Abutre-preto num ninho no Parque Natural do Tejo Internacional, a proteger a cria do sol. Foto: Quercus ANCN

Em perigo: Este ano nasceram 10 crias de abutre-preto no Tejo Internacional

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No Dia Internacional dos Abutres, este sábado, a Quercus divulgou um balanço sobre os abutres-pretos na área que alberga a maior população da espécie em Portugal, alertando também para as várias ameaças que continuam a afectar as aves necrófagas por todo o país.

 

O número de abutres-pretos no Parque Natural do Tejo Internacional aumentou este ano em mais uma dezena, com um total de 10 jovens crias que sobreviveram aos primeiros meses e começaram a voar, anunciou a Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza. Em 2021, tinham nascido 13 crias nesta área protegida junto à fronteira com Espanha; no ano anterior, tinham sido 17.

“As crias foram marcadas [com anilhas metálicas e com anilhas de cor em pvc], foi monitorizado o seu estado sanitário e foram recolhidas amostras para dar continuidade aos estudos de toxicologia”, indicou a direcção regional de Castelo Branco da Quercus num comunicado enviado à Wilder, adiantando que três destes abutres nasceram em terrenos geridos por esta organização não governamental de ambiente: uma das crias numa plataforma-ninho artificial e outras duas em ninhos naturais.

Marcação de uma das crias com anilhas de cor, em pvc. Foto: Quercus ANCN

O abutre-preto (Aegypius monachus), o maior abutre da Europa, é uma ave necrófaga ameaçada que em Portugal está desde 2005 classificada como Criticamente em Perigo, o grau mais elevado de ameaça. É que durante cerca de 40 anos não houve qualquer reprodução da espécie em território português, onde só em 2010 voltaram a nascer abutres-pretos.

O Parque Natural do Tejo Internacional, área protegida que se estende por mais de 26.000 hectares no distrito de Castelo Branco, alberga a maior população destas aves em Portugal e representa agora “mais de 70% da população nacional”, segundo a Quercus. Ali nidificaram este ano 31 casais de abutre-preto.

Pormenor da cabeça de uma cria de abutre-preto durante a marcação, no Tejo Internacional. Foto: Quercus ANCN

Samuel Infante, do núcleo de Castelo Branco da associação, explicou à Wilder que “existe sempre alguma diferença” entre o número de casais que iniciam o processo de reprodução e as crias que efectivamente nascem e que sobrevivem, neste caso um total de 10. “Alguns estudos apontam um sucesso reprodutor de 54%”, indicou, sendo que na área do Tejo Internacional “a falta de alimento, a perturbação e a predação justificam estes resultados”.

Quanto ao Alentejo, onde existe a segunda maior população de abutres-pretos em Portugal, foram marcadas este ano três crias nascidas nos territórios da Herdade da Contenda. Em Portugal, o abutre-preto está ainda presente na Reserva Natural da Serra da Malcata – onde se situa a colónia mais recente – e no Parque Natural do Douro Internacional.

 

Venenos, linhas eléctricas e chumbo preocupam

Mas entre as maiores ameaças à sobrevivência desta e de outras espécies de abutres em Portugal, de acordo com uma análise realizada pela Quercus, estão os venenos e as linhas eléctricas.

A ONGA portuguesa analisou os dados obtidos através de vários projectos de conservação e nos três centros de recuperação de fauna selvagem que gere, entre 1999 e 2021, que “permitem concluir que em 197 registos de mortalidade não natural das três espécies de abutres presentes em Portugal – grifo, abutre-preto e abutre-do-Egipto – as principais ameaças às aves necrófagas foram os envenenamentos (45%), seguidos das electrocuções em postes elétricos de media tensão (20%) e a falta de alimento (12%), entre outras  como o tiro e colisões com aerogeradores”.

Marcação de cria de abutre preto, avaliação do estado sanitário e recolha de amostras para análise toxicológica. Foto: Quercus ANCN

Os casos de intoxicação por chumbo têm também vindo a aumentar nos últimos anos, como mostraram estudos realizados pela Universidade de Murcia, que analisou a presença de metais pesados em amostras de sangue e penas recolhidas nestas aves. “Os resultados gerais apresentaram valores baixos com excepção do chumbo, antibióticos e anti-inflamatórios”, afirmou a Quercus, alertando para a necessidade de “continuar com o monitorização analítica destas aves necrófagas em próximas campanhas dado os valores detectados”.

Os efeitos do chumbo, usado em munições de caça e de pesca, são graves para estas aves. Quando é absorvido, este metal pesado “afecta todo o organismo, prejudicando a saúde geral, a capacidade reprodutiva e as faculdades mentais”, descreveu recentemente à Wilder Samuel Infante. E mesmo que as doses de chumbo ingerido não provoquem a morte, o sistema imunitário é também afectado devido à redução de anticorpos e a flora intestinal fica alterada.

No âmbito do combate às ameaças que afectam os abutres em Portugal, a Quercus tem estado envolvida em vários projectos de conservação da biodiversidade, nomeou ainda a associação. Em causa estão o Projecto Linhas elétricas e Aves, o Programa Antídoto, o  SAANTI -Sistema de Alimentação de Aves Necrófagas do Tejo Internacional, assim como o Programa de Monitorização de Avifauna, realizado em parceria com o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). “Estes trabalhos de monitorização enquadram-se no âmbito do projeto “Investigação e monitorização de avifauna no PNTI”, ao abrigo do protocolo de colaboração assinado entre o ICNF, a Quercus e o Fundo Ambiental.”

 

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.