Quebra-ossos. Foto: Francesco Veronesi/Wiki Commons

Cientistas descobrem ninho de quebra-ossos na região de Leiria com 29.000 anos

Arqueólogos portugueses e espanhóis encontraram vestígios do mais antigo local de nidificação deste abutre na Península Ibérica. A espécie desapareceu de Portugal há mais de um século.

O estudo publicado esta semana na revista Scientific Reports levanta um pouco do véu sobre a presença dos quebra-ossos (Gypaetus barbatus) em Portugal há milhares de anos, junto ao abrigo rochoso do Lagar Velho, no Vale do Lapedo. Nessa época aqui habitavam também grupos de caçadores-recolectores do Paleolítico Superior, nómadas, que para trás deixaram vestígios de uso do fogo.

A descoberta do ninho de quebra-ossos mais antigo da Península Ibérica, agora anunciada, baseou-se na análise dos muitos coprólitos (excrementos fósseis) encontrados no local e na sua comparação com os excrementos dos quebra-ossos da actualidade. “Há muito pouca diferença entre os excrementos de hoje e os de há 30.000 anos, praticamente apenas a cor, e isso dá-nos uma grande confiança na hora de fazermos as identificações”, afirmou Montserrat Sanz, que liderou a pesquisa e a escrita do artigo científico, citada num comunicado da Universidade de Barcelona, na qual é investigadora. Da equipa fazem também parte duas arqueólogas portuguesas da Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC), Ana Cristina Araújo e Ana Costa.

Coprólitos com cerca de 29.000 anos, analisados durante este estudo. Fonte: Universidade de Barcelona

O quebra-ossos é a única espécie animal cuja alimentação se baseia quase exclusivamente em ossos, que consegue digerir graças aos ácidos fortes do seu estômago. Quando se depara com ossos maiores, que não consegue engolir, atira-os do alto de forma a caírem em superfícies rochosas, conseguindo assim que se quebrem em pedaços. E dessa forma, consegue chegar também à medula guardada no interior, um alimento valioso.

A equipa encontrou no abrigo do Lagar Velho vestígios dos ossos que terão sido recolhidos por estes abutres há cerca de 30.000 anos, um achado que já tinha ajudado a identificar outros quatro antigos locais de nidificação do quebra-ossos no sul da Europa: Gritulu (Córsega), Grotte Noisetier (França), El Mirón (Espanha) e ainda a gruta do Caldeirão em Tomar – embora esta última esteja por confirmar.

Quanto ao sítio arqueológico do Lagar Velho, os investigadores acreditam que os quebra-ossos usavam as escarpas mais acima para nidificar, uma vez que o local está situado na base de um penhasco de rocha calcária, caracterizado “por grandes paredes verticais e fendas horizontais e bordas”. “É plausível que o quebra-ossos nidificasse nestas prateleiras suspensas, algumas localizadas entre cinco a 20 metros acima do solo e do abrigo rochoso”, escrevem no artigo publicado.

A equipa de investigadores responsável pelo achado. Da esquerda para a direita, Joan Daura, Ana Cristina Araújo, Montserrat Sanz e Ana Costa. Foto: D.R.

Este achado ajuda também a perceber melhor como terá sido a presença deste abutre em território português. De acordo com o portal Aves de Portugal, o único registo conhecido de indivíduos selvagens desta espécie diz respeito a duas aves abatidas pelo Rei D. Carlos I, no Rio Guadiana, em Junho de 1888, conservadas hoje no Museu de Coimbra.

Actualmente o quebra-ossos está extinto em Portugal e a sua presença limita-se a poucas áreas em Espanha, como os Pirinéus, mas há mais de 200 anos era “comum nos sistemas montanhosos ibéricos”, afirmam por sua vez os cientistas, no artigo da Scientific Reports.

