Sandra Inês Cruz tem histórias que dão para encher uma vida. A jornalista por detrás da nova série televisiva “As Novas Viagens Philosophicas”, a estrear neste domingo na RTP, sente-se privilegiada e faria tudo de novo. Mas não esquece aquela descida escorregadia na ilha do Príncipe. 

 

Wilder: Como é que a vossa equipa de quatro pessoas se coordenou com os investigadores?

Sandra Inês Cruz: Acompanhámos sempre o trabalho de campo dos biólogos e seguimos o seu calendário e o das espécies. Tentámos ser o mais discretos possível e não atrapalhar. Nunca fizemos exigências aos investigadores que estavam a fazer o seu trabalho para não tirar realismo, quisemos mostrar as coisas tal qual como eram. Se não tínhamos imagens bonitas, paciência. Não inventámos nada. E adaptámo-nos sempre. A única coisa que lhes chegámos a pedir foi para terem calma, para não andarem tão depressa (risos); para nós era mais difícil, andar com todo o material.

 

Investigação sobre anfíbios na Mata Atlântica, Brasil

Investigação sobre anfíbios na Mata Atlântica, Brasil

 

W: Porque as condições no terreno nem sempre eram fáceis, pois não?

SIC: Não. Seria de esperar que a reportagem mais difícil tivesse sido a da Mauritânia. Havia os perigos das células terroristas da Al-Qaida, as víboras venenosas (era o que mais havia, na verdade) e os escorpiões que estavam no chão por todo o lado para onde apontávamos os frontais durante o jantar. Os crocodilos acabaram por ser a única coisa pacífica. Mas o mais exigente e esgotante foi São Tomé e Príncipe.

 

Jantar em São Tomé

Jantar em São Tomé

 

W: Porquê?

SIC: Nem foi tanto o ter de dormir na floresta, atravessar rios e comer papas de aveia com arroz. Nunca tinha dormido três dias numa rede que fecha, por causa dos morcegos e de outros animais, pendurada no meio da floresta e debaixo de chuva torrencial. Tinha de estar dentro da rede para dormir e para escrever. Não podia usar papel e caneta e tomava notas no telemóvel, enfiado numa capa de plástico impermeável. E quando saltava para fora da rede, estava tudo enlameado. O mais duro foi mesmo a subida à Mesa, no Príncipe. Era como uma parede vertical com água a escorrer. Se a subida foi difícil, a descida foi uma aventura. Só pensava ‘Como é que eu saio daqui’. E o nosso guia não deu grande ajuda motivacional: “Inês, se escorregar, tu morre”. E ainda há o momento emblemático do naufrágio.

 

Na floresta de São Tomé

Na floresta de São Tomé

 

W: Como assim?

SIC: Estávamos a tentar chegar de barco ao Boné do Jockey, uma ilha do Príncipe onde vive uma sub-espécie do tordo-do-Príncipe, com uma história incrível que queria filmar. Naquela ilha a ave não tem mais nada para se alimentar sem ser o fruto de uma palmeira. Por isso, a palmeira, para se defender da predação das aves, alterou o seu fruto para dificultar a vida ao tordo. Mas como resposta, a ave adaptou-se e modificou o seu bico. Mas naquele dia o mar estava muito agitado e o barco foi arrastado para as rochas. Três homens foram ao mar e só um sabia nadar. Mas acabou por correr tudo bem, apesar de termos sido forçados a voltar para trás.

 

W: O que ganhaste nestes cinco anos de documentários?

SIC: Valorizo muito o factor humano. Vivemos com os entrevistados, noite e dia, durante pelo menos duas semanas. E havia pessoas muito diferentes, com motivações diferentes para estarem na Biologia, com maneiras de viver diferentes. Uns eram muito práticos, outros mais desorganizados e outros mais minuciosos. Mas, apesar de estarem a trabalhar, todos tiveram a paciência de nos integrar, mesmo quando tínhamos de tirar as câmaras, ligar as luzes ou calibrar os equipamentos.

 

Investigação sobre coelhos, França

Investigação sobre coelhos, França

 

W: Como organizavam o vosso trabalho?

SIC: Houve períodos mais intensos do que outros. Houve uma altura em que chegámos de Cabo Verde e dois dias depois estávamos em Itália para filmar os sáveis no Lago Como. Mas dependia sempre da disponibilidade dos biólogos e da conveniência da época do ano para filmar. Acima de tudo, tínhamos de fazer as coisas num determinado período de tempo. Nunca ficámos mais de 15 dias num lugar. Há reportagens que foram feitas em 10 dias, outras em muitos sítios em muitos dias. Por exemplo, o episódio dos morcegos foi o único filmado inteiramente em Portugal e foi o que demorou mais tempo a fazer. Quisemos mostrar como os morcegos se adaptam às estações do ano e tivemos de filmar em diferentes épocas os diferentes grupos de morcegos.

 

Investigação na Guiné-Bissau

Investigação na Guiné-Bissau

 

W: E hoje, se pudesses, voltavas ao terreno?

SIC: Sim, regressava outra vez. Vivemos com desconhecidos, em condições difíceis, como no deserto do Saara com escorpiões debaixo da tenda, 10 dias sem tomar banho e a ter de acompanhar os investigadores que têm a mania de trabalhar à noite (risos). No meu despertador no telemóvel ainda tenho horas para acordar de 15 em 15 minutos. Uma era a hora dos passarinhos, outra a hora dos morcegos e outra a hora dos sapos. Mas a equipa era fantástica e acabou por correr tudo bem. Trabalho em televisão há 20 anos e tive uma sorte incrível com a equipa, apesar de, no início, só conhecer um operador de câmara.

 

Saiba mais.

Leia aqui o que pode esperar desta nova série de televisão.