O que está a acontecer no Verão: As crias de andorinha-do-mar-anã e de borrelho andam pelas praias

Crias de andorinha-do-mar-anã. Foto: Joana Andrade

Em época de reprodução, estas aves partilham a areia de praias portuguesas com os veraneantes, pelo que é necessária uma atenção extra se estiver de férias no Litoral, avisam Joana Andrade e Rui Machado, da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA).

Por estes dias a época de reprodução dos andorinhas-do-mar-anãs e dos borrelhos-de-coleira-interrompida já vai adiantada, mas em várias praias portuguesas há ainda aves nascidas há pouco tempo e até mesmo minúsculos ovos que se confundem com a areia, dentro de ninhos pequeninos que podem ser facilmente pisados.

É a partir de meados de Abril que se nota a presença das pequenas andorinhas-do-mar-anãs (Sternula albifrons), também conhecidas por chilretas, vindas de África. Estas aves de bico amarelo com ponta preta deslocam-se então para as zonas de reprodução que se situam em várias áreas húmidas do país, como a Ria de Aveiro, os estuários do Mondego e do Tejo e em especial no Sotavento Algarvio: Ria Formosa, Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António.

Andorinha-do-mar-anã, no Algarve. Foto: Francesco Veronesi/Wiki Commons

“Estas aves concentram-se em números elevados em colónias, com várias dezenas de indivíduos”, descreve Joana Andrade, coordenadora do Departamento de Conservação Marinha na SPEA. E é então que se iniciam os rituais de acasalamento da espécie: “Os machos capturam pequenos peixes e voam com estes no bico, enquanto emitem os sons de chamamento, na tentativa de atraírem uma fêmea para copularem.” Na Ria Formosa, por exemplo, o alimento preferido é o peixe-rei.

Tal como as andorinhas-do-mar-anãs, os borrelhos-de-coleira-interrompida (Charadrius alexandrinus) tanto procuram zonas de salina como praias para nidificar. Mas ao contrário das primeiras, permanecem mais isolados uns dos outros, indica Rui Machado, técnico de conservação na SPEA. Estas aves podem ver-se em Portugal todo o ano, mas os números crescem na Primavera, quando borrelhos vindos de África se juntam à população residente. Parecem ter uma espécie de coleira incompleta à volta do pescoço e podem ser encontrados em zonas de estuário na costa portuguesa – salinas, zonas lagunares costeiras e praias, onde andam pela beira-mar à caça de insectos, moluscos e pequenos peixes.

Borrelho-de-coleira-interrompida. Foto: David Raju/Wiki Commons

Quanto aos ninhos, as andorinhas-do-mar-anãs escolhem dunas com pouca ou nenhuma vegetação e mesmo zonas mais próximas da linha de água, onde se arriscam a conviver com os veraneantes estendidos nas toalhas. E constroem estruturas muito simples, praticamente invisíveis: “Por vezes reúnem algumas pedrinhas e conchas que estão perto, outras vezes usam apenas uma covinha no areal”, descreve Joana Andrade, que compara o tamanho dos ninhos a uma tigela de sopa.

Ovos que se confundem com a areia

Os próprios ovos, minúsculos – cerca de três por cada ninho – “são acastanhados com manchinhas mais escuras, e por isso confundem-se com a areia”. Já as crias, se pressentirem perigo, ficam completamente imóveis, de olhos fechados. Esta estratégia de camuflagem é boa para enganar predadores, como gatos, gaivotas e alcaravões. Todavia, é péssima quando chegam os turistas à praia, já que distraidamente podem pisar os ovos ou as pequenas aves, alerta Joana Andrade.

Os ovos de andorinha-do-mar-anã têm 3,2 cm de comprimento e 2,3 cm de largura, em média. Foto: Joana Andrade

O mesmo acontece com os borrelhos-de-coleira-interrompida: constroem os ninhos em pequenas depressões na areia, por vezes com conchas e pedrinhas e com dois a três ovos minúsculos em cada. Neste caso, ao contrário das andorinhas, preferem dunas com vegetação, adianta Rui Machado, mas mesmo assim é necessário ter cuidado para não destruir um ninho: “Os ovos são claros e pintalgados, confundem-se com a areia.”

Tanto numa espécie como noutra, as crias nascem em poucas semanas: 22 dias no caso das andorinhas, 24 a 27 dias nos borrelhos. E logo no dia em que eclodem os ovos, passadas poucas horas, andorinhas-do-mar-anãs (ainda com sete gramas de peso) e borrelhos-de-coleira-interrompida começam a caminhar na areia – e por isso pertencem ao grupo das aves nidífugas.

Crias de andorinha-do-mar-anã. Foto: Joana Andrade

Por estes dias, ainda podem encontrar-se nalgumas praias crias e juvenis das duas espécies, que demorarão entre 22 dias a um mês para começarem a voar. No caso da andorinha-do-mar-anã – lembra Joana Andrade – quando os ovos ou crias não sobrevivem as aves fazem uma segunda postura, pelo que nesta altura do ano também pode haver ovos ou andorinhas recém-nascidas.

E se deparar com aves muito agitadas?

Quando pressentem o perigo – por exemplo, se alguém se aproximar do ninho ou das crias, andorinhas-do-mar-anãs e borrelhos-de-coleira-interrompida adoptam estratégias diferentes às quais é melhor ter atenção. No caso das primeiras, as crias permanecem imóveis e de olhos fechados, mas os adultos assumem a defesa.

“As aves adultas investem sobre a ameaça, fazendo voos picados, e as outras andorinhas-do-mar-anãs juntam-se para debelar o perigo”, explica Joana Andrade, que lembra que esta espécie nidifica em colónias, com os ninhos próximos uns dos outros. “Estas aves nidificam pela praia, não estão só nas dunas. E por isso, se depararmos com uma grande agitação ao pé de nós, em vez de estarmos a olhar para cima devemos ter muito cuidado onde pomos os pés”, alerta. Mais ainda se andarmos com um cão, mantendo-o sempre bem preso pela trela.

Placa de aviso rodeada por crias de andorinha-do-mar-anã, numa praia portuguesa. Foto: Tânia Nascimento

No caso dos borrelhos, em que os ninhos costumam estar mais longe uns dos outros, a estratégia adoptada é um pouco diferente, mas é igualmente um aviso para observarmos o caminho com atenção. Quando se sentem ameaçadas, estas aves tentam atrair para si os possíveis predadores: fingem-se feridas, arrastando uma das asas enquanto caminham pela areia. Só depois de terem sucesso nesse estratagema levantam voo.


Saiba mais.

Aprenda mais sobre a nidificação dos borrelhos-de-coleira-interrompida, aqui, e sobre o trabalho de protecção dos ninhos que está a ser feito nas salinas do Samouco, no estuário do Tejo.

Quanto às andorinhas-do-mar-anãs, esteja atento às placas e vedações que indicam a presença de zonas de nidificação da espécie, colocadas em várias praias da Ria Formosa no âmbito do projecto LIFE Ilhas Barreira: Praia de Faro, Praia da Fuseta e colónia de Hangares (ilha da Culatra). E se encontrar uma colónia por assinalar, avise as autoridades (SEPNA/GNR ou Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas), para que a protejam.

Para descobrir mais sobre estas e outras aves do litoral português, consulte também o Atlas das Aves Marinhas de Portugal.

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.