Fotos: Henrique Bravo Gouveia

O caso do priolo, que deixou de ser a ave canora mais rara da Europa

Lonely creatures

O priolo (Pyrrhula murina) não é uma ave qualquer. Estima-se que existam hoje 1.250 priolos no planeta, todos num cantinho montanhoso da ilha de São Miguel, nos Açores. Há pouco mais de um ano perdeu o título de ave canora (que canta) mais rara da Europa para o tentilhão-azul-da-Gran-Canaria (Fringilla polatzeki).

 

A raridade do priolo tem atraído turistas a São Miguel. Querem ver aquela ave. Ou pelo menos tentar.
Fui uma dessas pessoas e fiz as minhas primeiras tentativas em 2015, entre chuvas intensas, estradas esburacadas e desabamentos de terra. Mas fiquei muito aquém, conseguindo apenas avistar a espécie em museus.

Em 2016 decidi mudar-me para a ilha de São Miguel e comecei a trabalhar no ExpoLab (Centro de Ciência Viva), um dos sítios responsáveis pela conservação do priolo. Ali poderia aprender tudo sobre a ave que insistia em escapar-me e tentar incutir também nos muitos visitantes a importância da preservação de uma espécie e do seu habitat, ambos únicos no país.

 

 

Em Março de 2017 consegui o feito: avistar não um, não dois, mas vários priolos. O dia era chuvoso como muitos outros, o que conferia um ambiente místico, mas longe de ser propício, ao avistamento de uma espécie tão rara. A localização manter-se-á secreta para protecção da ave, mas posso acrescentar para futuros intrépidos que queiram avistar o priolo que não é muito difícil de os encontrar.

Demorou tempo até poder confirmar o meu primeiro avistamento pois rápidos como são e pouco à vontade na presença de pessoas levantavam voo antes de me aperceber de que espécie se tratava.

Mas eventualmente consegui observar estas fantásticas aves em todo o seu esplendor. Meio rechonchudas com as penas molhadas de tanta chuva e o seu chamamento constante (um único assobio) pareciam autênticos peluches a posarem para o meu contemplamento.

 

 

A única coisa em que conseguia pensar enquanto observava os priolos no seu dia-a-dia normal foi o quão perto estivemos de perder uma espécie única e especial, confinada a uns meros quilómetros quadrados apenas por capricho e ganância, algo que continua a repetir-se um pouco por todo o lado com as mais variadas espécies.

Isto porque, em 2005, o priolo foi classificado como Criticamente Em Perigo, na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Este foi o desfecho de um longo caminho.

No século XX o priolo viu o caso mal parado quando os agricultores de laranjas começaram a dizimar a espécie sem dó nem piedade. Os Açores foram mundialmente famosos pelas suas laranjas, ou pelo menos assim reza a lenda, e esta espécie de tentilhão tinha um gosto particular pelas flores de laranjeiras. Os agricultores começaram a erradicar os pássaros para protegerem os seus prezados frutos.

No entanto, como que por obra e graça do Espírito Santo, uma praga afectou as laranjeiras, acabando com todas as plantações na ilha de São Miguel (de onde o priolo é endémico). Foi este pequeno milagre que favoreceu o nosso prezado tentilhão, mesmo que em escassos números. Deixaram de ser procurados e puderam continuar a alimentar-se de flores e sementes e de tudo o mais que lhes aparecesse à frente, uma vez que não parecem ser esquisitos no que toca à sua dieta.

Esteve tão próximo da extinção no século XX que muito do que era conhecido acerca deste pássaro era através de espécimes colecionados para museus.

 

 

As ameaças à sobrevivência do priolo agora são outras. No final do século passado, a destruição do seu habitat para agricultura e pastagens voltou a pôr as pobres cabeças do tentilhão a prémio. Este fado afeta muitas outras espécies que partilham habitats semelhantes. A proliferação de espécies invasoras exóticas também trouxe consequências, pondo a sobrevivência de várias espécies de plantas endémicas em causa. Espécies essas das quais o priolo se alimenta.

Para tentar evitar um destino fatal, muitos foram os projetos postos em ação, com a ajuda da UE, para restaurar o habitat natural da ilha de S. Miguel: a floresta Laurissilva. Esta espécie é uma de várias que não necessita de muito para restabelecer a sua população a um número de indivíduos menos crítico. Na maioria das situações é suficiente ter o seu habitat natural e ser deixada em paz, exatamente aquilo que está a ser feito nos Açores.

Educação é também um fator de extrema importância e estão a ser desenvolvidas campanhas junto da população local e de escolas para mostrar que se pode ganhar mais com a sobrevivência do priolo do que com a sua extinção. O ExpoLab (Centro de Ciência Viva) é um dos sítios responsáveis por tais campanhas e onde se pode ficar a conhecer mais acerca desta icónica espécie e do seu habitat natural.

Em 2016, após muitos e bons esforços por parte da União Europeia mas também do governo local, a espécie conseguiu escapar às garras da extinção e está agora classificada como Vulnerável. Boas notícias que não nos chegam aos ouvidos todos os dias.

 

Henrique Bravo Gouveia é biólogo dedicado à comunicação de Ciência. Nos próximos 12 meses é um dos cronistas da Wilder, com a série “Lonely Creatures”. Este é o nome da organização não governamental de Ambiente que criou recentemente.

Através de uma rede de biólogos e fotógrafos, esta associação recolhe informação acerca das espécies ameaçadas – classificadas pela UICN como Criticamente Em Perigo, Em Perigo ou Vulneráveis – e conta as suas histórias, mostrando como são fascinantes. E importantes.

Saiba mais sobre a Lonely Creatures aqui e aqui.