Em Portugal, há pelo menos 163 espécies de formigas, incluindo 24 exóticas

Foto: Furcifer pardalis/VisualHunt.com

Dos mais de 20 mil biliões de formigas que se estima existirem no mundo, uma pequena parte pode ser encontrada em Portugal. A Wilder falou com Roberto Keller, especialista nestes insectos tão comuns do nosso dia-a-dia, mas sobre os quais sabemos tão pouco.

 

As formigas estão entre os insectos que primeiro conhecemos quando somos ainda crianças. Afinal, estão por quase todo o lado – mesmo nos sítios onde são indesejadas – e como não têm asas, são relativamente fáceis de observar (e de capturar). E no entanto, a maior parte de nós sabe muito pouco sobre estes pequenos insectos.

Um novo artigo científico, publicado na última semana, trouxe agora mais informação: uma equipa de cientistas concluiu que as formigas totalizam pelo menos cerca de 20 mil biliões (“quadrillions” no original em inglês) de indivíduos por todo o mundo, que se dividem em mais de 15.700 espécies e subespécies.

Em Portugal, o número de espécies conhecidas é bastante menor, embora com expectativas de crescimento: existe registo de 139 espécies nativas de formigas em território nacional. A essas, juntam-se outras 24 espécies exóticas, ou seja, provenientes de fora do país, incluindo pelo menos uma que se tornou invasora – a formiga-argentina -, especifica Roberto Keller, investigador no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, onde é o curador da colecção de himenópteros.

É precisamente à ordem dos himenópteros – ou Hymenoptera – que pertencem as formigas, juntamente com as abelhas e as vespas, pois todas partilham um antepassado comum. E dentro desta ordem, formam a vasta família das Formicidae.

Mas tal como todos os outros insectos, as formigas têm o corpo dividido em três secções – cabeça, tórax (com três pares de patas) e abdómen -, só que este último tem um pequeno subsegmento na parte da frente: “Dessa forma, parece que o corpo das formigas está dividido em quatro segmentos, em vez de três, e existem mesmo espécies cujo corpo parece ter cinco divisões”, descreve o investigador, que está também ligado ao cE3c – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, da Universidade de Lisboa.

Foto: Pedro Moura Pinheiro/Visual Hunt

“Por outro lado, as formigas que mais comumente podemos encontrar não têm asas, pois pertencem às chamadas castas obreiras”, lembra Roberto Keller. “Essa é sem dúvida a primeira característica de que nos lembramos quando pensamos numa formiga. Embora existam muitos outros insectos sem asas, não existem mais nenhuns que tenham mais do que três divisões no corpo.”

Por fim, Roberto Keller destaca o que para ele a característica “mais carismática” destes pequenos seres: o facto de serem “insectos sociais”, pois “estão organizadas em colónias”, dentro das quais “as tarefas são divididas entre indivíduos especializados”.

As formigas não páram na fronteira

É nas florestas tropicais e nas savanas que existe um maior número de formigas, segundo o estudo publicado na última semana. Mas não só ali, como por todo o mundo, estes pequenos insectos têm papéis muito importantes nos ecossistemas: ajudam a dispersar sementes, arejam os solos, abrigam outros organismos e servem também como predadores e como presas de muitos outros animais.

Hoje em dia, incluindo em Portugal, os cientistas acreditam que são também polinizadores importantes de várias plantas.

Por aqui, uma vez que o país é “relativamente pequeno” e corresponde a “ambientes temperados e mediterrânicos na sua parte continental”, Roberto Keller explica que as 139 espécies nativas conhecidas estão dentro da média, pois “não existe um grande número de espécies em comparação com países de maior extensão e de climas tropicais”.

Ainda assim, ressalva, “este reduzido número de espécies não quer dizer que Portugal não seja interessante do ponto de vista da sua biodiversidade, porque as formigas são elementos abundantes e dominantes nos nossos ecossistemas terrestres”.

Certo é que em território nacional existem mais espécies do que aquelas que são já conhecidas pelos cientistas, acredita o especialista. “Por estranho que pareça, a fauna de formigas de Portugal não tem sido estudada ao detalhe que merece este importante grupo de insectos”, sublinha.

“Basta olhar para os mapas de distribuição de espécies de formigas em Espanha [com 275 espécies nativas registadas], onde o esforço de investigação nesta área tem sido muito mais intensivo ao longo dos anos, para perceber que existem várias espécies conhecidas desde a Galiza até Sevilha que nunca foram observadas em Portugal. Não existe razão nenhuma para estas espécies estarem a fugir da fronteira com Portugal!”, nota Roberto Keller. “A resposta mais razoável é que a ausência destas espécies é o resultado de um menor esforço de estudo no nosso país.”

Nota: O título e este artigo foram alterados a 5/10/2022, para esclarecer que em Portugal podem encontrar-se 24 espécies de formigas exóticas, das quais apenas uma é considerada invasora, a formiga-da- e não 24 espécies de formigas invasoras. 

 


Saiba mais.

Descubra porque é que nesta altura do ano, depois de chover, aparecem centenas de formigas com asas.

E fique a conhecer quatro espécies de formigas comuns em Portugal.

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.