Foto: Joana Martins

Uma lagartixa muito especial na toalha de praia

Naturalistas locais

A leitora da Wilder Fernanda Gamito conta-nos uma deliciosa história de Verão, naturalista claro. Um encontro inesperado com a espécie ícone da ilha de Formentera, nas Baleares, em Julho. A colorida lagartixa Podarcis pityusencis é endémica da região e tem estatuto de Quase Ameaçada, pela UICN.

 

Quando o calor quase tropical silencia as conversas, um pequeno réptil colorido decide exibir-se na minha toalha de praia, desfrutando da sombra oportuna do guarda-sol.

 

Foto: Joana Martins

 

A hora é de admiração mútua, que não é costume tais familiaridades entre répteis e humanos. Altivo e curioso, avança sem medo sobre os restantes acessórios de praia e logo mais dois ou três membros da família o acompanham na exploração.

Estamos na Ilha de Formentera, uma das duas Pitiusas, e a lagartixa é a Podarcis Pityusensis, nada mais, nada menos que o ícone animal deste subarquipélago das Baleares, que muitos visitantes só conhecem das estampas das camisolas e de toda a espécie de “recuerdos” destas ilhas venturosas.

 

Praia no Parque Natural de Ses Salines. Foto: Fernanda Gamito

 

A Formentera chega-se por um “braço de mar” que a separa de Ibiza, deixando-se para trás o ambiente urbano e mais cosmopolita. A atração da Pitiusa mais pequena está na paisagem preservada, com as suas praias de areia branca e águas transparentes, graças à presença da planta marinha Posidónia (o “pulmão do Meditterâneo”). Os campos de cultivo de sequeiro, onde se avistam aqui e ali as típicas “figueiras escoradas”, e os recantos na costa rochosa aproveitados com engenho para a instalação de “casetas varadero” (pequenos portos tradicionais para a guarda de embarcações durante o Inverno) completam um cenário bucólico, antigo e familiar.

À vida calma e descontraída, associou-se aparentemente uma gestão sustentável do território: o transporte público percorre toda a extensão da ilha, 32 “rotas verdes” somam mais de 100km acessíveis de bicicleta e a utilização de veículos elétricos é incentivada com o seu acesso gratuito aos locais que fazem parte do Parque Natural de Ses Salines.

 

Foto: Joana Martins

 

Quanto à sargantana – como por cá é conhecida a Lagartixa das Pitusas –, é de esperar que não tenha muitos constrangimentos, nem corra perigo. O simpático réptil é endémico destas ilhas e caracteriza-se pela enorme variação observada nas suas populações, registando-se atualmente 23 subespécies, distintas sobretudo pelas suas cores – em todos os tons possíveis de azul, verde, amarelo e castanho –, conforme a zona onde vivem. Consta até que as de Formentera não temem nada e prosperam nas paisagens mais áridas e difíceis para a vida, tendo mesmo aí, um papel importante pois, sendo omnívoras, também polinizam plantas e ajudam a propagar sementes.

 

Foto: Joana Martins

 

Em Formentera, os esforços conservacionistas centram-se principalmente na pradaria de Posidonia oceanica, a maior do Mediterrâneo e o mais antigo ser vivo da Terra (100 mil anos), que é Património da Humanidade desde 1999.

Mas nem por isso o pequeno réptil colorido e toda a fauna da ilha (na qual nos incluímos) ficam a perder. Na praia rochosa onde se dá este inusitado encontro, nada perturba a paz da lagartixa: a regeneração das dunas e sapais, onde abunda a salicórnia e demais vegetação halófita, está assegurada pela existência de passadiços, não se avistam caixotes do lixo – nem lixo na areia –, a luz clara e dura continua a marcar o bioritmo entre a letargia e a atividade inquisidora.

 

Foto: Joana Martins

 

Qual sargantana ao Sol, em Formentera, perdemos temporariamente o medo ao mundo, na ilusão de que tudo pode ser calmo e luminoso como esta ilha.

 

Agora é a sua vez.

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