Dispersão da vespa-asiática em Portugal directamente ligada às autoestradas, alerta estudo

Vespa asiática (Vespa velutina). Foto: Gilles San Martin

Vespa invasora está a chegar mais rapidamente do que seria natural a locais próximos das principais vias rodoviárias do país, concluíram investigadores portugueses, que analisaram quais são os mecanismos que ajudam à dispersão da espécie em território nacional.

As principais conclusões desse trabalho foram publicadas a 15 de Novembro na revista NeoBiota. A equipa analisou a informação disponível sobre a ocorrência de vespa-asiática (Vespa velutina) em Portugal entre 2013 e 2018, para perceber de que forma é que o clima, a paisagem e as acções humanas ajudam esta espécie invasora a espalhar-se em território nacional.

A vespa-asiática terá entrado em Portugal em 2011, num carregamento de madeiras importadas de França que chegou à região de Viana do Castelo, na região Norte. Desde então, foi chegando a outras zonas do país, e os registos mais recentes confirmam que “já se estabeleceu na região da Grande Lisboa”, lembra Maria João Verdasca, autora principal do artigo científico agora publicado. A presença da vespa-asiática está também “confirmada no distrito de Setúbal, Portalegre e Évora, sendo estes os pontos mais a sul da sua distribuição actual em Portugal”, adianta a investigadora ligada ao cE3c – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL).

No estudo agora publicado, os investigadores olharam para os dois tipos de mecanismos que esta vespa está a usar para se espalhar em território português. Primeiro, a difusão natural, “em que a população se vai expandindo localmente e naturalmente a partir de uma localização inicial”. Em segundo lugar, a dispersão por saltos, “fenómeno conhecido por ‘jump dispersal’, em que as novas colónias se estabelecem longe da zona de distribuição contínua da espécie, sem que a área no entremeio seja colonizada”.

Neste último caso, por vezes acontece que algumas vespas “podem ter uma capacidade de dispersão acima da média”, conseguindo afastar-se do ninho onde nasceram mais do que seria natural. Outra possibilidade é serem transportados para outras regiões por acção humana.

“Postos avançados” ao pé das autoestradas

Ao analisarem a dispersão da vespa-asiática, os investigadores aperceberam-se de que “existem colónias que se encontram muito afastadas da zona de distribuição contínua da espécie”, adianta Maria João Verdasca, que está a investigar esta vespa em Portugal, e que explica que estas colónias são conhecidas por ‘outposts’ (“postos avançados”, traduzido para português).

Mapa com o risco de dispersão da vespa-asiática em Portugal. Fonte: Artigo “Invasive hornets on the road: motorway-driven dispersal must be considered in management plans of Vespa velutina”, NeoBiota

Quando foram em busca do que poderia estar a influenciar o aparecimento destes ‘outposts’ de vespa-asiática, a equipa detectou uma relação directa com as auto-estradas. “Curiosamente, não com as restantes estradas do país”, ressalva a investigadora. Ou seja, “metade (50%) destes “postos avançados” da espécie encontram-se nos primeiros seis quilómetros em redor das autoestradas”. Alargando a análise para uma faixa de 12 quilómetros em volta das principais vias rodoviárias, ficaram abrangidos três em cada quatro (75%) do total de ‘outposts’ analisados pelos cientistas.

Mas o que se passa então? A equipa suspeita que haverá uma relação com o transporte rodoviário de mercadoras. “Muito provavelmente, o transporte de mercadorias que maioritariamente se faz ao longo destas grandes vias está a levar ao aparecimento acidental de novos focos de invasão, em zonas onde as vespas por si só não chegariam sozinhas tão rapidamente.”

A questão é que as vespas fecundadas, que vão dar origem a novos ninhos e colónias, hibernam durante o Inverno “muitas vezes em buraquinhos de árvores”, nota Maria João Verdasca. “Pode acontecer que num carregamento de madeiras sejam facilmente levadas para outro local onde se venham futuramente a estabelecer-se.”

Madeiras, produtos de jardinagem e comércio global

Face a este problema, a investigadora alerta que é necessário incluir os profissionais do transporte de mercadorias nas acções de sensibilização sobre a vespa-asiática, para que estes saibam como reagir quando se deparam com a espécie.

No entanto, o risco de presença desta vespa é diferente consoante os materiais transportados. “É importante implementar políticas de biossegurança especialmente dirigidas para o transporte de madeiras e de outros produtos associados ao comércio de jardinagem, devido ao seu potencial para poderem abrigar vespas fundadoras em hibernação”, sublinha a investigadora da FCUL.

