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O que procurar no Verão: a erva-cidreira

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Carine Azevedo desvenda-nos tudo o que sempre quisemos saber sobre esta planta fresquinha e convidativa nestes dias de calor, que no jardim ou na varanda dá cor e aroma ao ambiente.

 

A erva-cidreira (Melissa officinalis) é uma das plantas medicinais mais utilizadas e conhecidas em Portugal. É conhecida pelo seu aroma fresco e suave a limão e pelas suas propriedades calmantes.

E como sabemos que com o calor as bebidas frescas são mais apetecíveis, nada como uma infusão fria, com folhas de cidreira, para hidratar o organismo e aliviar o stress.

Lamiaceae

A erva-cidreira, também vulgarmente conhecida como cidreira, coroa-de-rei, chá-da-França, melissa, anafa, anafe e citronela-menor, é reconhecida em inglês como “lemon balm”, devido ao aroma agradável a limão.

É uma espécie da família Lamiaceae, a sétima maior família de plantas com flor, conhecida como a família das mentas ou da hortelã.

Esta família tem uma distribuição cosmopolita. Ocorre em quase todos os continentes e é representada por cerca de 230 géneros botânicos e mais de sete mil espécies. Em Portugal, está representada por 28 géneros botânicos e por cerca de uma centena de espécies.

As espécies que fazem parte da família Lamiaceae são maioritariamente plantas aromáticas, úteis como condimentares, alimentares, medicinais e ornamentais. Algumas são bem conhecidas, como o rosmaninho (Lavandula stoechas), o alecrim (Salvia rosmarinus), a sálvia (Salvia officinalis), a carvalhinha (Teucrium chamaedrys), o poejo (Mentha pulegium), a hortelã (Mentha spicata), o tomilho (Thymus vulgaris), a alfazema (Lavandula angustifolia), o orégão (Origanum vulgare) e tantas outras.

Cidreira

A cidreira é uma planta herbácea, perene, que pode crescer até aos 80 centímetros de altura. Possui um rizoma curto e caule ereto, quadrangular, herbáceo e aromático, coberto de pêlos que são particularmente densos nos nós. O caule ramifica a partir da base, formando pequenos e densos arbustos com cerca de 50 centímetros de diâmetro.

As folhas são simples, pecioladas, ovais a elípticas, pilosas e de margem crenada.

A superfície da folha é verde-escura e áspera e a parte inferior é mais clara e ligeiramente pilosa, possuindo nervuras de cor creme, bem salientes.

Foto: Michal/Wiki Commons

As flores surgem na primavera e no verão, entre os meses de junho e agosto, reunidas em inflorescências com duas a doze flores cada uma. As flores são pequenas, esbranquiçadas, amareladas ou rosadas.

Cada flor é formada por um cálice tubular, piloso, em forma de sino, e por uma corola também tubular, simpétala e bilabiada, ou seja, formada por dois lábios. O lábio superior é ligeiramente côncavo, curvado para baixo e bilobado. O lábio inferior é trilobado, com o lobo mediano mais desenvolvido em relação aos dois laterais.

Quanto ao fruto, é uma núcula, ovóide, aguda, lisa e de cor castanho-escura.

Onde cresce?

A cidreira é uma espécie nativa da Europa Meridional até à Ásia Central e ao Norte de África, embora também seja comum em muitas outras regiões do mundo, provavelmente introduzida sobretudo pelo interesse medicinal que possui.

Em Portugal ocorre em quase todo o território continental, sendo mais comum nas regiões do Minho e da Estremadura e escassa em certas regiões de Trás-os-Montes e no Algarve. Também ocorre no arquipélago da Madeira, onde foi introduzida no passado.

A erva-cidreira é comum no subcoberto de bosques de castanheiros, choupos, amieiros, azinheiras, em silvados, ou em fendas de rochas.

Esta planta, apesar de tolerar locais com exposição solar plena, tem preferência por locais de sombra ou de meia sombra e abrigados de ventos fortes. Não é muito exigente a nível edáfico, embora prefira solos húmidos e frescos, mas não encharcados, sobretudo no verão.

