Leitores: João Almeida foi apanhado de surpresa por uma gralha atrevida

Gralha-preta. Foto: Sharp Photography / WikiCommons

Durante um passeio no parque da Bela Vista, em Lisboa, João fotografou um facto insólito que envolveu uma gralha-preta e dois periquitos-de-colar, algo que o deixou muito surpreendido.

 

Foi num dia da última semana, a 12 de Outubro, que João Almeida passeava pelo parque da Bela Vista para “fotografar alguma da biodiversidade que ía encontrando”, como acontece muitas vezes, quando viu algo em que nem queria acreditar: “uma gralha-preta!”, contou à Wilder.

Foto: João Almeida

Poucos minutos depois, este apreciador da natureza na cidade percebeu que afinal não era apenas uma, mas três gralhas-pretas (Corvus corone) que andavam por ali. “Sendo da família dos corvídeos, os membros desta espécie são realmente inteligentes, rivalizando com espécies como papagaios ou até chimpanzés em certos testes”, comentou João, que até agora, em Lisboa, só tinha visto aves desta espécie sozinhas. “Até agora este foi o maior bando que vi na cidade.”

Ainda assim, como cresceu no campo perto de uma área urbana, na zona de Tomar, João estava muito habituado a observar estas aves num ritmo diário: “desde a tentativa de afastarem rapinas, esconderem alimentos ou até mesmo em brincadeiras [umas com as outras], foi sempre algo que tive oportunidade de ver”, lembrou.

Foto: João Almeida

Quando pensou que as gralhas se tinham ido embora e já não as veria mais, este leitor reparou numa dessas aves que “a voar tentava escapar de dois periquitos-de-colar que a perseguiam, como se de um ataque se tratasse”.

O instinto foi pegar na câmara fotográfica e “tentar focar e disparar”, mas a seguir quando fez ‘zoom’ à imagem teve uma grande surpresa: “Percebi que esta gralha tinha ‘assaltado’ um ninho de um destes periquitos e roubado um ovo”, descreveu. “Fiquei maravilhado e em choque.”

Gralha-preta com um ovo no bico, perseguida por um periquito-de-colar. Foto: João Almeida

Os periquitos-de-colar (Psittacula krameri), uma ave invasora muito observada na área da Grande Lisboa, tiveram um forte crescimento nos últimos anos. Estima-se que  aumentaram entre oito a nove vezes em território nacional desde 2008, concluiu recentemente um censo coordenado pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA).

“Bichos oportunistas”

“Em relação a [ovos de] periquitos-de-colar não sabia [até hoje] de nenhum caso”, comentou Gonçalo Elias, coordenador do portal Aves de Portugal, contactado pela Wilder. Ainda assim, este ornitólogo lembrou que “as gralhas-pretas são bichos oportunistas, que podem predar ovos de outras aves quando os apanham ‘a jeito'”.

Como refere o livro Aves de Portugal, do qual Gonçalo Elias é co-autor, a dieta das gralhas-pretas “é constituída sobretudo por invertebrados e grãos de cereais”, mas “inclui também com frequência ovos e crias de outras aves”, além de outros alimentos. Na Lagoa de Santo André, por exemplo, “esta espécie é uma temível predadora de ninhos, destruindo inúmeras posturas de pato-real, de galeirão e de chilreta”, acrescenta a mesma obra.

Já a presença de gralhas-pretas, em especial na zona oriental da cidade como sucede com o Parque da Bela Vista, é “regular”, acrescenta o mesmo especialista. “Embora não sejam abundantes, aparecem com alguma frequência.”

 


Saiba mais.

Aprenda a reconhecer a silhueta e os gritos roucos da gralha-preta no portal Aves de Portugal.

E conheça melhor João Almeida pela sua conta no Instagram.

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.