A nova Philibertia woodii. Foto: Fernando Zuloaga

Estas dez plantas e fungos “estranhos e maravilhosos” nasceram para a Ciência em 2021

Uma nova planta encontrada numa expedição em Angola e uma orquídea fantasma, que cresce numa escuridão quase completa, são algumas das novidades destacadas pelos Kew Gardens.

Ao longo do ano passado, os cientistas dos Jardins Botânicos Reais, Kew, em conjunto com parceiros de todo o mundo, descreveram e baptizaram cerca de 205 novas espécies de plantas e fungos em diferentes locais do mundo – incluindo Ásia, África, as Américas e também o Reino Unido – , fazendo-as assim nascer para a ciência. O anúncio foi feito esta quinta-feira pela instituição britânica.

“Algumas destas novas espécies podem ser importantes para as pessoas e o planeta – fornecendo rendimentos vitais para as comunidades, tendo potencial para o desenvolvimento de futuras comidas ou medicamentos, ou simplesmente mantendo o habitat à sua volta em boas condições”, realçam os Kew Gardens em comunicado. Desde há mais de 150 anos que os cientistas ligados aos conhecidos jardins londrinos se dedicam ao estudo de plantas e fungos desconhecidos.

Por outro lado, como explica Martin Cheek, investigador em África ligado aos Kew Gardens, embora seja “fácil assumir que sabemos tudo sobre as espécies de plantas e fungos do nosso planeta”, até devido à diversidade de apps que ajudam a reconhecer espécies, “na maior parte dos trópicos a identificação de plantas é ainda um grande desafio e milhares de espécies ainda continuam sem nomes científicos.”

“Esse é um problema porque até uma espécie ter um nome científico, avaliar o seu risco de extinção é quase impossível”, avisa Martin Cheek, que lembra que isso torna “incrivelmente difícil” proteger essas espécies e pesquisar as suas propriedades.

Tal como noutros anos, a equipa destaca as 10 espécies “mais estranhas e maravilhosas” que receberam nomes científicos no ultimo ano. Preocupante é que algumas estão em risco de desaparecer para sempre. Outras três, aliás, já estão extintas na natureza.

1. Uma Barleria azul em Angola

Baleria thunbergiiflora. Foto: © David Goyder/RBG Kew

A bonita Barleria azul – Barleria thunbergiiflora – foi descoberta durante uma expedição da National Geographic em Angola. “Cresce apenas em três locais em pradarias de altitude elevada situadas nas areias do Kalahari, um vasto mar de areia que se estende da província do Cabo, na África do Sul, até ao equador”, descrevem os Kew Gardens.

Esta planta foi uma de seis espécies de Barleria publicadas em 2021 em Angola e na Namíbia.

2. Uma orquídea fantasma em Madagáscar

Orquídea fantasma (Didymoplexis stella-silvae). Foto: © Johan Hermans/RBG Kew

Na verdade, esta orquídea fascinante é apenas uma entre 16 novas espécies de orquídeas descobertas na ilha de Madagáscar, no continente africano. “Muitas foram encontradas em locais remotos e que nunca tinham sido explorados e têm áreas de distribuição muito pequenas.” Quanto à orquídea “fantasma”, Didymoplexis stella-silvae, foi nomeada como a estrela da floresta, pois cresce numa escuridão quase completa e tem flores semelhantes a estrelas.

“A orquídea não tem folhas e depende inteiramente de fungos para obter energia. As suas flores únicas, brancas e brilhantes, abrem apenas imediatamente depois da chuva, antes de desaparecerem 24 horas mais tarde.”

Mas nem tudo são boas notícias. Os cientistas acreditam que três das 16 espécies de orquídeas agora nomeadas extinguiram-se na natureza antes da publicação dos artigos científicos, devido à destruição dos seus habitats.

3. Uma planta do tabaco que armadilha e mata insectos

Nicotiana insecticida. Foto: © Maarten Christenhusz

Na Austrália, foram baptizadas em 2021 sete plantas do tabaco, incluindo a Nicotiana insecticida. O nome sugestivo desta espécie explica-se porque está totalmente coberta por glândulas pegajosas e assim engana e mata regularmente pequenos insectos, incluindo mosquitos, afídeos e moscas. “Esta é a primeira vez que se conhece uma planta selvagem do tabaco que mata insectos.”

As sementes, recolhidas na Austrália Ocidental, foram cultivadas em estufas dos Kew Gardens, em Londres, onde continuam a ser armadilhas mortais para os minúsculos seres que as visitam.

4. Um novo fungo escondido numa semente de bananeira selvagem

Fusarium chuoi em cultura. Foto: © Marcelo Sandoval-Denis

O fungo microscópico Fusarium chuoi foi descoberto na semente de uma bananeira selvagem guardada na colecção do Banco de Sementes Millenium, em Sussex, no Reino Unido.

“Baptizado a partir da palavra vietnamita para banana, ‘chuoi’, reflectindo o país e a planta hospedeira onde foi descoberto, o Fusarium chuoi é aquilo que é conhecido por um endófito – um fungo microscópico que vive dentro de uma planta, sem lhe causar qualquer mal.”

