Fotos: António Heitor

Quatro razões para nos entusiasmarmos com a observação de gaivotas

Naturalistas locais

O correspondente da Wilder, António Heitor, decidiu tornar-se melhor a identificar as cerca de 20 espécies de gaivotas de Portugal. O que ficou a saber depois de meses de observação atenta pode ajudar-nos a conhecer melhor estas aves incríveis.

 

A imagem pública das gaivotas não é propriamente a melhor. Mas as gaivotas são, provavelmente, um dos grupos de aves mais admiráveis. Merecem o nosso respeito pela sua capacidade de adaptação, pela sua resistência, pelo seu “faro oportunista” e por serem predadores por excelência. Em resumo têm todas as qualidades de um verdadeiro “pirata”.

 

 

São também um grupo de aves muito bem adaptado às nossas construções e rotinas. Por essa razão coabitam nas nossas cidades, sempre a procurar algo esquecido por nós.

Por ser um grupo complicado de identificar confesso que nunca lhes prestei muita atenção. Colmatar essa falha era um objectivo a ultrapassar e assim tenho dedicado uma atenção redobrada a estas aves nos últimos tempos. Dou especial atenção às diferenças entre espécies (mesmo entre subespécies) e às diferenças de idades.

 

 

Podem ser encontradas em Portugal cerca de 20 espécies, embora algumas delas sejam bastante raras (com menos de uma mão cheia de registos). Outras são relativamente comuns e algumas delas podem ser encontradas de Norte a Sul do país.

De uma forma prática podemos dividir as gaivotas em dois grandes grupos: umas de cabeça branca e maiores, outras de cabeça preta e mais pequenas.

 

 

No geral, a plumagem destas aves é muito semelhante e com uma gama de cores que usa essencialmente o branco, o preto e o cinzento. O que pode dificultar a sua identificação. Já a variação de tamanho é substancial e vai desde o grande gaivotão-real até à minúscula gaivota-pequena.

 

 

Sendo aves essencialmente marinhas, os melhores locais para as observar situam-se junto à costa, em especial praias e portos. Nesses locais podemos encontrar bandos com centenas de indivíduos. Contudo, algumas espécies aventuram-se bem para o interior tirando partido da sua capacidade de adaptação e do seu elevado sentido de oportunidade.

Relativamente à época do ano, o Outono/Inverno será a melhor altura para as procurar sendo que existem populações residentes, que normalmente nidificam em colónias em locais de difícil acesso. O Inverno dá-nos excelentes oportunidades para ver gaivotas mais de perto e podermos comprovar algumas das suas qualidades.

Mas todas estas características são partilhadas com outros grupos de aves e como tal não constituem facto de grande excepcionalidade. Este carácter mais extraordinário revela-se quando conseguimos olhar com mais pormenor para a vida destas aves e para a forma como conseguem tirar proveito de algumas situações mais extremas.

 

O seu espírito curioso:

Apesar de serem aves como “poucas tonalidades” por vezes encontram-se algumas gaivotas com cores mais garridas, que resultam, por certo, da sua curiosidade inata. Ou seja, estas aves “enfiam a cabeça” em todo o lado e como já aprenderam que o nosso lixo tem algumas preciosidades, procuram alimento em sacos e caixas. Muitas vezes acabam por ficar marcadas com a prova do crime.

 

 

A tenacidade e ferocidade que demonstram na procura por alimento, soltando o seu lado predador:

Sempre que se juntam gaivotas, o silêncio acaba por ser interrompido pela “algazarra” que estas aves fazem por quase tudo e por nada. Até mesmo um bocado de madeira ou esferovite pode gerar confusão. Estas brincadeiras são a preparação para a actividade que se segue.

 

 

Mas mais comum é a gritaria resultar de perseguições ferozes à volta de alimento, sendo que nem sempre os envolvidos serão gaivotas. Nos terrenos agrícolas junto a zonas estuarinas, as gaivotas perseguem os bandos de íbis-pretas e de outras aves limícolas. Sempre que um íbis ou uma garça apanha um lagostim, uma minhoca ou um sapo, ou a refeição é ingerida logo, ou as gaivotas fazem de tudo para que o “predador” largue a sua refeição.

Contudo confesso que assistir às batalhas aéreas entre gaivotas é sempre um momento admirável em que o vencedor só fica decidido após longas perseguições, bicadas nas asas e cauda.

 

 

Por vezes o vencedor exibe o prémio de forma “fanfarrona” e como tal recebe o tratamento adequado, ou seja, mais uma perseguição e a eventualidade de perder o ser prémio.

 

 

A atenção dada aos pormenores e aos hábitos humanos, especialmente quando tal significa uma refeição mais fácil:

A associação entre pescadores e gaivotas é inevitável e a distração de uns pode resultar na perda de alguns peixes, cujo destino seria por certo outro. No entanto, estas aves já sabem que sempre que um barco de pesca regressa, alguma coisa vai sobrar. Por isso esperam pacientemente pela recompensa. Podem parecer desinteressadas, mas sabem perfeitamente o que está dentro dos baldes e se puderem serão elas as primeiras a confirmar a excelência do nosso peixe.

 

 

Mas nem só os pescadores são alvo destas “piratagens”. Tenho verificado que são cada vez mais as gaivotas que já assimilaram a prática rotineira de “dar alimento a gatos e cães na rua”. Assim que as pessoas esvaziam as latas de comida e viram as costas começam as tentativas para ludibriar os felinos domésticos para ver se lhes roubam a refeição, sendo que muitas vezes a inteligência felina leva a melhor, mas a persistência das gaivotas é cada vez mais recompensada.

Também já pude comprovar como já associam um grupo de crianças num jardim a restos de piquenique, não sendo caso raro as vezes em que a sandes ou o bolo é roubado das mãos da rapaziada mais desatenta.

 

A sua capacidade de resistirem às adversidades e se adaptarem a condições extremas:

Sempre que me deparo um grande bando de gaivotas, seja num porto ou numa praia, é comum encontrar alguns indivíduos com sinais evidentes de feridas. Estas são, muitas vezes, causadas pelos objectos feitos pelo homem, como arames, fios e plásticos.

 

 

Também é certo que por vezes estes acidentes resultam da excessiva curiosidade das gaivotas, que acabam por “meter o bedelho onde não deviam”. Mas sem dúvida que um pouco mais de cuidado da nossa parte evitaria muitos destes acidentes.

Muitas destas aves são reencaminhadas para os centros de recuperação da fauna e em caso de sucesso, são posteriormente libertadas. Estas aves com limitações físicas acabam por ficar em locais onde o alimento está mais disponível, sendo comum encontrá-las nos mesmo locais, como lixeiras, zonas portuárias e parques urbanos.

 

 

De facto, temos muito para aprender sobre estas magníficas aves e elas merecem o nosso respeito e admiração.

 

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