Foto: Bff/Wiki Commons

A cidreira é pouco tolerante ao excesso de água e aos solos mal drenados. Nas regiões mais frias, nos invernos mais rigorosos ou com períodos prolongados de geada, a planta pode perder totalmente a parte aérea, voltando a rebentar assim que as condições ambientais forem favoráveis.

Planta de mil usos

A cidreira é uma planta multifacetada.

A denominação genérica Melissa deriva da palavra grega mélissa ou mélitta, que significa “abelha”, que por sua vez é derivada do termo grego meli, que significa “mel”, uma vez que se trata de uma planta melífera por excelência.

As flores desta planta são muito atrativas para os insectos polinizadores, sendo as abelhas melíferas, nomeadamente a abelha-europeia (Apis mellifera), o principal agente polinizador. Os abelhões, as borboletas e alguns dípteros também contribuem para a polinização desta espécie.

Foto: Gideon Pisanty/Wiki Commons

Segundo a lenda, os gregos denominavam a erva-cidreira como a “erva do mel de abelha”, uma vez que o termo Melissa terá sido dado a esta planta em homenagem à ninfa protetora das abelhas – Mellona.

O termo officinalis deriva do latim e significa “oficialmente usada como planta medicinal” ou “com uso farmacêutico”, pela sua versatilidade e utilidade em produtos farmacêuticos, fitoterapia, perfumaria e afins.

Com efeito, a nível medicinal e farmacêutico, a erva-cidreira é reconhecida pelas propriedades calmantes, relaxantes, digestivas, antivirais, antibióticas, entre outras.

É habitualmente utilizada no tratamento de distúrbios nervosos: insónias, ansiedade, depressão e stress. É útil no tratamento de problemas digestivos, ajudando a estimular o apetite em caso de indigestão. Também combate distúrbios do sono, herpes, enxaquecas e dores de cabeça, náuseas, vómitos e enjoos, entre outros.

Todavia, como acontece com qualquer outra planta, deve sempre consultar um profissional de saúde antes de a utilizar para fins medicinais.

Além dessas qualidades, pelas quais é maioritariamente conhecida, esta planta também é bastante decorativa e tem ainda aplicações na cozinha e na cosmética, sendo muito popular como infusão e muito versátil como tempero. Não deve ser cozinhada, devendo ser acrescentada apenas no final dos cozinhados para não perder o seu aroma característico.

As folhas frescas podem ser utilizadas em substituição ao limão, na preparação de omeletes, molhos, vinagres aromáticos, saladas, pratos de peixe, sopas e sobremesas, gelados e tisanas.

A erva-cidreira também é utilizada para aromatizar o leite, sumos e licores de ervas como chartreuse e bénédictine e bebidas espirituosas como carmelite, e faz parte da composição de rebuçados.

Esta planta também é utilizada em fitoterapia. O extrato de cidreira entra na composição de pomadas para cuidados da pele e do cabelo e em pastas de dentes. O óleo essencial obtido desta planta pode ser utilizado em aromaterapia, como relaxante e revigorante, e também em perfumaria e em produtos de limpeza. As folhas secas são adicionadas a pot-pourri e a sacos perfumados. E a planta propriamente dita é um excelente repelente de insectos (moscas e formigas).

O aspeto denso dos tufos que forma, combinado com a textura fina das folhas que libertam um cheiro agradável a limão quando tocadas e com a floração intensa ao longo de todo o verão, fazem da cidreira uma planta muito interessante para o paisagismo.

É uma planta ideal em jardins de ervas aromáticas ou noutros jardins, isolada ou agrupada com outros pequenos arbustos, para decorar canteiros, bordaduras, ou para cobertura de solo, e que ajuda a perfumar o ambiente. Também pode ser cultivada diretamente em vasos e floreiras.

A melissa, a hortelã e as falsas melissas

A erva-cidreira é muitas vezes confundida com outras espécies botânicas, todas elas também plantas aromáticas e com as quais tem algumas afinidades:

– A hortelã é uma espécie da mesma família botânica, no entanto, de género botânico distinto – Mentha – e que apresenta folhagem semelhante, embora as folhas de Mentha sejam ligeiramente menores e mais escuras, com um aroma a limão mais fresco e suave.