Pólen ajuda a fazer retrato do ambiente natural

A partir de grãos de pólen encontrados no interior dos coprólitos, foi possível fazer-se também um retrato de como seria o ambiente natural na região. A equipa identificou pólen de uma grande diversidade de espécies de plantas, incluindo pinheiros, gramíneas, urzes, artemísias, zimbros e carvalhos (Quercus spp.). A análise dos pólens “apontou para uma paisagem semi-florestada, caracterizada por uma rica diversidade de árvores e arbustos que rodeavam o local, há cerca de 29.000 anos”.

Na Península Ibérica, o quebra-ossos tem sido alvo de várias iniciativas de reintrodução em território espanhol. Sempre que um abutre desta espécie é avistado em território português, vinda do outro lado da fronteira – como aconteceu pelo menos nove vezes desde 2011 – é motivo de notícia entre a comunidade de observadores de aves.

O artigo agora publicado descreve também cientificamente os excrementos fósseis desta espécie, de forma a facilitar a sua identificação noutras escavações arqueológicas.

Deste abrigo, saiu o “menino do Lapedo”

Mas esta não é a primeira descoberta arqueológica importante no abrigo do Lagar Velho, explicaram à Wilder as duas arqueólogas portuguesas co-autoras do artigo científico, Ana Cristina Araújo e Ana Maria Costa.

“Foi aqui descoberto, em 1998, numa reentrância existente na parede de fundo do abrigo, o esqueleto de uma criança que faleceu no decurso do seu quinto ano de vida. Esta criança, internacionalmente conhecida como Menino do Lapedo, foi cuidadosamente enterrada pelo seu grupo há 29.000 anos atrás”, recordaram as duas investigadoras, numa entrevista escrita. “As características anatómicas observadas no esqueleto infantil levantaram, na altura da sua descoberta e estudo, à hipótese da miscigenação entre populações neandertais e populações anatomicamente modernas, uma possibilidade que desafiou a ciência e os investigadores e que conduziu ao conhecimento que hoje temos da nossa filogénese mais recente. Hoje, a criança do Lapedo é Tesouro Nacional”, sublinham. 

Os arqueólogos também já documentaram neste local “vestígios relacionados com o desenvolvimento de distintas actividades, da caça ao fabrico de instrumentos em pedra e em osso”, acrescentam as duas responsáveis. Nesta época do Paleolítico Superior, os humanos “eram como nós: Sapiens sapiens“, que “viviam em pequenos grupos, explorando os recursos naturais para sobreviverem”. Já utilizavam ferramentas e armas de caça, feitas essencialmente a partir da pedra mas também de ossos, para a produção de pontas nas armas de caça.

E terão convivido, humanos e quebra-ossos, ao mesmo tempo e no mesmo local? Como os actuais trabalhos de escavação iniciados em 2018 continuam ainda, é cedo para colocar hipóteses sobre a convivência entre as duas espécies, sublinham as investigadoras.

Todavia, se tiver acontecido como na gruta de El Mirón, na região espanhola da Cantábria, é improvável que tenha havido um convívio directo entre humanos e quebra-ossos, indica a equipa, no artigo agora publicado. Em El Mirón, “o quebra-ossos usou a caverna intermitentemente para nidificar ao longo de cerca de 5000 anos, enquanto que as ocupações humanas estavam limitadas aos meses de Verão, quando as crias de abutre já teriam abandonado os ninhos. Assim, humanos e aves necrófagas nunca partilhavam o mesmo espaço em simultâneo.”

Ana Cristina Araújo e Ana Maria Costa, além de estarem ligadas ao LARC – Laboratório de Ciências da DGCP, também são investigadoras no BIOPOLIS-Cibio, da Universidade do Porto. Ana Cristina Araújo tem também ligação ao Uniarq – Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa, e Ana Maria Costa ao Instituto Dom Luís e ao IIIPC – Instituto Internacional de Investigaciones Prehistóricas de Cantabria.

[Artigo actualizado às 23h00 de 4/02, com declarações das duas arqueólogas portuguesas.]


Saiba mais.

Releia o artigo de Daniel Veríssimo sobre o eventual regresso do quebra-ossos ao território português, que aliás já está a ser analisado. E recorde também o regresso da espécie ao norte de Espanha, anunciado em Maio passado.

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.