Tritão-marmoreado fotografado na Peneda-Gerês. Foto: Eduard Solà/Wiki Commons

Stress causado pela invasora perca-sol foi afinal o que dizimou os anfíbios do Gerês

Uma equipa de investigadores recorreu às colecções de anfíbios no Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC) para fazer uma viagem ao passado, que trouxe interessantes descobertas.

Até agora, acreditava-se que a perca-sol, um peixe exótico introduzido no Gerês em meados dos anos 1990, teria sido o veículo transmissor do ranavírus, um vírus que levou ao colapso das comunidades de anfíbios um pouco por toda a Europa no final dessa mesma década, especialmente em Portugal e Espanha. Esta doença causa ulcerações e hemorragias na pele destes animais.

No entanto, um novo estudo publicado esta terça-feira, na revista Nature Communications, veio mostrar que a história do ranavírus poderá ser bem mais complexa, estando ligada afinal à perturbação e ao stress provocados pela introdução de uma nova espécie exótica.

A Lagos dos Carris, uma lagoa de 1,5 hectares situada a 1500 metros de altitude, dentro da área de protecção total do Parque Nacional da Peneda-Gerês, foi o sítio escolhido para esse estudo realizado por uma equipa de investigadores liderada por Gonçalo Rosa, do cE3c – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Lagoa dos Carris. Foto: Gonçalo Rosa, cE3c

Há cerca de duas décadas, esta lagoa era conhecida por conter uma comunidade diversa de anfíbios, como a rã-verde e o sapo-parteiro-comum, sendo um sítio importante de nidificação para o tritão-marmoreado, recorda o artigo científico agora publicado. Entretanto, as primeiras mortes de tritão-marmoreado, causadas pelo ranavírus, foram registadas em 1998 e os números desta espécie caíram drasticamente. Outras espécies foram também fortemente afectadas, como o sapo-parteiro-comum, que desde 2004 não foi mais observado nesta lagoa.

Tritão-marmoreado com as ulcerações típicas da ranavirose, fotografado no Gerês. Foto: Gonçalo Rosa, cE3c

Guardados há 40 anos

Numa tentativa de perceber o que terá sucedido, os investigadores extraíram e analisaram o ADN de tritões-marmoreados recolhidos na Lagoa dos Carris na década de 1980, que estavam guardados nas colecções do MUHNAC. Estes tritões tinham sido apanhados mais de uma década antes das primeiras mortes por ranavírus.

A equipa comparou ainda essas amostras com as de tritões-marmoreados recolhidos durante as epidemias (2001-2004) e depois (2015-2020), e ainda com amostras de perca-sol apanhada na mesma lagoa. Foram ainda analisados outros anfíbios, recolhidos noutros locais do Gerês.

Amostragem na Lagoa dos Carris. Foto: Gonçalo Rosa, cE3c

“Surpreendentemente, descobriram que os anfíbios [tritões-marmoreados] das coleções também estavam infectados com ranavirus, cerca de 10 anos antes dos surtos e da introdução da perca-sol”, explica um comunicado divulgado pelo cE3c. “Quando comparadas as estirpes de ranavirus dos anfíbios e da perca-sol verificou-se ainda que eram efetivamente diferentes, e que a mortalidade foi provocada pelo vírus que já estava em circulação desde os anos 80.”

Mas de onde teria vindo então esse vírus? Tal como alguns estudos anteriores, os investigadores sugerem que esse grupo de ranavírus “poderá ter-se originado na Europa e ter uma associação antiga com os anfíbios”. Ao invés de ter sido introduzido pela perca-sol, o ranavírus já estaria alojado nas suas vítimas desde há muito tempo, mas num estado adormecido, sem as afectar.

O problema da perca-sol

Mas a perca-sol não fica isenta de culpas, pois continua a estar associada à mortandade causada pelo ranavírus no Gerês: terá sido a perturbação causada pela entrada deste peixe-invasor no ecossistema que causou altos níveis de stress e “uma disrupção do sistema imunitário dos anfíbios”, levando a que a relação destes animais com o vírus de que eram hospedeiros ficasse desequilibrada, consideram os investigadores.

“A descoberta realça assim a importância de se proceder à remoção da perca-sol do Parque Nacional da Peneda-Gerês (e de outros ecossistemas), para que as populações de anfíbios possam recuperar a sua resistência e prosperar.”

Para Gonçalo Rosa, esta descoberta “virou a história do avesso” e veio demonstrar que “os grandes surtos podem não acontecer pelo aparecimento de um novo agente patogénico, mas antes resultar da rutura de um equilíbrio ecológico estabelecido”.


Saiba mais.

Na Serra da Estrela, o ranavírus tem também provocado um declínio preocupante de alguns anfíbios, como o tritão-de-ventre-laranja.

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.