Foto: Albano Soares

Bioblitz dá duas novas espécies de libélulas a Lisboa

Ciência cidadã

A lista de espécies do Parque Florestal de Monsanto, o pulmão verde de Lisboa, acaba de crescer para as 417 depois da 2ª edição do Bioblitz, no sábado passado. Mais de 60 pessoas contaram 176 espécies, entre elas duas espécies de libélulas que ainda não tinham sido observadas em Lisboa. Margarida Marques esteve no Bioblitz para lhe contar o que viu.

 

Está um sábado quente em Lisboa, mas em Monsanto sente-se uma brisa fresca. O anfiteatro Keil do Amaral, na zona sul do parque, é o ponto de partida e chegada para todos os que, de olho vivo e audição desperta, aceitam o desafio de identificar o maior número de espécies, junto de cientistas peritos. À chegada recebem um guia de campo e, se necessário, lupas, binóculos ou redes. E estão prontos para partir em busca das espécies que elegem Monsanto como lar.

 

Foto: Cristina Luís

Foto: César Garcia

 

Vemos que há os participantes pontuais, uns chegam com antecedência e outros um pouco atrasados. Dos mais novos aos mais velhos, todos trazem roupa e calçado práticos e são vários os que optam pela mochila às costas, chapéu e máquina fotográfica ou binóculos ao pescoço.

Os grupos com mais entusiastas são o das aves e o dos mamíferos (incluindo morcegos), mantendo-se a tendência do ano passado.

A bióloga Patrícia Tiago – uma das fundadoras da base de dados online Biodiversity4all, que recebe os registos nacionais de espécies observadas por cidadãos – está ao computador para disponibilizar, quase em tempo real (de 15 em 15 minutos), os registos que vão sendo efetuados pelos diversos grupos. Perguntamos-lhe por que razão há sobreposições de horários para os diferentes grupos de espécies. “Na verdade são propositadas. Fazem com que as pessoas não se vão logo embora e possam interessar-se por outras áreas”, explica.

 

Foto: Cristina Luís

Foto: Cristina Luís

 

De todas as espécies que vão sendo registadas, as grandes estrelas do dia são duas espécies de libélulas observadas, pela primeira vez, na cidade de Lisboa: a tira-olhos migrador (Anax ephippiger) e a ortétrum-das-escorrências (Orthethum brunneum). Estas são “duas espécies potencialmente ameaçadas em Portugal e com uma distribuição pouco conhecida e fragmentada”, de acordo com Albano Soares, especialista em libélulas e investigador do Tagis (Centro de Conservação das Borboletas de Portugal).

A tira-olhos migrador, viajante da África tropical e sudoeste asiático para a Europa, costuma aparecer em lagos ou lagoas e elege locais mais quentes para se reproduzir.

 

Foto: Albano Soares

Foto: Albano Soares

 

A ortétrum-das-escorrências costuma surgir em pequenos cursos de água, rios ou barragens e trata-se de uma espécie pioneira na colonização de novos habitats.

 

Foto: Albano Soares

Foto: Albano Soares

 

O que poderá explicar o aparecimento de tais espécies, não registadas no Bioblitz 2015? Albano Soares, bastante entretido a fotografar moscas, dá-nos a sua opinião. “O aumento da quantidade de água disponível no parque e o facto de haver chuva até mais tarde influencia, certamente, o que encontramos. Aparentemente, os insetos começaram a voar mais tarde, mas os dados que temos ainda são poucos e só daqui a uns anos, com medições mais regulares, é que saberemos com mais certeza”, esclarece o naturalista.

Foto: Cristina Luís

Foto: Cristina Luís

 

Ao longo do dia foi várias vezes invocada a ideia de se dar início a um programa de monitorização de insetos, que contasse com a colaboração dos cidadãos. Especialmente para libélulas e borboletas, espécies consideradas ótimos bioindicadores e que costumam despertar bastante interesse do público.

