Periquito-de-colar. Foto: Nicolas Renac (CCBYNC20)

Periquitos-de-colar aumentaram entre oito a nove vezes em Portugal desde 2008

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Os resultados finais do censo nacional do periquito-de-colar, realizado entre 2020 e 2022, apontam para várias novidades importantes. A Wilder falou com o coordenador, Hany Alonso, e conta-lhe o que se passa.

São esverdeados e de bico laranja e também extremamente ruidosos e fora da época de reprodução agrupam-se em árvores-dormitório quando chega o final do dia. Para muitos habitantes da Grande Lisboa ou de cidades como Setúbal e o Porto, os periquitos-de-colar ou periquitos-rabijuncos (Psittacula krameri) já fazem parte da paisagem, mas até hoje sabia-se pouco sobre a situação desta espécie exótica em Portugal, onde foi avistada pela primeira vez em liberdade em 1977.

Agora, devido aos dados obtidos através do censo nacional de periquito-de-colar, organizado pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) entre 2020 e 2022, estima-se que haverá no país entre 2.200 e 2.500 destas aves – um número que é “oito a nove vezes superior à situação em 2008, quando foram estimadas 270 aves a partir de contagens num dormitório do Jardim da Estrela, em Lisboa, e de registos transmitidos por observadores”, indicou o coordenador do censo a nível nacional, Hany Alonso, à Wilder.

Dos periquitos contados pelos voluntários, a grande maioria – 87% – estão na área da Grande Lisboa, onde a espécie “está completamente estabelecida”. Além do concelho de Lisboa, destacam-se também Cascais, Amadora e Sintra. Foi aqui que se encontraram os maiores dormitórios destas aves, de um total de 33 identificados em várias zonas do país.

De todos, o maior é o dormitório do Campo Grande, no centro de Lisboa, conhecido já há vários anos, onde se estima que haverá 454 a 740 aves. Seguem-se São Domingos de Rana, concelho de Cascais (316 a 318 aves), Rio de Mouro, Sintra (290), Águas Livres/Venteira, na Amadora (250-270), e ainda Carnide, na zona de Benfica (entre 20 e 296). “Ficámos a conhecer vários dormitórios com centenas de aves cada um”, indica o responsável da SPEA.

Periquito-de-colar (Psittacula krameri). Foto: Dick Daniels/Wiki Commons

A grande discrepância entre números mínimos e máximos de periquitos em Carnide pode causar estranheza, mas traduz uma das descobertas no âmbito do censo. É que “muitas vezes as aves não usam sempre o mesmo dormitório e recorrem a dormitórios alternativos, o que fez com que numa contagem simultânea em vários dormitórios houvesse uma surpresa: ‘Ah!, não está cá ave nenhuma’.”

Por outro lado, no concelho de Oeiras, apesar de se avistarem muitos destes periquitos, não se descobriu qualquer dormitório. “Na maior parte dos casos as aves deslocavam-se para os dormitórios dos concelhos vizinhos, como Amadora ou Cascais.”

Outra novidade é que surgiram populações de periquitos-de-colar em várias cidades onde não tinham sido registadas em 2008: Porto, Vila Nova de Gaia, Caldas da Rainha, Coimbra, Setúbal. Tirando a Grande Lisboa e essas localidades, além de um dormitório encontrado no concelho de Trancoso, na Guarda, “no resto do país os números são de poucas aves”, adianta Hany Alonso.

Crucial para a realização destas contagens foi a realização de uma iniciativa de ciência cidadã que desafiou todos os cidadãos a reportarem o avistamento de periquitos-de-colar ao final do dia, de forma a encontrar mais dormitórios.

“Mais de 500 pessoas participaram na acção de ciência cidadã, com 727 registos de periquitos. Muitas vezes os registos permitiram circunscrever a área onde estava um dormitório ou mesmo localizá-lo”, indica Hany, que nota que “a prospecção em meio urbano é difícil”.

Fugas de gaiola mantêm-se

Nativas de países como a Nigéria e o Sudão, localizados na África Tropical e Subtropical, e também da Índia e sul do Paquistão, os periquitos-de-colar são muito populares em cativeiro. Sabe-se que foi precisamente devido a fugas de gaiolas que estas aves sonoras se terão espalhado por muitos países do mundo, incluindo na Europa, como Inglaterra, Holanda, Bélgica e Espanha, e também Portugal. “Em 2015, havia pelo menos 90 populações reprodutoras em 10 países europeus”, recorda Hany Alonso.

O problema é que esse problema não ficou no passado. Além de dormitórios com centenas ou dezenas de aves, foram também observados “muitos indivíduos isolados que se acredita que resultam de fugas de cativeiro, uma vez que a espécie não parece ter uma capacidade de dispersão muito grande”.

No total, os voluntários do censo detectaram 23 periquitos-de-colar isolados ou em pares, em zonas sem núcleos populacionais identificados, como Nazaré, Felgueiras e Alvor. Houve aliás seis registos de aves com fenótipos não selvagens – azuis ou amarelos.

“É muito evidente que as fugas continuam a ser muito frequentes e podem estar a contribuir para a formação de novos núcleos populacionais, como em Trancoso, na Guarda, que é relativamente recente”, sublinha o mesmo responsável.

Mas qual é o problema?

Nos países de onde é nativo, o periquito-de-colar é conhecido por ter impacto nas culturas agrícolas, o que para já em Portugal e noutros países onde foi introduzido parece não estar a acontecer.

Por outro lado, sabe-se hoje que esta ave compete com espécies nativas pelos mesmos locais de nidificação, normalmente buracos em troncos de árvores, como acontece com o mocho-d’orelhas, adianta Hany Alonso. Pode haver também competição por alimentos com outros animais.

Mocho d’orelhas (Otus scops). Foto: Imran Shah/Wiki Commons

Quanto ao futuro, para impedir que o aumento dos números de periquitos se transforme num problema, é importante “limitar a comercialização e criação” destas aves em Portugal, sublinha o coordenador do censo. Uma solução poderá ser a inclusão desta espécie na lista oficial de espécies invasoras (Decreto-Lei n.º92/2019), que proíbe a venda e a criação em cativeiro a não ser em casos excepcionais, lembra. Em todo o país, só na Madeira é que a espécie é legalmente considerada invasora.

Importante também é “continuar a monitorizar os números e a distribuição geográfica” destas aves, tal como estudar a sua dieta – um projecto que está em curso – e “investigar os potenciais impactos sobre as espécies nativas, assunto que tem pouca informação a nível nacional”.


Conte as Aves que Contam Consigo

A série Conte as Aves que Contam Consigo insere-se no projeto “Ciência Cidadã – envolver voluntários na monitorização das populações de aves”, dinamizado pela SPEA em parceria com a Wilder – Rewilding your days e o Norwegian Institute for Nature Research (NINA) e financiado pelo Programa Cidadãos Ativos/Active Citizens Fund (EEAGrants), um fundo constituído por recursos públicos da Islândia, Liechtenstein e Noruega e gerido em Portugal pela Fundação Calouste Gulbenkian, em consórcio com a Fundação Bissaya Barreto.

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.