Foi precisamente num carregamento de madeiras que a espécie terá chegado a Portugal, em 2011. E já antes, em 2004, acredita-se que foi à boleia em produtos de jardinagem que entrou na Europa, dando origem às invasões que se seguiram neste continente. Neste primeiro caso, “uma única fêmea fecundada por vários machos terá sido transportada acidentalmente desde a China até França num carregamento de loiças para bonsais.”

Ninho de vespa-asiática. Foto: Père Igor/Wiki Commons

Assim, alerta Maria João Verdasca, “a implementação de medidas de fiscalização neste tipo de companhias poderia ajudar a prevenir que a rede de autoestradas europeias se torne numa possível rota de entrada da vespa-asiática noutros países”.

Com efeito, as trocas comerciais entre diferentes países e continentes, ligadas à globalização da economia, são “um novo desafio para a interceção de espécies invasoras”. Assim, uma análise realizada nos portos de entrada dos EUA, entre 2010 e 2018, detectou “cerca de 50 intercepções” de diferentes espécies de vespas invasoras naquele país, incluindo Vespa crabro, Vespa orientalis e Vespa mandarinia. Em relação a esta última, foi encontrado “um ninho inteiro contendo crias vivas e pupas que foram enviadas via correio expresso da Ásia”, lembra Maria João Verdasca, que cita um estudo publicado em 2020.

E por isso, sublinha, “é importante fiscalizar também os possíveis pontos de entrada das espécies, pois tais introduções acidentais decorrentes de atividades humanas são hoje consideradas a principal causa de invasões biológicas”.

Mais rápida para Sul do que para o Interior

Por outro lado, o alargamento da área de distribuição da vespa-asiática em Portugal – o território onde esta já se estabeleceu – está a ser mais rápido de norte para sul (cerca de 45 quilómetros por ano) do que para o Interior do país (cerca de 20 quilómetros por ano).

Isso explica-se porque é junto à costa atlântica que há condições mais favoráveis para a espécie, pois ali “os Verões são mais amenos e há maior precipitação no Inverno” – ao contrário do que sucede mais longe do mar.

E é dessa forma, aliás, que os investigadores justificam a presença muito menor desta vespa nalgumas regiões do país, em especial as regiões do Alentejo. Estas são consideradas “inadequadas” para a vespa-asiática, uma vez que ali “os Verões são muito quantos e secos” e “a a variação da temperatura média anual é muito grande”.

Ainda assim, embora grande parte da região alentejana funcione como uma espécie de “tampão” que pode ajudar a conter o avanço da vespécie, “existem a sul do país algumas ‘ilhas’ climaticamente favoráveis, como a zona da serra de Monchique e do Caldeirão, que são economicamente muito importantes para o sector apícola nacional” e onde a vespa-asiática para já não chegou. Um dos principais problemas económicos causados por esta espécie é a predação de abelhas-do-mel em apiários, ligados à produção e venda de mel.

Vespa-asiática (Vespa velutina). Foto: Gilles San Martin/Wiki Commons

O perigo, avisa Maria João Verdasca, é que “estas regiões [serras de Monchique e do Caldeirão] acabam por estar ligadas ao resto do país pela presença das autoestradas, por onde circulam os transportes de mercadorias que poderão abrigar vespas fundadoras”. “Daí que seja importante a monitorização precoce em território nacional, para que se possa eliminar o quanto antes algum novo foco de invasão”, sublinha.

Zonas arbustivas, presas disponíveis

Por outro lado, concluíram os autores deste novo estudo, além da preferência por zonas urbanas e agrícolas, “a dispersão da vespa-asiática na sua área de distribuição contínua é favorecida com o aumento da distância dos ninhos de vespa às zonas arbustivas e naturais”.

Isto porque estas zonas “conferem uma grande variedade de locais de nidificação e recursos alimentares para diferentes insectos polinizadores silvestres que são também presas da vespa-asiática”. Assim, quantas mais zonas arbustivas e naturais houver, menor será a dispersão desta vespa invasora. 

Apesar do impacto da espécie na agriculta, um estudo anterior da equipa detectou “uma grande variedade de outros insetos polinizadores como presas da vespa-asiática, corroborando assim o potencial impacto desta espécie invasora na biodiversidade nativa.”


Saiba mais.

Recorde quais são as medidas que deve tomar se deparar com uma vespa-asiática.

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa dos meus pais. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.