A grande diferença entre as duas espécies acontece na altura da floração: as flores da erva-cidreira são maioritariamente brancas ou rosadas e as da hortelã são roxas.

– A lúcia-lima (Aloysia citrodora) é também conhecida como doce-lima, bela-luísa ou limonete. É uma espécie da família Verbenaceae, nativa da América do Sul, cujas folhas exalam um aroma forte a limão, muito utilizado para perfumar o ambiente. Como a erva-cidreira, esta planta é usada para aliviar febres e atua como digestivo ou sedativo leve.

Distingue-se da erva-cidreira pelo tipo de folhas: longas, lanceoladas e verde-claras, dispostas em verticilos e pelas flores brancas a ligeiramente azuladas que surgem em espigas terminais.

– A falsa-melissa (Lippia alba) partilha alguns nomes comuns da Melissa officinalis, como melissa ou erva-cidreira, e é também usada para aliviar o stress. As folhas desta planta são muito parecidas na forma e na cor, embora não possuam um aroma tão característico a limão quanto a erva-cidreira.

As duas espécies distinguem-se pelo facto de pertencerem a famílias botânicas distintas, serem originárias de diferentes regiões e possuírem flores de cores diferentes.

A falsa-melissa é uma espécie da família Verbenaceae, nativa do continente americano, que possui flores roxas com pequenas nuances amareladas.

– A erva-príncipe (Cymbopogon citratus), espécie da família Poaceae, nativa das regiões tropicais da Ásia, partilha algumas das propriedade organolépticas, nomeadamente o aroma intenso a limão embora, morfologicamente, nada se pareça com a Melissa officinalis.

Esta planta possui igualmente propriedades calmantes, sedativas, diuréticas, digestivas, anti-fúngicas, entre outras, embora a composição química dos óleos essenciais das duas espécies seja muito distinta.

No jardim ou na varanda, a erva-cidreira dá cor e aroma ao ambiente e, em dias de muito calor, uma infusão fresca, com ou sem gelo, hidrata, refresca e revigora.

 


Dicionário informal do mundo vegetal:

Herbácea – planta de consistência não lenhosa e verde.

Perene – planta que tem um ciclo de vida longo e que viver três ou mais anos.

Rizoma – caule subterrâneo, que cresce geralmente na horizontal, com aspeto de raiz, composto de escamas e gemas, como se de um caule aéreo se tratasse.

Peciolada – provida de pecíolo – “pé” da folha que liga o limbo ao caule.

Limbo – parte larga de uma folha normal.

Elíptica – com forma que lembra uma elipse, mais larga no meio e com o comprimento duas vezes a largura.

Crenada – margem com recortes arredondados.

Inflorescência – forma com as flores estão agrupadas numa planta.

Bilabiada – corola com segmentos dispostos em duas partes opostas – lábios.

Simpétala – corola cujas pétalas se encontram unidas (“soldadas”) entre si.

Cálice – conjunto das peças florais de proteção externa da flor – sépalas, frequentemente de cor verde.

Tubular – que possui a forma de um tubo muito alongado.

Corola – conjunto das peças florais, geralmente brancas ou coloridas – pétalas, que protegem os órgãos reprodutores da planta (os estames e o pistilo).

Bilobada – dividida em dois lóbulos.

Trilobada – dividida em três lóbulos.

Núcula – fruto seco, indeiscente do tipo esquizocarpo, semelhante a uma pequena noz.

Indeiscente – fruto que não se abre naturalmente quando maduro, não libertando as sementes.

Esquizocarpo – fruto seco que na maturação se divide em frutos parciais.

 


Todas as semanas, Carine Azevedo dá-lhe a conhecer uma nova planta para descobrir em Portugal. Encontre aqui os outros artigos desta autora.

Carine Azevedo é Mestre em Biodiversidade e Biotecnologia Vegetal, com Licenciatura em Engenharia dos Recursos Florestais. Faz consultoria na gestão de património vegetal ao nível da reabilitação, conservação e segurança de espécies vegetais e de avaliação fitossanitária e de risco. Dedica-se também à comunicação de ciência para partilhar os pormenores fantásticos da vida das plantas. 

Para acções de consultoria, pode contactá-la no mail carinea.azevedo@gmail.com. E pode segui-la também no Instagram.