PUB

Cinco perguntas sobre o projecto europeu dedicado aos insectos

01.06.2023
leitura de 3 minutos
Foto: Ivar Leidus/Wiki Commons

Sílvia Castro e João Loureiro, do CFE – Centro de Ecologia Funcional, da Universidade de Coimbra, responsáveis pelo SPRING em Portugal, explicaram à Wilder o que é esta iniciativa que está a testar métodos de monitorização em vários pontos do país e quais vão ser os próximos passos.

WILDER: Quais são os principais objectivos do SPRING?

Sílvia Castro e João Loureiro: O grande objetivo é responder ao declínio dos polinizadores e ajudar a reverter este declínio de uma forma alinhada com os objetivos da Estratégia Europeia para a Biodiversidade 2030. Em particular, contribuir para a capacitação taxonómica dos países membros ao nível dos polinizadores e preparar o apoio à implementação de um programa de monitorização de polinizadores na Europa.

Para isso, o projeto está estruturado em várias tarefas, tendo como objetivos específicos expandir programas de monitorização em curso com base em ciência cidadã (como é o caso do programa de monitorização de borboletas na Europa), promover a capacitação ao nível da taxonomia e identificação dos polinizadores, e desenvolver um projeto piloto para testar a implementação de um programa de monitorização de polinizadores ao nível europeu.

W: À imagem do esquema europeu de monitorização de borboletas, o SPRING pretende apoiar-se na ciência cidadã?

Sílvia Castro e João Loureiro: Este projeto apoia-se num documento produzido por um conjunto de especialistas e apresentado à Comissão Europeia, que propõe um esquema elaborado de monitorização dos diferentes grupos de polinizadores, incluindo metodologias de amostragem, indicadores e atores envolvidos neste processo. Esta proposta necessitava de ser testada e aí surge o projeto SPRING.

De qualquer das formas, os programas já existentes serviram também de suporte ao desenvolvimento destas metodologias, nomeadamente o esquema europeu de monitorização de borboletas, pelo sucesso da iniciativa e numa tentativa de a expandir a outros grupos de organismos polinizadores.

A ciência cidadã é uma das estratégias em avaliação para permitir uma expansão da monitorização, mas dada a dificuldade de identificação de determinados grupos de insetos, necessita de ser avaliada com cuidado antes de implementada ao nível europeu.

W: Querem também incentivar a formação de mais taxonomistas? E porquê?

Sílvia Castro e João Loureiro: Sem dúvida! A aposta na formação de taxonomistas e na capacitação ao nível regional de equipas de taxonomistas, na identificação dos diversos grupos de polinizadores, é uma grande aposta do projeto. Esta capacitação é crucial para que os países membros tenham recursos e competências para a identificação dos seus polinizadores ao nível nacional e regional e para uma posterior implementação de um plano de monitorização.

Sem esta formação, a implementação de um programa de monitorização ao nível nacional fica largamente constringida e dependente de colaborações internacionais de especialistas que, sendo escassos, dificilmente conseguirão dar resposta a um pedido massivo ao nível europeu.

Nesse sentido, o SPRING está a organizar diversos cursos de formação com diferentes níveis de especialização e cobrindo os grupos de polinizadores mais importante, as abelhas, sirfídeos ou moscas-das-flores, e borboletas. Estes cursos são dirigidos ao público em geral, a voluntários que já estejam envolvidos no programa de monitorização de borboletas ou outros voluntários que queiram iniciar esta atividade, a investigadores familiarizados com os polinizadores, mas com pouca experiência na sua identificação, e a entomólogos para uma formação mais avançada.

W: Se as metodologias utilizadas durante o SPRING forem validadas, que etapa é que se segue?

Sílvia Castro e João Loureiro: O projeto SPRING surge precisamente de uma necessidade identificada ao nível europeu, de monitorizar os polinizadores. Nesse sentido, o próximo passo será criar um conjunto de diretrizes e metodologias que terão de ser implementadas pelos países membros, de forma a podermos perceber de que forma as populações de polinizadores estão a evoluir em termos de abundância e diversidade na Europa, e de que forma determinadas medidas (por exemplo, da Política Agrícola Comum) estão a impactar estes organismos. 

É de esperar que surja um programa europeu e que exista uma obrigatoriedade dos Estados-membros de contribuir com indicadores de monitorização deste grupo funcional tão importante para o funcionamento dos nossos ecossistemas. É expectável que este programa entre em funcionamento a partir de 2027.

W: Quando é que estarão disponíveis resultados concretos do projecto para Portugal?

Sílvia Castro e João Loureiro: A equipa do projeto SPRING encontra-se neste momento a adquirir dados em terreno através de várias metodologias. A recolha de informação terminará este ano e passar-se-á à análise dos resultados obtidos nos diferentes países envolvidos. Assim, os resultados serão comunicados em 2024, no momento de finalização do projeto. 

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

Não perca