Depois de explorarmos as espécies Lázaro entre as plantas, avançamos agora para o mundo animal, que se lhes seguiu na colonização de terra firme. Seguiremos a linha evolutiva, pelo que vamos conhecer primeiro o caso de um insecto, uma formiga.

 

Os insectos pertencem ao filo Arthropoda, um filo cujos fósseis mais antigos datam de há cerca de 540 milhões de anos, no Câmbrico inferior. A colonização de ambientes terrestres pelos artrópodes ocorreu há cerca de 420 milhões de anos (final do Silúrico) – ainda que existam icnofósseis datados de há 450 milhões, que mostram as primeiras evidências de actividade em ambiente terrestre por parte deste grupo.

Os primeiros insectos, uma classe (Insecta) deste filo, surgiram logo depois. Provavelmente perto dos 400 milhões de anos (Devónico), muito embora existam evidências de que poderão ter surgido de facto ainda durante o Silúrico, um período que terminou há 419 milhões.

Bem mais tarde, surgiram as formigas, com o seu conhecido comportamento social, pertencentes à classe dos insectos. Foi no Cretácico inferior (cerca de 140 milhões de anos), em pleno reinado dos dinossauros.

Decorria o ano de 1985 quando Edward Osborne Wilson, conhecido como pai da sociobiologia e co-criador da teoria da biogeografia insular*, cuja especialidade era a mirmecologia (estudo de formigas), publicou um artigo sobre as formigas fossilizadas em âmbar da República Dominicana.

Mas uma surpresa apanhou a comunidade científica mais de duas décadas depois. Foi quando Alexander Wild, da Universidade do Texas, e Fabiana Cuezzo, do Instituto Miguel Lillo na Argentina, publicaram a descoberta de um género até então conhecido apenas dos fósseis de âmbar dominicanos: o género Gracilidris.

A descoberta foi feita a partir de exemplares capturados no norte da Argentina, no Paraguai e no Brasil.

 

 

Formiga da espécie Gracilidris pombero. Foto: April Nobile / AntWeb.org

Formiga da espécie Gracilidris pombero. Foto: April Nobile / www.AntWeb.org

 

Os cientistas supunham que este género de formigas nocturnas estava extinto desde o final do Oligocénico ou início do Miocénico, ou seja, há cerca de 25 a 20 milhões de anos.

Wild e Cuezzo descreveram as actuais formigas, que baptizaram de Gracilidris pombero, em alusão ao seu comportamento nocturno (Pombero é uma personagem mitológica humanoide da cultura guarani, e que significa homem/criatura da noite). Hoje são conhecidas colónias também na Colômbia.

Na senda da evolução das espécies, encontramos também uma espécie Lázaro nos anfíbios: um pequeno sapo que habita na ilha de Maiorca, em Espanha. Os anfíbios evoluíram no Devónico (há cerca de 370 milhões de anos) a partir de espécies de peixes com barbatanas carnudas sustentadas por esqueleto ósseo, como os actuais peixes pulmonados ou o Celacanto, tema da primeira crónica.

Durante o Carbonífero inferior, a transição para um clima global mais húmido e a formação de extensas regiões pantanosas abriu as portas à colonização da terra pelos anfíbios. Estes tornaram-se então os predadores de topo terrestres, alimentando-se dos artrópodes e ocupando o topo da cadeia alimentar.

O pequeno Alytes muletensis, que mede menos de quatro centímetros, foi descrito pela primeira vez em 1977 a partir de restos fósseis do Plistocénico superior (há cerca de 100 mil anos) da ilha de Maiorca.

 

Sapo-parteiro-de-Maiorca. Foto: Tuurio and Wallie / Wiki Commons

Sapo-parteiro-de-Maiorca. Foto: Tuurio and Wallie / Wiki Commons

 

Pensando tratar-se de uma espécie extinta, provavelmente fruto da colonização da ilha por humanos há 6000 anos, foi com surpresa que se encontraram, apenas dois anos mais tarde, exemplares vivos na região da Serra de Tramuntana.

O pequeno sapo maiorquino, conhecido hoje como sapo-parteiro-de-Maiorca, é endémico da ilha e a população é estimada em 500 a 1500 pares de adultos reprodutores. Existe já um programa de reprodução em cativeiro e a região está classificada como Património Mundial da UNESCO, desde 2011.

[* Nascida na década de 1960, a teoria da biogeografia insular procurava prever o número de espécies que existiriam numa ilha recém criada, através da compreensão dos factores que afectam a riqueza de espécies de uma determinada comunidade isolada. De facto, a teoria começou por se aplicar a ilhas, mas evoluiu para compreender qualquer ecossistema isolado, isto é, um ecossistema que se encontra rodeado por habitat não adequado (ex.: picos de montanha, regiões isoladas de floresta, lagos rodeados por áreas desérticas).]

 

Sobre o autor:

Gonçalo Prista é doutorando da Universidade de Lisboa, em Ciências do Mar, e membro da Sociedade de História Natural de Torres Vedras. Trabalha nas áreas de paleoceanografia e paleontologia.

As árvores “redescobertas” pela ciência são o tema da sua terceira crónica, numa série dedicada às Espécies Lázaro. A primeira crónica foi sobre o Celacanto, aqui pode ler a segunda, sobre ressuscitares marinhos, e a terceira crónica tem como tema as plantas.