entre esta riqueza natural, destaca-se a primeira flor de nenúfar-amarelo (Nuphar luteum) do ano.

 

Nenúfar-amarelo. Foto: Jael Palhas

 

“A primeira flor de nenúfar-amarelo no tanque de minha casa abriu no início de Abril. O botão floral já estava formado há pelo menos duas semanas, ainda submerso. Neste momento, a primeira flor já está a mergulhar e vem outro botão floral a caminho da superfície.”

 

Uma espécie em declínio

O nenúfar-amarelo é o maior nenúfar da nossa flora. Além deste, Portugal tem apenas mais uma espécie de nenúfar, o nenúfar-branco (Nymphae alba). Depois ocorrem no nosso país o nenúfar-anão, ou golfo-menor (Nymphoides peltata), que não é um verdadeiro nenúfar, e nenúfares exóticos e híbridos cultivados que se estão a espalhar na natureza, como é o caso do invasor nenúfar-mexicano (Nymphaea mexicana). Estes exóticos, com flores maiores, podem entrar em competição com os nenúfares autóctones.

Mas estes nenúfares exóticos não entram no tanque de Jael Palhas. Ali, o “rei” é o nenúfar-amarelo.

“Contrariamente aos outros, o nenúfar-amarelo pode manter folhas flutuantes durante todo o inverno no nosso clima e dar flores de Março a Outubro”, explica Jael Palhas.

 

Nenúfar-amarelo. Foto: Jael Palhas

 

“É uma espécie enraízada no fundo, com folhas flutuantes e flores que emergem acima da água cerca de 30 centímetros”, acrescenta. “Reproduz-se tanto vegetativamente por fragmentação dos rizomas, como por semente. Os seus frutos em forma de pêra podem flutuar e ser levados pela água, ajudando a dispersar as muitas sementes que contêm, embora a maioria acabe por nunca encontrar condições para germinar.”

Jael Palhas tem duas plantas de nenúfar-amarelo no seu tanque. São “dois clones da única planta desta espécie que resta no rio Mondego”.

Esta espécie tem uma grande distribuição em toda a Europa e, portanto, não está ameaçada de extinção globalmente. Mas, apesar de ainda não ter sido avaliado o seu estatuto de conservação em Portugal, parece haver uma tendência de declínio em várias regiões do nosso país, salienta o ecólogo.

O nenúfar-amarelo já desapareceu de várias zonas húmidas onde existiu no passado, nomeadamente no Mondego. Neste rio “actualmente é apenas conhecido um exemplar em Montemor-o-velho e um outro núcleo no Rio Anços, um dos afluentes esquerdos do Mondego”, alerta Jael Palhas.

No ano passado, a equipa do Instituto Politécnico de Coimbra/CFE criou o Charcas de Noé, um projecto do Fundo Ambiental para salvar plantas aquáticas Raras e ameaçadas na região. O nenúfar-amarelo foi uma das espécies-alvo.

“Além de se terem reforçado os esforços de mapeamento desta espécie e de um conjunto grande de outras espécies, foram feitas algumas acções de conservação no terreno”, explica o perito. “Foram colhidos propágulos para conservação ex-situ, foram recuperados alguns charcos ornamentais visitáveis onde no futuro será possível o público observar algumas destas espécies raras e aprender mais sobre elas.”

Além disso, foram recolhidos alguns fragmentos de rizoma que estavam soltos a flutuar nas águas, com o objectivo de conservar a espécie ex-situ, propagar e reintroduzi-la nos paúis do Baixo Mondego. Isto porque, conta Jael Palhas, “no ano passado, o único exemplar desta espécie no vale do Mondego ficou ameaçado pela presença de jacintos-de-água (espécie exótica invasora)”.

Foram, então, organizadas duas acções de voluntariado em kayak para “remoção dos jacintos-de-água e aproveitou-se para, com autorização do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) se recolher alguns fragmentos de rizoma”.

Os três rizomas colhidos foram cultivados e foram enviados propágulos para o Jardim Botânico do Porto, para o Parque de Serralves e para o Charco do Centro Ciência Viva da Floresta, em Proença a Nova. Este ano será colocado um na Escola Superior Agrária de Coimbra, um no Paúl de Arzila, um no Paúl do Taipal e um num charco público na Figueira da Foz. “Um dos que está no meu tanque (em isolamento) será destinado a este ultimo charco.”

 

Observar a natureza de perto

Ter um tanque ou um charco dá-nos a oportunidade de ver a natureza de perto, ainda que sejam precisos alguns cuidados.

“O cuidado maior que tenho é a limpeza, retirando as folhas mortas, as algas ou o excesso de plantas que sejam mais dominantes, de forma a permitir que se mantenham algumas das espécies mais sensíveis”, explica Jael Palhas.

 

Salamandra salamandra. Foto: Ryzhkov Sergey/WikiCommons

 

“Tenho também o cuidado de não introduzir nenhuma planta sem a lavar e desinfectar para evitar introduzir acidentalmente alguma espécie invasora ou indesejável e especialmente tenho o cuidado de não colocar peixes no tanque, que comeriam as plantas e animais mais sensíveis que lá tenho.”

“Como o nenúfar-amarelo ocupa bastante espaço (é o maior nenúfar da nossa flora) e no Inverno ficou apenas com folhas submersas, tive o cuidado de libertar algum espaço à sua volta, eliminando alguns exemplares das plantas mais comuns para ganhar espaço e luz.”

Mas todo o trabalho compensa e em dobro.

“Um pequeno charco ou tanque é uma das formas mais fáceis e baratas de atrair biodiversidade para um quintal, horta ou até varanda!”, diz Jael Palhas.

“Além disso, permite-me manter e propagar algumas espécies nativas e observá-las de perto.”

Uma das coisas que Jael Palhas mais gosta de presenciar no seu tanque é a “reprodução dos anfíbios, especialmente a dos tritões. Observar as danças nupciais dos tritões e as fêmeas a porem os ovos na vegetação submersa é um espectáculo fascinante!”

Outra coisa que o fascina “é observar os ciclos anuais das espécies”. “Ao longo do ano há espécies que se desenvolvem em épocas diferentes, fazendo com que algumas desapareçam parte do ano e seja sempre uma boa surpresa voltar a vê-las no ano seguinte, especialmente quando são espécies raras, que estou a tentar salvar.”

 

Agora é a sua vez.

A nossa casa pode ser um lugar de biodiversidade. Se tem alguma espécie selvagem que encontra abrigo ou alimento na sua casa, conte-nos o seu testemunho e a sua história enviando um email para geral@wilder.pt.