Todos os dias, biólogos da Universidade de Évora percorrem as estradas da região à procura de animais mortos na estrada. O projeto LifeLines quer saber qual o impacto das rodovias na mortalidade dos animais selvagens e o que pode ser feito para a evitar.

 

Luís Sousa sintoniza o rádio da carrinha branca para ter companhia. Ao mesmo tempo despontam os primeiros raios de Sol sobre Évora. Às 07h00 de uma sexta-feira de Outubro, o biólogo de 30 anos prepara-se para mais um dia de trabalho no projecto LifeLines. O café da  bomba de combustível, junto à rotunda do Raimundo, foi essencial.

Hoje vai fazer três trajectos à procura de animais selvagens que morreram atropelados. “Seria bom não encontrar nenhum”, desabafa.

A carrinha começa por percorrer a estrada que liga Évora a Estremoz, sempre pela berma, com os quatro piscas ligados e sem passar dos 20 km/h de velocidade.

A primeira vítima surge ao quilómetro 9. É uma pequena ave, já em estado avançado de decomposição. Luís Sousa sai do carro, observa o cadáver no chão e insere no tabletinformação sobre o animal e o local onde se encontra. A tecnologia permite que aquelas notas se juntem à Base de Dados Nacional de Atropelamentos de Fauna onde, 365 dias por ano, um dos computadores da Unidade de Biologia da Conservação (UBC) da Universidade de Évora regista este tipo de informações.

 

Sapo-corredor

 

O projeto LifeLines começou em Agosto de 2015 e terminará em Julho de 2020. O grande objectivo é “atenuar problemas para a preservação da biodiversidade que se colocam hoje em dia sobre estradas e que têm aumentado no último século”, explica António Mira, coordenador do projecto e professor na Universidade de Évora. O projeto avalia, experimenta e promove medidas para diminuir os efeitos negativos de infraestruturas lineares, como estradas, em várias espécies de aves, mamíferos, anfíbios e répteis, desde ginetas, corujas a cobras, ratinhos e pequenas aves. Outro dos objectivos é desenvolver uma infraestrutura verde para ajudar a conservar a biodiversidade da região.

Mas para isso é essencial o trabalho de campo de Luís Sousa. O biólogo está a fazer agora a estrada que liga Estremoz a Montemor-o-Novo.

Ao fim de 21,4 quilómetros avista o segundo animal morto. Trata-se de um rato-de-Cabrera. O cadáver do pequeno roedor é levado para junto da carrinha onde, com um pequeno bisturi, o biólogo retira duas pequenas amostras e coloca-as em dois tubos com uma solução de preservação, para mais tarde serem analisadas em laboratório. O corpo do animal é devolvido à natureza e Luís Sousa volta à carrinha, onde volta a inserir os dados no tablet.

 

Morcego-anão

 

“Sou um apaixonado pela natureza”, conta este biólogo. “Tive a sorte de ter crescido num ambiente rural, o que me proporcionou um contacto próximo com o campo e os animais.”

Luís Sousa sempre soube que queria ser biólogo. Após concluído o mestrado, surgiu a oportunidade de integrar o projeto LifeLines. “Apesar de ter que me confrontar com os animais mortos nas estradas, o que me motiva é o desenvolvimento e aplicação de medidas que ajudem na preservação das espécies.”

Apenas um quilómetro depois, Luís Sousa encontra uma pequena ave, outra vítima mortal. Ao aproximar-se, percebe que é uma fêmea de toutinegra-de-cabeça-preta. O pequeno corpo da ave está em perfeito estado e, à semelhança do anterior, é devolvido à natureza.

 

Estradas, barreiras físicas para muitos animais

O problema do atropelamento de animais selvagens foi debatido no início do ano na Assembleia da República, levando à aprovação de três projectos de Resolução com medidas para o solucionar, apresentados pelo BE, PEV e PAN. Estima-se que todos os anos morram em Portugal cerca de 120 animais em cada quilómetro de estrada, desde o lobo-ibérico à coruja-das-torres, segundo o deputado André Silva, do PAN.

As estradas são barreiras físicas para muitos animais e têm um impacto no isolamento populacional e genético de espécies. Além disso, fragmentam zonas importantes para a alimentação e reprodução de muitos animais selvagens.

 

Tentilhão

 

Talvez tenha sido isso o que aconteceu a este chapim-azul juvenil que Luís Sousa encontra morto ao quilómetro 22,9.

O relógio marca agora 10h00. Estão percorridos 35 quilómetros e Luís Sousa faz uma pausa num café na berma da estrada perto de Arraiolos. É um lugar habitual de paragem. Luís Sousa vai à procura das suas “fantásticas empadas” e de um chá frio de limão. E de outro café que o ajudará a concluir o dia de trabalho.

Este terceiro percurso faz a ligação entre Montemor-o-Novo e Évora. O céu azul, limpo, conjuga-se com os campos onde dominam os tons castanhos, apenas ponteados de verde por algumas árvores e plantas.

O lixo amontoado pela berma da estrada às vezes leva a erros. Como uma casca de banana que obriga o biólogo a parar, desconfiado de que seria mais um animal morto na estrada.

 

Cobra-de-escada

 

É ao fim de 10 quilómetros que encontra o quinto animal morto. “Desta vez é uma cobra-de-ferradura, ainda juvenil, que tem este nome por causa de uma mancha escura em forma de ferradura depois da cabeça.”

O sol sente-se cada vez mais forte e o cansaço já pesa. São 12h15 quando Luís Sousa chega ao fim do terceiro e último percurso.

Luís Sousa percorreu três estradas nacionais, num total de 100.8 quilómetros em 4 horas 15 minutos. “Este foi um bom dia porque apanhámos apenas cinco animais mortos”, afirma Luís Sousa.

Amanhã será um novo dia. O mesmo trajeto será percorrido por outro biólogo, Tiago Pinto, que irá procurar os animais mortos por estas estradas do interior alentejano.

 

Saiba mais

O projecto LifeLines, com um orçamento total de 5.540,485 euros, é co-financiado pelo programa europeu LIFE.

São parceiros do projecto as Universidades de Évora, do Porto e de Aveiro, as Câmaras Municipais de Évora e Montemor-o-Novo, a Infraestruturas de Portugal e a Marca – Associação de Desenvolvimento Local.