5. Uma bonita prímula-do-Cabo em risco de extinção devido à exploração mineira

Primavera-do-Cabo Streptocarpus malachiticola. Foto: © Julie Lebrun

No último ano, foram descritas para a ciência cinco novas espécies de prímulas-do-Cabo (do género Strptocarpus) na República Democrática do Congo. As plantas deste género são muito cultivadas como ornamentais em diferentes locais do mundo, mas na natureza têm localizações muito restritas, pelo que ficam muito vulneráveis à extinção.

É o que se passa com a Streptocarpus malachiticola, uma das cinco espécies descobertas, localizada em Katanga, no Congo. O seu nome científico significa “que cresce na malaquite” – um cristal com alto conteúdo de cobre que é extraído das minas na província de Katanga, a principal região do país para a exploração mineira. Com os preços do cobre em alta devido à sua procura para as ligações eléctricas – nos carros eléctricos por exemplo – a espécie encontrada apenas em três locais foi classificada como Em Perigo de extinção, de acordo com os critérios da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).

6. Uma flor ameaçada pelas plantações de óleo de palma

Flor fogo-de-artifício Ardisia pyrotechnica. Foto: © Shuichiro Tagane.

A Ardisia pyrotechnica foi assim nomeada devido à semelhança das suas flores brancas com um fogo-de-artifício, quando nascem em Julho no meio do calor e humidade da floresta tropical. Também membro da família das prímulas, esta planta cresce até quatro metros de altura e foi encontrada nas florestas do Bornéu, a maior ilha da Ásia e terceira maior no mundo.

No entanto, a espécie está Criticamente em Perigo de extinção, o último degrau antes do desaparecimento na natureza, pois foram encontrados apenas dois pequenos grupos de plantas em dois locais diferentes. Ainda para mais, avisam os cientistas, está ameaçada pelas plantas de óleo de palma.

Até hoje já foram encontradas 700 espécies do género Ardisia nas florestas tropicais e subtropicais, mas muitas raras e ameaçadas de extinção.

7. Um raro fungo britânico com “dentes”

Cogumelo-dente Hydnellum nemorosum. Foto: © Martyn Ainsworth/RBG Kew.

Este fungo raro tinha sido recolhido nos terrenos da Coroa britânica no Parque de Windsor, mas só no ano passado foi nomeado para a ciência, chamado de Hydnellum nemorosum. “Encontrado a crescer no musgo de um castanheiro há 13 anos, os investigadores recolheram amostras que os micologistas usaram agora para descrever esta espécie nova para a ciência em 2021.”

Windsor é o único local conhecido para esta espécie – um dos raros cogumelos-dente que são hoje conhecidos. Estes apresentam pequenas protuberâncias em forma de dente na parte inferior dos chapéus, em vez das mais habituais lamelas. Este grupo dá-se bem em solos pobres com baixos níveis de nitrogénio, mas os seus números estão a diminuir na Europa devido à abundância de nitrogénio no ar. Por isso, são considerados espécies prioritárias para a conservação.

8. Uma pervinca com frutos comestíveis

Philibertia woodii. Foto: © Fernando Zuloaga

A nova Philibertia woodii é uma espécie invulgar de pervinca descoberta nos vales dos Andes, na Bolívia. Tem flores brilhantes e amarelas e frutos com o formato de ovos, parecidos com os kiwis, comestíveis quando são assados. As suas flores são também muito populares entre as borboletas.

Uma vez que muitas plantas da família das pervincas são medicinais, os cientistas esperam que o mesmo suceda com esta nova espécie para a Ciência.

9. Um lírio-vudu estranho e maravilhoso

Lírio-vudu Pseudohydrosme ebo. Foto: © Xander van der Burgt/RBG Kew

“Esta espécie extremamente rara está restringida a um pequeno canto da vasta e fantasticamente diversa Floresta Ebo dos Camarões, casa do povo Banen, de gorilas ameaçados, chimpanzés, elefantes de floresta e 75 espécies de plantas ameaçadas, incluindo oito únicas desta floresta.”

As flores dos lírios-vudu nascem de um tubérculo debaixo da terra quando as folhas da planta morrem e podem atingir 30 centímetros de altura. Esta nova espécie é a única do género conhecida nos Camarões, enquanto que todas as outras estão no Gabão, país vizinho.

10. Um arbusto do Bornéu pintado em 1876… e nomeado em 2021

As bagas azuis e brilhantes de uma espécie de Chassalia. Foto: © YW Low

Entre as as várias espécies de arbustos tropicais de bagas azuis, pertencentes à família das plantas do café (Rubiaceae) e descritos para a ciência em 2021, encontra-se a nova Chassalia northiana. Esta planta do Bornéu terá sido a primeira do género a ser ilustrada, numa pintura a óleo pela britânica Marianne North, em 1876. A Chassalia northiana foi baptizada em homenagem à artista.


Saiba mais.

Conheça aqui a história da nova Uvariopsis dicaprio, baptizada em honra do actor como agradecimento pela ajuda que deu à sobrevivência da Floresta Ebo.

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.