 

Foto: Cristina Luís

Foto: Cristina Luís

 

Cristina Luís, investigadora na Universidade de Lisboa e do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, também está ali por perto. É uma das responsáveis que está a organizar este Bioblitz em Monsanto, juntamente com o Biodiversity4all, o Tagis, o Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (cE3c) e a Sociedade Portuguesa de Botânica. A iniciativa é uma actividade preparatória da Noite Europeia dos Investigadores, marcada para 30 de Setembro.

Explica-nos que, comparativamente com a programação do ano passado, a única diferença é que os anfíbios passaram para o horário das 20h00 às 22h00, em vez de estarem junto às libélulas, da parte da tarde. “As horas são escolhidas de acordo com a melhor altura para se observarem as espécies. Mas, no ano passado, à hora em que se estava a tentar ver anfíbios, não se viu nem um. Só mais à noite é que se começaram a ouvir alguns, que acabaram por ser identificados pelo canto”, conta à Wilder.

 

Foto: Cristina Luís

Foto: César Garcia

Contas feitas, no final do dia, foram identificadas e registadas no Biodiversity4all um total de 176 espécies, incluindo 58 novidades em relação ao Bioblitz do ano passado: mamíferos (+1), répteis e anfíbios (+1), borboletas diurnas (+6), libélulas (+4), peixes (+1), plantas (+17), líquenes e musgos (+19), gafanhotos, grilos e ralos (+2), cigarras, cigarrinhas e percevejos (+2), joaninhas e outros coleópteros (+2), abelhas, vespas e formigas (+1), outros artrópodes (+2).

 

Foto: Cristina Luís

Foto: Cristina Luís

 

Este considerável acréscimo de 58 espécies poderá explicar-se pelo facto de se ter expandido um pouco a área onde se realizou a amostragem. Na verdade, a Alameda Keil do Amaral é a área selecionada pela Rota da Biodiversidade, porém, as zonas onde se realizam as saídas de campo em Monsanto podem variar um pouco, conforme o local onde é mais fácil serem encontradas determinadas espécies. Mais frequentemente, para os casos das aves, morcegos ou anfíbios.

 

Foto: César Garcia

Foto: César Garcia

 

Patrícia Tiago, do Biodiversity4all, sublinha não só a importância do trabalho em equipa que o Bioblitz promove, mas também a sua dimensão educativa ao nível da biocidadania. Em vez de um inventário exclusivamente elaborado por especialistas, pretende-se que esta inventariação relâmpago de espécies seja fruto de um trabalho cooperativo entre peritos das mais diversas áreas da biodiversidade, prontos a esclarecer, e públicos interessados em participar.

 

Foto: Cristina Luís

Foto: César Garcia

 

Este ano foram 65 os participantes que aproveitaram o sábado para descobrir a biodiversidade de Monsanto.

 

Foto: Cristina Luís

Foto: Cristina Luís

 

Contadas 241 espécies em 2015 e 176 este ano, os bioblitzers das duas edições já contribuíram para o registo de 417 espécies em Monsanto.

 

 

Foto: Cristina Luís

Foto: Cristina Luís

 

Em 2017, as investigadoras Cristina Luís e Patrícia Tiago esperam que a data do Bioblitz de Monsanto se aproxime mais da de 2015, dia 10 de Junho. Por um lado, como ainda poucas pessoas foram de férias, o número de participantes é maior e, por outro, conseguir-se-ia, mais facilmente, registar um número superior de espécies, nomeadamente de plantas herbáceas (demasiado secas em Julho).

 

Este texto foi editado por Helena Geraldes.

 

Saiba mais.

Os resultados globais do Bioblitz Monsanto 2016 encontram-se disponíveis aqui. E aqui pode saber mais sobre o que é o Biodiversity4all.

Conheça os resultados do Bioblitz que decorreu no mesmo dia no Jardim Botânico do Porto.

E aqui, recorde como foi o Bioblitz de Monsanto do ano passado.