Fotos: Feel4Planet

Quatro jovens de Setúbal estão a limpar praias de beatas de cigarro

Naturalistas locais

Márcia, Mafalda, Vânia e Carolina, com 24 e 25 anos de idade, querem um ambiente melhor para Setúbal e criaram o grupo Feel4Planet. Desde Abril, as suas acções de limpeza já retiraram das praias  cerca de 32.500 beatas de cigarro.

 

A última acção da Feel4Planet, grupo que pretende reduzir o impacte ambiental gerado pela elevada produção de resíduos, aconteceu a 24 de Setembro na Praia Figueirinha, em Setúbal. Munidos com camaroeiros, sacos reutilizáveis e luvas, 21 voluntários recolheram, em cerca de hora e meia, quase 5.000 beatas de cigarro, 344 cotonetes, palhinhas e pequenos pedaços de plástico.

Em cinco acções da Campanha #STBSEMPONTAS já foram recolhidas 32.493 beatas de cigarro, o equivalente a mais de 1.624 maços de tabaco.

 

 

“As beatas de cigarro, e ao contrário do que a maioria da população pensa, são constituídas por fibras de plástico, constituindo o principal lixo marinho encontrado nas praias”, explicou à Wilder Vânia Silva, 24 anos e uma das fundadoras do grupo, com formação na área de Ciência Política e Relações Internacionais.

Um dos objectivos da campanha é evitar que as beatas cheguem ao mar e aos rios, “já que não são biodegradáveis. Levam entre sete e 12 anos a degradar-se, mas nunca totalmente, transformando-se em microplásticos. São responsáveis pela libertação de cerca de 4.700 substâncias nocivas para o ambiente”.

O problema dos microplásticos é um dos alvos do Feel4Planet. “Existem estudos científicos que comprovam a sua ingestão por parte de algumas espécies de zooplâncton e, com uma média de 7.000 beatas atiradas para o chão em Portugal, torna-se imperativo alertar para este problema.”

 

 

“É importante que as pessoas compreendam que existe um ciclo: a beata vai para o chão, acabará eventualmente no mar onde se irá degradar, e esses compostos irão entrar na nossa vida de alguma forma. E isto apenas no caso dos oceanos, porque relativamente às que ficam em terra temos outros problemas como a ingestão das mesmas por crianças e animais de estimação que frequentam parques e praias.”

A próxima acção já tem data. A 30 de Setembro, a Feel4Planet associa-se ao Clube da Arrábida na realização da 7ª recolha voluntária anual de lixo nas praias, matas, falésias e acessos do Portinho da Arrábida, Creiro, Alpertuche, Coelhos e Galapinhos. A atividade terá inicio às 09h00 e deverá terminar às 13h00.

A Feel4Planet, organização independente e informal, foi fundada por quatro jovens do distrito de Setúbal, todas com 24 e 25 anos de idade e de várias áreas de estudo – Educação Básica e Ensino Especial (Márcia Batista, Barreiro), Gestão e Administração Pública (Mafalda Custódio, Palmela), Ciência Política e Relações Internacionais (Vânia Silva, Setúbal) e Biologia (Carolina Nunes, Setúbal).

A sua primeira recolha de beatas aconteceu a 10 de Maio, reunindo 30 voluntários que, em apenas 15 minutos, recolheram 4.212 beatas de cigarro abandonadas na zona ribeirinha da Praia da Saúde, em Setúbal. As campanhas seguintes decorreram a 14 de maio no campo de futebol do União Futebol Comércio Indústria de Setúbal, a 20 de maio nas Praias de Albarquel e da Rainha, e a 4 de junho novamente na Praia da Saúde, Jardim da Beira Mar e Avenida Luísa Todi.

 

 

“Infelizmente não nos foi possível realizar uma ação por mês durante o Verão, mas o nosso objetivo futuro será realizar, pelo menos, uma ação mensal, incidindo não só na limpeza mas também na sensibilização da população”, contou Vânia Silva. Além disso, querem ajudar a cuidar de outras zonas que não as praias. “Temos uma estratégia integrada de limpeza urbana em jardins e outros espaços, não se focando apenas nas praias e na serra, já que este é um problema transversal a todos os espaços.”

Desde Abril, este grupo organizou acções de sensibilização do público em geral. “A educação ambiental e a responsabilidade social são os pilares da organização. Através destes procuramos despertar o interesse para a proteção do ambiente, incluindo praias, zonas verdes e o centro histórico da cidade.”

De acordo com Vânia Silva, o que as motiva para recuperar e conservar a natureza “é o futuro. Sendo de várias áreas do conhecimento temos uma visão alargada dos problemas inerentes à poluição e à quantidade desmesurada de resíduos produzidos pelo ser humano e que acabam por prejudicar todo o ecossistema”. Estas quatro jovens querem “que todas as gerações tomem real conhecimento deste tipo de problemas que irão afectar o futuro das próximas gerações, consciencializando e apresentando soluções para esses mesmos problemas. Acreditamos que apenas se pode cuidar do que se conhece, por isso pretendemos que as pessoas se voltem novamente para a Natureza, para o que existe à sua volta, apreciando e criando a empatia que temos, por exemplo, com os nossos animais de estimação. Temos apenas um planeta, como não cuidar dele?”