Sobreiro na freguesia da Ota. Foto: Daniel Pinheiro/Wildstep

Em Alenquer, nasceu uma rota para valorizar as árvores autóctones do concelho

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A autarquia criou um roteiro pelas Árvores Emblemáticas e Autóctones de Alenquer, num processo que envolveu uma votação online para abranger todas as freguesias do município.

Choupo-branco, zelha, ulmeiro, amieiro, freixo-comum, carvalho-cerquinho e pilriteiro. Estas são algumas das árvores e arbustos de Alenquer que este projecto quer dar a conhecer aos habitantes do concelho, para que passem a preocupar-se com o futuro desse património natural.

Tudo começou com a realização de um concurso online, em Julho passado, para a eleição de uma árvore por cada uma das 11 freguesias do concelho. Na corrida estavam 33 árvores – três por cada freguesia – todas elas espécies autóctones da região. Todas tinham sido escolhidas “considerando factores como o seu porte e imponência, mas também dada a sua importância ecológica, cultural e paisagística, e a envolvente em que se inserem”, indicou à Wilder a equipa do projecto, numa entrevista por escrito.

O objectivo foi aumentar a literacia ambiental de quem vive no concelho de Alenquer, numa iniciativa que envolveu a população, as juntas de freguesia e também os proprietários das árvores que foram a concurso, explicam Carmen Dionísio e Sara Soares, da equipa da Conservação da Natureza da autarquia, e também Paulo Marques, chefe da Divisão de Ambiente e Serviços.

“Durante as acções de monitorização de campo verificámos a existência de um património natural único em território municipal, às portas da região de Lisboa e Vale do Tejo, com espécimes arbóreos dignos de serem contemplados e apreciados, mas sem qualquer proteção legal associada que permitisse salvaguardar a sua continuidade futura”, sublinham.

Entre as diferentes árvores autóctones de Alenquer estão quatro espécies que formam bosques e bosquetes por todo o concelho: carvalho-cerquinho, sobreiro, azinheira e freixo-comum.

Carvalho-cerquinho na freguesia de Ventosa. Foto: CM Alenquer

E há ainda muitas outras importantes para a biodiversidade local: choupo-branco, pinheiro-manso, zelha, amieiro, ulmeiro, salgueiro-branco, zambujeiro e castanheiro.

E isso apenas no que respeita às árvores. No que toca a espécies arbustivas, a região de Alenquer é rica em loureiros, medronheiros, pilriteiros, adernos-de-folha-estreita e adernos-de-folha-larga, sanguinhos-das-sebes e folhados, entre outras.

“Severamente ameaçadas de extinção”

O problema quanto ao futuro destas espécies é que muitas estão situadas em propriedade privada, indica a equipa, lembrando que o sobreiro e a azinheira são as únicas árvores autóctones protegidas pela legislação portuguesa. Mas mesmo o património público é fonte de preocupações, pois “situa-se fora de áreas de protecção especial, como é o caso das áreas protegidas”.

Resultado? “As arbóreas autóctones das áreas urbanas e semiurbanas, públicas e privadas, estão severamente ameaçadas de extinção”, alertam os responsáveis pelo projecto. E isto acontece quando “a diversificação e valorização de povoamentos florestais” com essas espécies é “essencial” para proteger diferentes funções dos ecossistemas – como o ciclo da água e a regulação climática – e também para conservar um “património natural único”.

Uma exposição permanente…

O concurso de Julho passado resultou na eleição de 11 árvores, todas elas integradas na nova Rota de Visitação das Árvores Emblemáticas e Autóctones de Alenquer, formando assim uma espécie de exposição permanente que atravessa todas as freguesias do concelho.

E tal como em qualquer exposição, “cada uma destas árvores foi sinalizada com um painel identificativo” com informações sobre a mesma: neste, “são transmitidos conhecimentos relativos à sua ecologia, distribuição, importância económica ou social e sobre a necessidade de conservação da espécie.” Cada painel contém ainda ilustrações científicas – desenhadas por Fernando Correia e pela sua equipa – e também informações em ‘braille’, tal como um QR Code que dá acesso a mais informações.

Sobreiro na freguesia da Ota. Foto: CM Alenquer

Por outro lado, “a selecção destas árvores desencadeou um trabalho de inclusão deste património natural nos Instrumentos de Gestão Territorial de âmbito municipal, bem como a criação de regulamentação municipal que permitirá ampliar a sua protecção legal.”

… e uma exposição fotográfica itinerante

A nova rota não vai estar apenas ao alcance de quem se lançar a fazer todo este percurso do início ao fim. As 11 árvores eleitas vão ser também apresentadas publicamente numa exposição fotográfica itinerante, que no próximo semestre vai percorrer diferentes espaços do concelho.

Daniel Pinheiro e Luís Pinheiro, da Wildstep Productions, vão ser os dois fotógrafos responsáveis por captar a beleza e importância inerente do património natural em causa, e sensibilizar para a sua existência e necessidade de conservação através do olhar mais sensível que as fotografias de natureza transmitem”, explica a equipa do projecto.

Assim, cada uma das 11 árvores vai ser fotografada em dois momentos diferentes: “um fora e outro dentro da época de floração, resultando numa exposição completa de 22 fotografias.”

No final, os responsáveis da nova rota esperam que “estas árvores possam continuar a desenvolver-se no território em bom estado de fitossanidade, dando-lhes oportunidade de aumentar a sua idade e porte arbóreo natural”, salientam. E mais do que isso: desejam que estas 11 eleitas sejam embaixadoras das restantes árvores e arbustos autóctones do concelho, chamando a atenção para a importância dessas espécies e dos habitats onde se conservam. 

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.